100. A ideia

30/08/2012

Bom, certo dia, como vos falei, sentei ao computador e comecei a conversar com uma linda garotinha. Comecei a lhe falar sobre um mundo paralelo para o qual eu costumava ir. Contava como é o mundo, o que eu fazia nele, sobre os amigos que eu tinha nele. Gostei de contar. Resolvi que tinha histórias que caberiam em um livro. Um livro autobiográfico. Contei algumas das histórias mais importantes que eu tinha. Apenas contava histórias, mas percebi que isso não era suficiente. Esse mundo em que vivo é totalmente determinante em minha personalidade. Sou assim, em grande parte, por causa de meu mundo. Passei a contar as coisas sem pensar, afim de que o livro se tornasse uma forma de expressão pessoal.

Comecei contando algumas coisas sobre o mundo, como ele era, com tudo começou. Aproveitei-me desse período para tentar apontar elementos que talvez provassem a existência desse meu mundo. Após isso, narrei um dos episódios mais importantes da
Fabilândia, que foi a grande guerra, como hoje eu venho a chama-la. Ali perdi meus grandes amigos. Após isso, pulei para a parte onde eu perderia meus novos amigos, que já não são novos, estavam comigo havia um bom tempo. Não tenho a intenção de apenas escrever uma história com um final triste, não quero ficar dramatizando minha pobre vida de infortúnios. Apenas narrei alguns dos fatos que me foram mais marcantes. Não é um final triste. Dói a ausência de meus amigos, claro, mas permaneço vivendo, fazendo em nosso mundo o que mais gosto, que é o bem para as pessoas. Talvez a minha falta de bem de outrora seja o que provocou o mal de meus amigos, que tornou-se também  meu pior mal. Mas prossigo, persisto ainda vivo diante de tudo.

Muitos podem não ter conseguido sintetizar que comecei a contar a história quando ainda estava estudando para ingressar em uma faculdade e, hoje, termino já sendo um professor para outros que têm esse interesse, mesmo sem eu ter terminado minha graduação. O tempo se passou, e eu, escrevendo, fui tomando novas reflexões, fui, através dessa retrospectiva, mudando a forma de olhar minha vida.

Creio que ainda possam pensar que não obtive muito sucesso na vida e que essas perdas que tive foram muito pesarosas. De fato foram. Entretanto, vejo que as pessoas não sabem lidar direito com pesos. Percebo que a maioria das pessoas vê a vida como uma longa estrada, um longo percurso. Caso elas tropecem, caem num chão duro e tem que fazer um grande esforço para se reerguerem. Se há um buraco no caminho, precisam arriscar o pulo, com grandes chances de falha. Ainda, se perdem alguma coisa no caminho, não têm como voltar atrás para buscar. Se não conseguem chegar ao final da estrada, têm uma enorme frustração.

Não vejo a vida assim. Vejo a vida como uma grande piscina. A vida não tem uma rota específica a se traçar. A piscina está cheia de coisas boas, só é necessário que se nade até alcançar cada uma delas. Alguns nados são pesarosos, complicados. Algumas coisas estão muito no fundo, precisa-se de muito ar para chegar até elas. Mas estas trarão recompensas. Se você não alcança uma das coisas que almeja, logo olha para o lado e vê que ainda há várias coisas a serem alcançadas. O peso da frustração não é tão grande assim. Frustrações vêm muitas vezes carregadas de orgulho. Ninguém precisa disso. Não se pode restringir a vida a uma única possibilidade. Há um terreno muito grande em nossas casas, mas muitas vezes deixamos de construir aqueles castelos lindos e gigantes com medo de destruirmos o casebre que construímos bem no centro. A vida não é isso.

Esse não é um livro sobre escapismo. É um livro sobre o Fabinho. O Fabinho é isso. Sou carregado de um caminhão de coisas ruins, mas acredito que algumas coisas boas em mim possam valer a alguém. Pode valer a milhares de pessoas, a centenas, dezenas, mas, ainda que seja apenas uma pessoa, já valeu a pena. Continuo vivendo. Talvez mais do que qualquer outro no mundo, uma vez que vivo em dois mundos diferentes. Tenho em mim a comprovação de que ideias podem valer mais do que muitos pensam. Assim, estou certo de que há muitos outros mundos como o meu, apenas esperando para serem descobertos.

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99. Prosseguimento

29/08/2012

A vida, o tempo não para. É o que dizem por aí. Prossegui. Meu amor buscou novas artes, novo engenho, novas esquivanças, e ainda novas esperanças. Não que eu me esqueça das coisas tristes que aconteceram. Elas só não estão mais acontecendo.

Reformei o Teatro Tito. Escrevi até uma peça a ser interpretada. Semanalmente há uma grande apresentação por lá. Sigo calmo, tranquilo. Divirto-me. Tenho trabalhado em meu mundo como um governante, um bom governante. As pessoas que existem lá não duram mais que um dia. Aparecem, me ajudam e somem. Queria fazer com que minha mente se tornasse mais grata. Faço melhorias por lá, trabalho cada canto que percebo que poderia ter algo mais interessante. A cidade, outrora vazia, ainda que tecnológica, hoje é bem densa, cheia de prédios, lugares para se fazer alguma coisa. Aumentou o número de pessoas que encontro. Todas me conhecem, não conheço ninguém. Não são meus amigos, mas os valorizo bastante. São gente importante para mim. Queria vê-los mais para lhes retribuir o favor, fazer de suas vidas algo melhor. Mas desfruto do bem que me fazem, creio que seja isso o que querem.

Prossigo com os estudos. Como já disse, percebi que adoro a linguagem. Eu sempre tive problemas no ensino médio quando refletia sobre o fato de não gostar de matéria nenhuma, até que percebi essa vocação. Ainda mais quando comecei a escrever o livro, onde eu aprendi que tudo aquilo que se aprende sobre sua língua pode (ou deve) ser esquecido. Aprendi muito sobre novas formas de ver a vida na faculdade.

Meu cabelo já está quase do tamanho que estava quando comecei a escrever o livro, tendo em vista que, alguns meses depois do início, ele foi totalmente raspado. Quando comecei a escrever, ainda tinha meus amigos Tito e Nubi. Percebo que talvez haja uma confusão quanto a isso. Narro o livro conforme a vida acontece, é assim que decidi que haveria de funcionar. Espero ter me feito claro. Tanto que, há muito tempo, citei sobre o aparecimento de uma nova ilha, que só fez sentido agora. Citei também que algo me entristecia, era justamente o término daquele namoro. Eu sei que um bom autor não costuma revelar seus segredos, seus planos, mas não sinto a necessidade de ser um bom autor. Queria eu contar histórias e o fiz. Interessa-me mais que ela seja compreendida e levada a sério do que me fazer passar por um daqueles grandes intelectuais que se dedicam anos planejando cada palavra de seu livro para, no final, deixar tudo confuso, sem solução aparente. Por mais que eu adore os autores que o fazem, busco grande inspiração neles. Mas não sou em tudo como eles. Escrevi muitas coisas fora de meu planejamento, em nada lamento por isso. Busco me tornar compreendido, tudo foi relevante para isso. Por isso prossigo. Prossigo mostrando no que o mundo me fez pensar, o que ele me fez aprender. É isso o que mais importa para mim.

Aprendi que coisas boas trazem bons frutos. Sementes podres não frutificam. Trabalhei durante pouco mais de seis meses num lugar que eu detestei. Ainda assim, mantive-me no mais alto rendimento que poderia alcançar, sendo eu recompensado várias vezes. Tenho uma amiga, conheci-a recentemente. Ela possui quantidades incrivelmente maiores de açúcar em sua alma. Seu maior medo é magoar as outras pessoas. Também tenho esse medo. Meus amigos Jumi e Silu lançaram-se à minha frente por diversas vezes, em busca de minha proteção. Aprendi que isso é o amor. A sociedade carece disso. Busco amar com muitas das minhas forças todos os que me aparecem, sem distinções. Isso realmente me faz ter muito medo de magoar as pessoas. Qualquer pessoa que seja, tenho medo de magoar. As maiores dores que já senti nessa vida são provenientes de meus atos idiotas que magoam ou machucam ou até matam as pessoas, como vos contei. Ela também é assim. Ela deixa de envolver-se com as pessoas com medo de magoá-las. Acho válido o medo. Não acho válido deixar de viver por causa dele. Ele te dá mais segurança, te faz calcular melhor seus passos. Tenho tentado ensiná-la a não ter medo de envolver-se, pois mágoas de atitudes corretas não são eternas. São como a dor da injeção: pode até causar certo desconforto físico na hora, mas é algo que fará bem. Agindo corretamente, fazendo o bem sempre, isto é, fazendo sempre o que é certo, ainda que se magoe alguém, isso será uma dor que passará. Mesmo que se aja de maneira inadequada, por se estar tentando pautar a vida em fazer o que é certo, essa dor passa. Eu aprendi que dores passam diante de coisas certas.

Segui fazendo meu trabalho da melhor forma possível, fui recompensável de maneira ainda melhor. Consegui trabalhar na área que gosto, consegui o ambiente de trabalho mais lindo e gratificante que poderia existir. Exatamente do jeito que eu passei a sonhar. Passei a ser uma referência intelectual, eu que fora antes acusado de desprovido de inteligência. Passei a dar conselhos, bons conselhos, e ser respeitado em meus conselhos. Tornei-me sábio diante do julgamento das pessoas. Alcancei minha realização profissional, algo que me tem valido muito mais do que qualquer dinheiro. Além disso, sou reconhecido em meu trabalho como alguém bastante confiável, de caráter limpo e exemplar. Não me julgo bom o suficiente, nem melhor do que os outros, mas entendo que sou alguém que, um dia, percebeu que era importante fazer o que é certo. Minha concepção de certo é minha concepção de certo, ninguém precisa concordar comigo. Pra mim, certo é fazer o bem para as outras pessoas, incondicionalmente. Não sou ainda assim, mas tenho isso como meu alvo, o que já traz bons frutos. Tornei-me professor de português, entendendo que não é natural do ser humano acordar cedo para ficar, durante horas, sentado em uma cadeira dura ouvindo alguém falar sobre algo que não lhe é interessante. Tento propor momentos agradáveis e compartilhar com meus alunos algo que ninguém há de tirar deles, que é o conhecimento. Faço deles meus amigos e trato eles do mesmo jeito que a qualquer outra pessoa. Olho para minha vida, olho para meu rumo. Agrado-me do que creio que virá.


98. Perdi

27/08/2012

Aquilo que mais me fazia sentido, mais me dava força. Aqueles que mais me traziam sentido, esperança. Aquilo que me renovava, que me trazia de volta às ideias, aqueles que nasceram de minhas ideias. Eles eram aquele tudo que não se pode restituir. Aquele riso a fim do dia que não pode faltar. Eram parte de mim, uma parte insubstituível. Eu aprendo a viver utilizando outras partes de mim, sempre o fiz. Muito se diz sobre o fato de o cérebro ter plasticidade, adaptar-se a utilizar outras regiões para desempenhar a mesma função. Sou assim com essas perdas. Elas doem, mas são dores superáveis. Consigo superar muitas coisas nessa vida.

Contudo, tenho visto muita dificuldade em superar a falta que me fazem aqueles sorrisos que eu tinha todas as noites. Era muita relevância de meu tudo saber que, chegando a noite, eu me deitaria e viajaria a um lugar onde ainda é dia, sempre é de dia, e lá encontrarei amigos que não buscam sono, buscam a mim. Eu ainda faço essas viagens. Defendo meu mundo de todo mal que por lá aparece. Tenho algumas crises de saúde quando tardo a perceber que estou sendo atacado, mas tudo volta ao normal depois disso. Mas esse normal está muito abaixo do que eu queria. O que eu mais queria era ter respondido à voz de Tito. Tito. Aquele rapaz enorme que conseguia ter um coração ainda maior do que ele mesmo. Eu brincava que o coração dele precisava de uma ilhota inteira para abrigar-se. Ou talvez seu coração já fosse uma das ilhotas. Quem saberia se não é?

Era lindo saber que eu mandei formar minha região azul como um palco para shows onde, futuramente, eu estaria junto ao meu amigo de todos os dias ali, tocando. Eu e Nubi, os maiores guitarristas de toda Fabilândia. Por lá nunca passou alguém que tirasse um som tão bonito de uma guitarra Fender quanto ele. O melhor timbre que poderia existir, o timbre inimaginável. Ninguém vai se esquecer daquele solo lindo que ele fez durante a “Balada da noite que não cai”, nossa canção mais emocionante. Ele também cantava, sua voz era tão linda. Fizemos os duetos que o mundo pagaria o mais caro preciso para ouvir. Pobre do mundo, que não conhece a Fabilândia. Estou certo de que, se pudessem viajar até lá comigo, se todos tivessem essa oportunidade, toda vez que se conhecesse alguém novo, se perguntaria: “Já assistiu aos shows da Fabilândia?”. O mundo seria menos provido de tristeza se pudesse assistir aos incríveis shows da Fabilândia.

Tito gostava do teatro. Representar era ser. Ele criava peças, pedia para que participássemos. Pouco utilizamos aquele teatro, eles não tiveram muito tempo para que desfrutassem dele. Até quando levavam um roteiro até Tito, era como se aquela fosse sua vida. Soubera eu antes, já teria mandar erguer um teatro qualquer por lá. E o mundo diria: “Há um ator na Fabilândia, um ator como nunca antes se viu”. Era uma naturalidade incrível. Eu deveria ter percebido antes, vendo o jeito como ele contava suas piadas, como procedia com seus gracejos. Eu não deveria tê-lo deixado partir.

Huor era bom. Pouco tempo vivi com ele. Ele se perdia em seus próprios discursos, pude rir bastante com ele. Fazia muito sentido ele estar ali, estou certo de que ele entraria na estante de melhores amigos, tendo vivido mais. Ou, se ele aparecesse um pouco depois, não teria morrido com os outros, estaríamos juntos. Não posso descrever o que tenha sido melhor, foi tudo a pior coisa acumulada, um amontoado de fezes recaindo sobre mim.

Quantos momentos inesquecíveis; me esqueço do que como ao jantar, mas me recordo perfeitamente de tantos momentos incríveis que tivemos. Como aquela vez em que Nubi quis aprimorar seu poder de fogo. Quis mostrar que era valoroso. Claro que era, ninguém duvidava. Mas ele quis mostrar, foi matar um monstro nas areias. Usou seu fogo, com toda sua força. Quase transformou o deserto em vidro. Tito tinha, além de suas incríveis habilidades, aquele poder que, apenas ao estender sua destra sobre nós, como se tivesse pó em suas mãos e arremessasse em nós, de baixo para cima, nos fazia cair em um delírio. Não havia nada em suas mãos, mas éramos envolvidos em um círculo onde tínhamos uma sensação de prazer infinita. Isso durava alguns segundos. Era o que havia de melhor, ele fazia isso com a gente quando estávamos alegres. Era quase como saudação e despedida, algo totalmente pertinente.

Quem dirá que nosso amor era falso? Quem dirá de meu delírio? Aquilo era o que de mais real o amor nos pode mostrar. Aquilo era o máximo resultado que se atinge estando sóbrio. Tive quatro grandes amigos naquele mundo, os quatro maiores pedaços de mim que deixei cair pelo caminho. Ainda ando. Manco, mas ando. Colho do fruto da idiotice. Creio que a pior forma de ser idiota é não dar tudo de si por alguém que ama. E a pior dor que existe é quando se percebe que deixou isso ocorrer.


97. Inconsequência

23/08/2012

Logicamente, querendo eu saber o que ocorria, eu fui atrás dele pelo buraco aberto no teto. Ao sair de lá, olhando ao meu redor, eu via meus três amigos enrolados por algo que me pareciam tentáculos que vinham de um vilão. Kerst era seu nome. Foi apenas o que pode dizer. Seus tentáculos saiam de lugares aleatórios de seu corpo, algo que parece minha técnica. Meus amigos se viam totalmente presos por aquilo.

Vi os olhos de decepção de Tito. Ele não acreditava que eu teria feito isso. Não conseguia conceber que eu os tivera colocado em segundo plano, não os atendendo no momento chamado. Eu também não acreditava, naturalmente. Eu que, naquele ponto da minha vida, já me julgava como alguém responsável. Não concebia. Eu via meus amigos totalmente presos diante de mim, sem qualquer possibilidade de escapar. Nubi parecia mais triste por saber que partiria e me deixaria só do que pelo fato de partir. Não se importava tanto consigo mesmo, e sim comigo. Aquele amor lindo que eu tinha pelos meus amigos antigos. Eles não voltaram, mas isso não me impediu de amar esses novos. Huor ainda não tinha esse contato tão imenso comigo, mas era um bom rapaz. Mas Tito e Nubi eram tudo o que havia de mais lindo no meu imaginário. Nossa amizade era linda, eu sempre os amarei com muitas de minhas forças. É difícil que alguém desse mundo conquiste um pedaço tão imenso de meu coração quanto conquistaram esses meus amigos da Fabilândia. Incrivelmente difícil.

Meu oponente agora tinha reféns, de uma forma muito sólida. Eu estava travado, incapacidade de fazer qualquer coisa. Os olhos de Tito, além de expressar o desapontamento, também diziam claramente sua preferência: eu era mais importante para o mundo do que ele. Tecnicamente, ele está certo. Mas o mundo sem eles torna preferível a inexistência, absolutamente. Que alegria eu teria naquele mundo sem eles? Inimaginável.

Foi tudo muito rápido. Ao encontra-los, acima do teatro, já pude olhar para cada um e retirar as mensagens de seus olhos. Eles pareciam ter a garantia da morte, algo terrível. Eu, olhei para o monstro e, paralisado, buscava o que fazer para trata-lo sem que seus reféns se ferissem. Creio que essa cena inteira, esse capítulo por completo, refere-se a algo que ocorreu em cerca de vinte e cinco segundos. Não tive tempo de reparar que, ao sair do teatro, o céu estava avermelhado, grande densidade de névoa por volta de tudo. Eu não tive tempo de nada.

Após eu ter olhado rapidamente cada um, algo que se repetiu acho que duas vezes, aquele monstro gritou qualquer grunhido e também “Eu sou Kerst!”. Foi o que ele fez. Ele tinha reféns, provavelmente conseguiria negociar comigo, fazer qualquer coisa. Ele conseguiria me vencer. Mas não foi essa a sua escolha. Ao término de seu grito, seus tentáculos se envolveram de alguma energia e começaram a esmagar meus amigos. Foi muito rápido. Eu via seus corpos se contorcerem, seus ossos quebrando-se, sangue, suas faces sendo espremidas. Creio que só Nubi tenha tido tempo de gritar de dor, talvez pela posição dos tentáculos. Ao menos foram os únicos gritos que ouvi. Muita coisa ruim me aconteceu na vida. Coisas terríveis e traumatizantes. Convivo bem com todas elas. Nenhuma cena me foi tão horrível na história como essa, como ver claramente, fisicamente, meus três amigos serem mortos em minha frente, da forma mais cruel, violenta e dolorosa que eu poderia pensar, se é que minha mente tem o poder de criar algo assim tão desesperador. Seus corpos, como lá ocorre, começaram a se esfarelar, desfragmentar, misturando-se, assim, à névoa. Tudo isso sem que eu nada pudesse fazer, eles já estavam mortos.

Tive apenas o tempo de alongar uma pequena parte de meu braço, colocando-a em outra dimensão e tornando-a invisível. Com isso, sem que ele visse, usei para prendê-lo algo que também poderia ser como um tentáculo desses que ele utilizou. Eu amontoei isso tudo em volta dele e pensei em mata-lo da mesma forma. Mas eu senti a necessidade de ser mais violento. Ele já estava preso, totalmente vulnerável. Eu acertei seu rosto com meu joelho, primeiramente, e o carreguei até o topo da montanha. Lá, subi mais ainda, uma mão em seu corpo e outra na parte de trás de sua cabeça, ainda o prendendo com uma parte esticada de meu corpo. É isso que eu faço, eu me estico, expando meu corpo da forma que eu quiser, podendo transitar em qualquer dimensão. Não me contentei. Comecei a descer com alta velocidade e chocar sua cabeça contra o topo da montanha. Eu estava utilizando minha dimensão que torna-me invulnerável e, por mais que eu já tenha mencionado isso, retorno às minhas aulas de física: toda ação provoca uma reação de mesmo sentido e intensidade, mas direção oposta. Creio que só decorei isso por causa de minha técnica na Fabilândia. Bem, com essa dimensão, eu torno-me impenetrável, e faço com que qualquer ação que meu corpo realize contra outro qualquer não receba uma reação, mas faça com que a minha ação tenha a intensidade dobrada. Pois bem, poderia eu poupá-los disso e apenas dizer que empurrei sua cabeça contra o topo da montanha estando a uma velocidade inimaginável, fazendo sua cabeça explodir violentamente como se não houvesse amanhã.

Não sei até hoje se devo me arrepender de não o ter torturado ou se me agrado de tê-lo matado de uma forma absurdamente violenta. Era tudo o que eu queria fazer com Fário, mas que, naquela época, eu ainda não tinha a força suficiente para fazê-lo. Na verdade, não devo refletir sobre o castigo que dei ao assassino, mas sobre minha irresponsabilidade. Poderei, a partir de agora, ser conhecido como “Fabinho – o idiota que fez seus melhores amigos morrerem”. Meu buraco não é mais somente na barriga, mas também em tudo, creio que principalmente no cérebro.


96. Prioridade

21/08/2012

O carnaval se passou, foram momentos mais do que alegres, conheci pessoas que até hoje guardo com muito carinho em meu coração. Todos os eventos de lá alcançaram os lugares mais profundos de meu coração gritando: “Alegre-se!”. Minha nova realidade trazia todas as circunstâncias necessárias para que eu me encontrasse feliz novamente.

Quinta-feira. Cheguei à minha humilde residência após boas aulas na faculdade. Era tudo muito novo, eu vinha me agradando com tudo o que me era exposto, meu senso crítico não estava tão aflorado. Sou muito apegado ao futebol. Sempre gostei de jogar e de assistir. Meu time do coração estava jogando naquela noite, com transmissão ao vivo na televisão fechada. Por estudar ao período noturno, sempre acabo tendo a possibilidade de assistir aos jogos apenas à segunda metade. Era um jogo tenso. Tudo me fazia querer assistir aquilo até o final. Eu estava bem concentrado, bem preso àquilo. Eu estava sozinho na sala assistindo.

Ouço me chamarem. Era Tito. Uma voz doce e rasgada com um tom um tanto quanto aflito. Eu estava acostumado com isso. Era natural que, quando algo lá ocorresse, ele me chamasse. Entretanto, hora ou outra, eu era chamado por certas bobagens. Isso ocorrera durante o acampamento: eu estava junto a todos, desfrutando de várias atividades infantilmente divertidas, brincadeiras de salão, entre outras coisas. No meio de todo mundo. Eles me chamaram, eu saí correndo ao banheiro, simular qualquer coisa para que não me vissem enquanto estivesse em meu mundo, pois já comentei que é como se eu estivesse em coma, meu corpo desliga-se totalmente; isso poderia preocupar o pessoal do acampamento, não queria isso. Escondido, fui ver o que era e notei que não se tratava de nada interessante, apenas alguma reação estranha nas águas. Isso me irritou um pouco, mas eu os entendo, tranquilamente os repreendi e tudo ficou bem. Mas, em decorrência disso, acabei por não atender o chamado de meu amigo.

Ele me chamou novamente, me parecia aos prantos. Preocupei-me, desesperei-me, tão logo resolvi olhar para o mundo e ver o que ocorria. Nada encontrei. Achei estranho. Olhei melhor e vi Nubi e Huor tranquilos a passear pela praia. Eu não entrei no mundo, apenas vi o que estava ocorrendo através daquele sistema que desenvolvemos.

Voltei a assistir ao jogo. Meu time ganhou. Lembro-me de ter desligado a televisão, desligado a luz e, no momento em que estava indo até meu quarto, no corredor, Tito gritou mais uma vez. Gritando mesmo, me repreendendo. Gritou “Fabinho” das primeiras vezes, mas chegou a “Fábio” na terceira. Corri para o quarto, deitei-me ainda com algumas coisas à cama que arremessei rapidamente ao chão e, finalmente, entrei em meu mundo. Para minha surpresa, não achei mais meus amigos andando ao redor da praia. Olhei para as ilhotas. Fui em direção a elas, procurando-os em cada uma. Cheguei à última.

Ocorreu algo interessante quando namorei a garota da internet, algo que nunca antes vi ocorrer: nasceu uma ilhota em meu mundo. Não sei que tipo de sentido isso pode fazer, mas nasceu. Lá havia uma grande construção, bonita, com teto circular, linda arquitetura: era um teatro, um grande teatro.

Andando, entrei no teatro. Lentamente. Eu estava muito tenso, meus amigos não apareciam. Sei que faço tudo parecer muito rápido, mas não se enganem. A agonia que eu sentia era tamanha que, caso eu pudesse materializá-la, ficaria ainda maior do que Tito, que era gigante. Cheguei à sala principal. Havia alguém ali no palco, numa região escura. Um foco de luz acendeu-se ao centro. Nubi, com um violão, começava a tocar uma canção. Uma linda canção, cuja melodia me lembro até hoje, mas que repetia apenas uma frase: “no mundo, não se esconde nada”. Até hoje – e isso jamais acabará – não consigo entender o que significa isso. Não consigo entender, simplesmente. Creio que não haja um sentido. Foi só qualquer coisa que ele tinha a cantar naquele mundo, a única coisa que lhe veio à mente. Quem sabe esta não era sua melodia preferida, algo que teria feito para outra situação. Ele cantava e eu o chamava. Ele engolia seu choro e não me podia responder. Não havia ninguém na plateia. Com isso, eu flutuei até ele, não muito rapidamente, mas com certa velocidade. Quando cheguei próximo a ele, ele voou verticalmente, quebrando o teto do teatro para sair. Ele estava me olhando com toda a dor que seu coração poderia sentir.


95. Tudo se encaixando

20/08/2012

Alguns dias após isso, as coisas estavam mudando. Iniciei minha saga na faculdade, era tudo novo. Era a primeira semana. As músicas que eu ouvia eram legais, as músicas que eu tocava eram legais, eu estava empolgado com um novo acampamento que viria em ocasião do carnaval. Enfim, era um bom momento. Daquela minha primeira semana de aula eu não pude aproveitar tanto, uma vez que o carnaval estava se aproximando. Por não ser da primeira lista de chamada, eu comecei a assistir as aulas a partir da segunda semana, numa terça. Era um mundo muito novo, muito novo mesmo.

Foi ali, naquele meio, que eu comecei a entender o valor da linguagem. Curso a licenciatura em Letras, curso que tem a finalidade de formar professores de português. Durante boa parte de minha vida eu tive péssimas professoras de português, que me faziam acreditar que eu não possuía identificação nenhuma com a matéria. Meu curso escolhido não tinha nada a ver com isso, tinha a ver com mídia, criação. Era isso o que eu queria. Entretanto, em algum fundo de minha alma, eu percebi que, durante as aulas que me eram ministradas, eu sentia a necessidade de executá-las de outros jeito, em qualquer matéria que fosse. No cursinho eu tive professores de português incríveis, que me fizeram realmente achar a matéria um pouco mais interessante. Logo percebi que tinha facilidade para com a redação (espero que ela faça algum sentido após tantas páginas) e com algumas propriedades gramaticais. Interessava-me muito pela literatura, até por ter um professor que fazia com que eu ficasse a semana inteira esperando por sua aula. Meu pai, numa bela noite de alguma lua, me fez colocar como segunda opção o curso de letras, pensando em alguma possibilidade de tradução ou coisa do tipo. Detesto tradução e sou péssimo com línguas estrangeiras, mas fiz bem em ouvi-lo.

Sem perceber, eu me via apaixonado pela linguagem, totalmente inserido em meu curso e determinado a lecionar. Essas ideias me vieram depois, a afeição pelo curso também, mas acho interessante coloca-las aqui. Na verdade, o grande fato aconteceu no dia que corresponde à minha segunda aula. Mas eu queria deixar constar que, após grande depressão em minha vida, eu finalmente estava vendo as coisas de um jeito bom, assim como vejo hoje, no momento em que escrevo. Meus sonhos têm se realizado, sou um contente professor de português em um cursinho que me enche de alegria. Naquele momento eu estava feliz, a ira já se fora e tudo se encaixava, até mesmo as coisas que eu não sabia que se encaixariam. Eu jamais imaginei que um dia eu estivesse na posição de professor de português, me imaginava em profissões totalmente diferentes, mas, na primeira vez que entrei em uma sala de aula, fiquei pensando: “Qual foi o motivo que me fez pensar em fazer outra coisa? Fabinho é isso!”.

Tudo se encaixava. Exceto por uma coisa. Uma coisa terrível. Nunca soube o que levou essa coisa terrível aos meus pensamentos. Nem sei bem como ela vinha, mas alguma coisa me alertava de que nem tudo estaria na mais perfeita paz. Não era nada, apenas uma sensação estranha. Eu procurei em tudo pra tentar identificar o que poderia ser. Mas nada fazia sentido.


94. Nervosinho

19/08/2012

Voltamos ao chão e começamos a discutir enfurecidamente. Ele teria se ferido, pouco, mas estava ferido. Eu não conseguia conceber que ele tinha percebido, nem aceitar que eu tinha pensado nisso, até porque foi muito rápido, não foi um pensamento que tenha gerado grandes reflexões. Foi uma fração de segundo. Mas ele viu isso nos meus olhos. Mas eu não ia me matar, certamente não iria, já estava preparado para acabar com o monstro sem problemas. Eu jamais esperava que meu amigo fosse fazer isso.

E discutíamos sobre meu ódio, razão da existência desses monstros, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre o que eu pretendia que o mundo virasse, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre a minha irresponsabilidade, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre minha ingratidão, sobre a idiotice dele ao fazer isso. Eu não tinha muito que falar, estava totalmente irado, totalmente, como estive poucas vezes em minha vida. Antes que eu lançasse sobre ele um raio destruindo-o, eu fugi dali, rapidamente. Fiquei tentando fazer qualquer coisa, tentando encarar a ideia de que eu realmente pensei em suicídio. Eu nunca tinha visto isso tão de perto. Mantive em profundo desespero e me deitei, a fim de dormir.

Após a terceira revirada à cama, que ocorreu muito rapidamente, voltei para lá e, apontando para a cara daquele meu amigo idiota lindo, com cara de sério, revoltado, cheguei perto dele e lhe dei um apertado abraço. Comecei a chorar infinitamente por me ter dado conta de que eu ainda não havia recobrado minha motivação de vida. Ou, pelo menos, faltava um bom tanto dela. A cena foi até, de certo modo, provida de graça, uma vez que eu realmente fingi estar ainda muito irado quando queria, na verdade, reconciliação. Nubi fez até o favor de gritar, tentando me impedir. Despedi-me e fui deitar.

No dia seguinte, após algumas coisas não terem dado muito certo, voltei àquela mesma raiva. Não era mais com Tito, era com a vida. Eu me sentia muito irado. Ficava ali, ao computador, tentando me animar. Não dava tão certo assim. Gente sabe ser muito idiota na internet, isso me irrita. Até que, em certo momento da noite, ouvi me chamarem na Fabilândia. Era um exército bem bonitinho que por ali passava. Eles estavam com alguma dificuldade. Eu cheguei. Todo exército se moveu em minha direção, ignorando completamente os coitados dos meus amigos. Estes, por sua vez, pararam para ver o que eu pretendia fazer. A ira era imensa.

Eram todos como soldados, soldados humanos. Claro que não eram humanos, mas eram algo como isso, tinham lanças e escudos. Eu simplesmente desci até o chão, desconsiderando qualquer dupla conotação que haja nisso, e os comecei a bater neles. Eu apenas batia neles. Meus golpes físicos já são valorosos o suficiente para matar. Eu não ativei minha invulnerabilidade. Não tentava eu morrer, apenas estava tão nervoso que pretendia mata-los como se eu fosse o grande lutador. Utilizei meu ataque de energia apenas algumas vezes, mas ali, finalmente, consegui fazer a luta esteticamente perfeita, como sempre sonhara. Eu apenas batia em todos eles, como nos filmes. Desviava das lanças sem precisar voar ou coisa do tipo. Apenas usava minha velocidade para me esquivar e acertar golpes fortes. Eram cerca de sessenta soldados ao mesmo tempo, matei todos eles socando-os e chutando-os. Foi uma realização épica demais para se narrar em apenas um parágrafo, mas creio que nenhuma palavra enalteceria tamanha beleza de combate.

Com isso, direcionei-me aos meus amigos, na finalidade de despedir-me, dizendo que não estava muito bem. Eles me impediram, dizendo que precisavam apresentar alguém. Huor era seu nome. Apontaram-me como o mais novo integrante do nosso esquadrão da justiça. Ele me parecia um bom rapaz, mas era meio chato. Não engoli direito essa ideia. Meus amigos, em meu mundo, não são chatos. Aliás, eu acabara de derrotar um exército. Exércitos têm comandantes, por que ele não poderia ser o tal comandante? Eles não me convenceram direito só falando. Eu fui discreto, perguntando aos outros sobre sua origem, mas, não satisfeito, o peguei pelo pescoço, deitei-o ao chão e perguntei se ele não me traria problemas. Ele, aterrorizado, respondeu que não. Confirmando que isso era bom, o soltei. Mas ele era meio babaca, insistindo em diálogos que não seriam edificantes.

Ele era bom sim. Acho que era. Tinha um tronco em formato quase circular, era bem magro e orelhas pontudas. Cabelos ruivos, era bem estranho, como qualquer outro. Tinha mais ou menos a minha altura naquele mundo, um pouco mais alto. Era um bom rapaz, era amável, quase humilde e atencioso. Seu grande problema mesmo era levar as discussões para um lado onde ele sempre parecesse o mais inteligente. Ou tentar levar, pois ele era um tanto quanto desprovido de conhecimentos. Entendo que ele só buscava uma ascensão no nosso modo de vê-lo. Nos tornamos bons amigos. Entretanto, o laço que tínhamos não era tão forte quanto o que eu guardava com meus outros amigos. Ele era como um rapaz legal que tenta entrosar-se com uma roda de amigos muito forte. Como todos eram legais, ele foi bem recebido, mas não era bem como aquele achegado de longa data, até porque ele não era um achegado de longa data.