28. Desinteligência

31/05/2011

Sabendo então que tudo o que poderia vir de forma nova sobre minha vida, preparo-me para, finalmente, após tanto me perder em mim mesmo, narrar algo que valha a narrativa. Sem interrupções. Minhas reflexões são algo que mais servirá para manter-me firme nas ocasiões que hão de vir, como já bem notei isso em minha vida no último capítulo. E não, ainda não comecei a falar da parte onde narraria a história sem interrupções inúteis. Pronto.

Ocorreu que estava eu, a grandes alturas, olhando com desprezo a atitude de meus dois amigos, criando ainda maior ódio em meu coração e sustentando a força adversária. Atitudes de um gênio, diria eu. É lógico que eu não poderia tomar uma atitude, afinal, qualquer movimento que eu fizesse poderia machucar ou a mim, Jumi ou a nós dois. Gostaria de poder de alguma forma desenhar a minha expressão representativa de ironia neste momento, seria bastante interessante. E permanecia olhando, desesperado e ansioso para que, tão logo, Silu pudesse detê-lo, e indignado, e aflito, e irado, profundamente irado. Nem para pensar em instruir Silu a materializar a droga de uma corda. Pelo menos isso, nada vinha à mente na possibilidade de encerrar o confronto mais inútil e imbecil que já tive. É claro que a corda não o deteria, mas pelo menos seria uma tentativa de solução. Minha mente parecia bloqueada, para pensar apenas em ódio, não em algo útil.

Utilidade. Silu era tão bonzinho que estava suportando tamanha pressão, algo tão absurdo, sem dizia uma única palavra de murmuração. Não, não reclamava, apenas permanecia com aquela expressão de aceitação, triste aceitação. Tal memória me é quase insuportável, meu fiel amigo me protegendo e tentando com todas as suas forças lutar contra tudo aquilo que lhe era precioso. Aquele olhar, com pequenas marcas em sua testa, que só apareceram naquele dia, com aquele olhar. Só por uma leve recordação já me encho de compaixão, ou qualquer sentimento de auxílio mútuo, dói ver alguém sofrendo internamente daquele jeito, e com uma postura de não deixar tal dor transparecer a mim. E é quando mais me odeio, odeio o autor dessa droga de livro que não teve a mínima sensibilidade, o menor respingo de sensibilidade sobre aquela situação. Ele me olhou daquela forma por uma leve fração de segundo. Na hora em nada me influenciou, mas hoje me lembro daquele meio segundo como uma eternidade. Eternidade que me castiga, me maltrata. Ele parou apenas naquele momento para tal olhar. E foi quando Jumi o atacou, com um de seus raros golpes à distância, gritando de forma incrivelmente enfurecida para que Silu o levasse até mim, já que era sempre assim que procedíamos; eu voava livremente e Silu carregava Jumi por onde fôssemos. Éramos dois julgando Silu um inútil. Justamente quando tudo o que ele fazia era em nosso bem.

Ao ocorrer tal ataque de Jumi, não tivera eu outra escolha senão descer para impedir Jumi. Senão seriam dois os feridos e inúteis na briga. Meu Deus, até para isso minhas motivações eram errôneas? Definitivamente eu, parando – neste exato momento em que escrevo – para analisar minha mentalidade da ocasião, decreto que isso é absolutamente contra qualquer momento de minha mentalidade. Não era eu. Mas importa que o fiz. Desci para ter com Jumi. Notória ira de meu caro. Enfatizo: é absurdamente fora da realidade Jumi estar daquele jeito. Tive então que, com tremendo pavor, atingi-lo, utilizando de meu ombro, estando eu vindo com velocidade do alto. Foi apenas um empurrão bem forte, o bastante para derrubá-lo por alguns segundos. Mas foi assim que desci totalmente ao chão e o encarei. Sua ira não era suficiente para que ele agisse de forma descontrolada. Claro, era descontrolado e absolutamente insensato o que ele estava fazendo, mas seus movimentos não deixavam de serem muito bem calculados. E meu grande problema era que ele parecia estar calculando. Eu ainda não pensava em nada. Silu estava achegando-se ao meu lado. Lembrando que utilizo-me de muitas, muitíssimas palavras para descrever algo que ocorreu muito rápido. Agora, recapitule a cena que você entendeu e projete-a em um espaço de tempo muito menor. Desde o olhar de Silu até ele se levantar novamente após o golpe, creio ter sido cerca de 5 segundos. Pronto. Agora estava eu e os outros, Silu ao meu lado com uma expressão um pouco mais erguida, e Jumi com uma cara maléfica que outrora nunca fora vista. Tristes desenhos japoneses que dominaram minha infância. É algo bastante semelhante. Agora nos encarávamos. E eu ainda não sabia o que fazer. Mas bem menos me concentrava em pensar no ódio a meus amigos. Sim, sou inconstante de pensamento. Mudei um pouco o foco, eu agora procuraria uma solução. É agora que o maior momento de batalha prosseguirá.

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27. Sentido

30/05/2011

Foi com grande temor que me afastei de Jumi, voando grandes alturas, já que ele não podia voar. Silu, então, viu-se encarregado de detê-lo de alguma forma. Seu semblante era agonizante, via-se ele amedrontado, sem saber o que fazer. Começava, pois, eu, a tentar entender o que acontecia e pensar em alguma coisa. Na verdade, eu já vinha pensando desde antes, mas ali foi o momento em que eu havia assimilado o fato de eu estar sendo atacado por aquele que eu mesmo teria inconscientemente criado para me proteger. Além de inconcebível, a ideia me trazia mais uma série de pensamentos que colaboravam ainda mais para minha revolta e desconcentração. E os pensamentos repetiam-se, e me jogavam para dentro de um poço onde eles se multiplicavam, e já devo ter dito que sim, meus pensamentos ruins fortalecem meus adversários. Isso continua num idealismo mágico de contos de fadas moralizantes, reconheço o fato, mas eu não planejei o andamento das coisas nesse meu mundo, apenas reflito o que tenho como verdade. Infelizmente. Ou não.

Importa parar com a progressão tão esperada – inclusive por mim – da narrativa para bem notar que, de alguma forma, escrevo nos momentos certos, perfeitos para minha atual situação, onde relembro de coisas que para mim seriam apenas uma história, mas hoje me aparecem como um profundíssimo ensinamento. Sim, sei que é tolo e infame tentar passar liçõezinhas de moral de tia, algo desmotivacionalmente motivacional, mas sim, direi. Não, não intencionei-me, ao iniciar a narrativa, passar alguma dessas lições, e não quer dizer que eu tenha aprendido algo, só estou parando de falar o que eu queria ao ver que algo que vivi em outro mundo tempos atrás está me fazendo total sentido exatamente hoje, no momento em que mais faria sentido mesmo, em que me vejo na mesma situação, pensando as mesmas coisas ruins subsequentemente, tal como o guru, e isso tem atrapalhado minha vida, e percebi que já joguei essa fase do jogo e me lembro o que foi feito para concluí-la, então talvez consiga repetir o procedimento e me livrar. E é hoje que volto a ver sentido nesse mundo, é hoje que permaneço contabilizando as lágrimas derramadas enquanto escrevo, ao ver que sim, esse mundo me trouxe crescimento, me trouxe esperança. E me trouxe uma ótima oportunidade de adocicar meus discursos sem me importar e me importando tanto que tenho o cuidado de transcrever sobre isso.

Mas devo atentar-me à narrativa. Nada dizia eu sobre a aritmética, mas meus pensamentos se concentravam em uma formação terrível de ódio sobre Silu, acompanhada da frustração enorme ao ver Jumi me atacando. Ódio sobre Silu mantendo meus pensamentos fixos em uma crítica horrenda sobre o fato de aquele inútil não pensar em solução alguma para aquela situação. “Vamos, esse desgraçadinho qualquer que eu mesmo criei está vindo me atacar, eu me distanciei dele para que ele não me atingisse e eu não o matasse ou ao menos o ferisse, e você não é capaz de fazer o mínimo que precisaria para cessar essa cena desnecessária? É só falar com ele, perguntar o que ele quer, já que eu não o poderia fazê-lo. Imbecil, deverei eu ficar no aguardo, deixar vocês dois se matando, já que nossa tarefa está bastante suave, claro, faço isso tranquilamente sem vocês dois, não? Arrume logo uma solução!”. Sim, não, não pronunciei tais palavras, como bem vinha dizendo, isso seria o que estaria eu pensando sobre a situação. Não, sim, meus pensamentos não deveriam possuir esse mesmo padrão lexical, me lembro remotamente de ter pensado na palavra “desgraçadinho”, mas era essa a ideia. Não que eu fosse um pensador qualquer, apenas adquiri uma nova e divertida forma de expressar-me, meu linguajar hoje me faz sorrir a partir de figuras de linguagens de demais processos que misturam os extremos de minha vida. Sim, não, isso não tem nada a ver com o assunto. O próximo capítulo vai ser bem legal, garanto, me desculpem por isso.


26. Segundo meus próprios males

26/05/2011

Foi quando, então, Jumi veio para cima da mim e eu, sem muita dificuldade mas com uma sensação horrorosa de espanto, pois, de fato, ele era meu melhor amigo. Eu tinha grandes possibilidades de feri-lo, mesmo sem haver qualquer rascunho de intenção, eu só queria saber como pará-lo. Mas é aí que me vinha a grande questão, pois, na época, eu nem esperava ter os tais poderes que hoje tenho, que poderiam com muita facilidade imobilizá-lo sem que ele se machucasse, eu poderia conversar com ele tranquilamente e então tudo ficaria melhor. E é impressionante como essa reflexão se faz relevante agora, pois, na hora, eu não tinha nem sequer coragem pra pensar no que fazer, eu realmente não tinha recursos pra detê-lo, o que me leva a me definir como alguém muitíssimo fraco e inválido na época. Isso é ridículo, eu tinha um raio mortal que é até hoje talvez o ataque mais poderoso que já vi nesse mundo, eu tinha uma velocidade incrível e uma facilidade de raciocínio tremendamente grande para a aplicação daqueles poderes. É lógico que hoje eu sou um lutador praticamente invencível, não preciso de protetores para mim, e sim para o mundo, mas só agora noto o quão desprezíveis são minhas reflexões que teimo em concluir precipitadamente sob influências emocionais absurdas.

Tão absurdo quando parar de narrar cena tão intensa pra expor algo que só acrescenta a mim. Arrependerei-me profundamente por ter feito isso mais tarde. Assim como me arrependi de ter escrito a história dessa forma, tendo eu que, de certa forma, corrigir isso ao longo da continuação. Este trecho, por acaso, deveria estar incluída na classificação de “continuação”, mas não, não me sinto em condições humanas de prosseguir. Há uma riqueza de detalhes nesse curto trecho entre eu e Jumi que eu vou contar no próximo capítulo, e me desculpe por isso. Mas minha vida não se enquadra no padrão de um narrador agora, pelo menos hoje. Conto o que quero a cada dia, narro minha história à medida que tenho vontade, e o meu mundo externo tem desabado tanto sobre mim que não está em questão prosseguir com a cena.

Falarei então de minha terrível dor. Estou terrivelmente machucado, pois não tenho consolo em qualquer dos mundos em que estou. Choro cá, choro lá, inevitavelmente. Meu poço é fundo, vinha de uma queda, utilizei-me de todas as minhas forças para erguer-me, subi apenas poucos metros e fui empurrado para o fundo novamente, para um fundo ainda mais fundo com muita violência. Mas eis que não há mais o que falar sobre isso. Sim, me sinto melhor por ter dito, ainda que inutilmente. Pronto, estou apto a prosseguir com a história.