42. Reforço sobre as águas

26/06/2011

Eu precisava de uma forma de conseguir fugir dele sem que eu me mantivesse utilizando esses trancos, mudando minha direção com tanta rapidez, pois isso estava me trazendo uma dor insuportável. Apesar de eu não saber necessariamente o que realmente me trazia maior dor, por estar sofrendo a dor da mudança de direção durante meu percurso em linha reta. Mudanças rápidas verticalmente não causavam tanta dor, mas eu não tinha como seguir apenas nisso. Mas eu tinha como fazer curvas mais leves para a vertical para poder voltar a andar na horizontal. Ou também me manter voando com o eixo invertido, afinal, eu estava voando com o controle da mente, não havia gravidade que alterasse meu desempenho no ar. Mas não teria sido esta minha escolha. Eu resolvi me movimentar na maioria das vezes em círculos, alterando levemente a rota, de forma que lhe fosse surpreendente e que eu me mantivesse constante, sem precisar “frear bruscamente”.

Assim, estava eu agora sobre as águas, ocasionando que, caso eu caísse, meu impacto não seria necessariamente tão violento, podendo eu ainda alterar um pouco a posição para que caísse verticalmente, sem me machucar muito. E mantivemo-nos lutando, eu fugindo, desviando, ele atrás de mim, irado, buscando também me surpreender. Tive que fazer uma mudança brusca dessas quando eu o perdi de vista por uma fração de segundo, e então o vi em minha frente, e realizei um movimento de drible bem avançado, ameaçando fugir em várias direções. Era como se meus ossos estivessem pontiagudos, me espetando em todo corpo quando eu me movimentava de tal forma. E ia eu, à medida do possível, o deixando chegar próximo a mim, um pouco atrás, para poder deixar em seu caminho alguns de meus raios, que ele, em enorme velocidade não podia desviar, por tal ataque inesperado. Algo semelhante àqueles jogos de corrida, jogos que muitos tiveram a alegria de desfrutar em sua infância, sob o domínio àquelas coisas que não entendo.

Até que, em um momento observei um brilho vindo da cidade. Era Silu, que havia se recuperado. Nesse momento, buscou logo Jumi e o entregou à máquina, e logo viria me encontrar. Eu, com sabedoria, virei e realizei um ataque mais forte, para poder olhá-lo de frente e mantê-lo de costas à Silu. Paramos, frente a frente, enquanto Silu se aproximava. Ele utilizou o velho truque do piano, meu favorito, sem que o oponente visse, mas não deu muito certo; pouco antes de ser atingido, conseguiu esquivar-se. Então seguimos, nós dois, atacando de dois lados, para que ele precisasse sempre estar alerta. Buscávamos sempre mantê-lo ao nosso meio. Até que começamos a rodeá-lo e atirar, fazendo com que ele não pudesse se locomover por grande espaço. Então, passei em grande velocidade em círculo rente ao mar e percebi que isso erguia as águas consideravelmente. Achei aquilo interessante, então pedi para que Silu rodeasse Éfilo, levando-o para perto do local que eu estava, onde comecei a provocar uma elevação de águas, um rodamoinho para cima, uma movimentação muito interessante, a fins de cobrir sua visão com as águas. Ele foi envolvendo-se naquilo, não que o fizesse algum dano ou que as águas, atingindo-o, fosse um problema. E ele poderia passar dali tranquilamente, mas resolveu manter-se ali, no meio daquele furacão de água. Nesse momento, Silu ergueu-se ao topo daquilo e lançou um de seus mais poderosos raios, que ganhou concentração em função das águas.

Foi então que percebemos que deveríamos ter medo. Meus poderosos ataques, que já deveriam ter matado qualquer outro inimigo, ao nível que já se tinha passado, não foram suficientes, e agora nem mesmo esse ataque de Silu tinha lhe causado tanto dano. Nossos ataques eram em vão, não sabíamos o que poderíamos fazer para que ele fosse derrotado. Eu já começara a me mover um pouco mais, com dor, mas não era capaz de me lançar sobre ele sem medo. Eu estava com muita dor, mas vendo a situação, não podia me dar ao luxo de ir recuperar-me enquanto meus amigos lutavam contra esse terrível inimigo. Nesse momento, Jumi apresentou-se curado, à beira da região branca. Teríamos que nos dirigir até lá, para que Jumi também pudesse lutar. Eu sabia que não era uma boa ideia permanecer lutando, mas não, não poderia fingir que iria ficar tudo bem com eles. Se algo lhes ocorresse eu não sei o que eu conseguiria fazer. Mas, no momento em que nos atentamos para Jumi, Silu foi surpreendido por Éfilo, que veio em grande velocidade e parou atrás dele, com as mãos estendidas, prestes a realizar seu ataque, quando Silu o notou e conseguiu esquivar-se como um ninja para a direita, mas ainda assim foi levemente atingido de raspão em seu ombro esquerdo. Logo em seguida levou uma joelhada nas costas e voou com muita violência às águas. Antes que Éfilo voltasse ao mundo fora de seu ataque, eu o atingi com um forte ataque, dado à distância, que chegou a feri-lo, quase o derrubei às águas também, mas enquanto isso eu consegui recuperar meu amigo e voar em grande velocidade em direção ao deserto, onde prosseguimos aguardando-o para dar continuidade à luta.


41. Saco de batatas

25/06/2011

Saco vazio não pára em pé, mas não há objeções desse tipo à sua flutuação. Então, eu precisava, sem utilizar meu corpo, lutar contra um inimigo que era muito mais veloz e forte do que eu. Claro, essa imagem deve estar bastante nítida em vosso imaginário. Pois bem, eu mal conseguia mover meu corpo; minhas pernas, ao leve movimento, doíam muito. No máximo a perna direita eu tinha certa mobilidade significativa. Mas era uma dor generalizada no corpo, que nunca antes me fora sentida. E, para que minha esperança desse seus penúltimos suspiros, eu o havia atacado com muita força, tinha lançado sobre ele grande energia, não foi dos meus maiores ataques, mas foi um ataque considerável, e ele não parecia ter sido ferido.

Tendo descrito precisamente a situação na qual me encontrava no exato momento em que comecei meu voo, estou pronto para narrar o que então ocorreu. Eu pretendia fugir dele, fazer com que ele me perseguisse, para assim ganhar tempo para meus amigos, e, ainda, tentar feri-lo um pouco. Eu sabia que ele era bem mais veloz do que eu, pelo menos em uma situação normal, então eu não podia prosseguir em linha reta, mas dar algumas pequenas voltas e quebras no percurso para que ele não pudesse prever aonde eu chegaria para se precipitar. Eu o havia provocado, enfurecido, e, assim, não me preocupei tanto com sua desistência em me perseguir para, então, atacar meus amigos. E eu devia permanecer lutando até meus dois amigos estarem bem, não adiantaria deixar um de meus amigos sozinho lutando nessa situação (no caso Silu, o que se restauraria primeiro).

Foi então o confronto de um mestre da luta contra um pobre saco de batatas vazio. E eu não era mais inteligente, certamente. Coberto em meu escudo, lancei um forte ataque e saí correndo em direção da montanha. Ele, claro, esquivou-se e partiu em minha direção. Logicamente, antes que chegasse até ela, e antes que ele chegasse até mim, desviei minha rota verticalmente ao alto, numa leve distância, e antes que ele pudesse prever, tracei o mesmo destino na direção contrária. Mas eu não completei isso; mais ou menos à metade do traçado horizontal eu virei para a direita e fui andando – claro que voando, no caso – nesse movimento de drible, até chegar próximo à montanha. Chegando próximo a ela, virei para ele e fui esperando-o – por um longo tempo, é claro (não) – achegar-se até mim, fazendo movimentos de costas semelhantes aos degraus de uma escada, mas um pouco mais em forma de parábola, enquanto ele tentava me acertar com seus raios. Quando ele estava perto de me atingir, voei de costas rapidamente até perto da montanha, onde ele não tentou me acertar com os raios, mas chegava com velocidade até mim para tentar me golpear com suas mãos. Pouco antes de ele chegar a mim, lancei-lhe um raio e esquivei-me para cima. Ele não foi tão ferido, logicamente; foi até significativo, mas não gerou uma redução em seu potencial na luta. Assim, com fins acho que totalmente estéticos, eu apoiei-me na montanha com minha perna direita e me empurrei, como quem fosse fugir em direção ao mar. Mal comecei minha disparada, já acostumado tanto com esportes de drible (lê-se futebol), fui novamente para cima e voltei um pouco em direção à montanha, novamente em parábola, mas, agora, descendo mais, esquivando-me de forma que até eu me assustei, não tinha visto que ele estava tão próximo. Nisso, enquanto ele esteve por um momento como alvo novamente, lancei outro ataque, atingindo-o novamente. Vendo que com o ataque ele vacilou, lancei outro, e outro, e, finalmente, mais um, com maior intensidade e duração, mas não acreditando que isso seria necessário, só pensei em tentar debilitá-lo ao máximo, visando favorecer minha luta.

Eu permanecia apenas um corpo flutuante, eu era praticamente inerte, só utilizava aquilo que eu tinha, que era o voo, a velocidade, a habilidade de esconder o destino de meus movimentos e meus fortes ataques de energia. Sei, falando assim parece muita coisa, mas não, eu não tinha nenhum tipo de resistência física, os trancos que eu dava para conseguir driblá-lo eram muito fortes, meu corpo os sentia com imensa dor, e era para mim algo terrível manter-me daquela forma. Era como se ficassem batendo no seu osso quebrado, ou ficassem dobrando seu joelho que se recupera de um rompimento nos ligamentos, coisa assim; não era tranquilo. Após realizar esse último ataque, reduzi minha altitude – que não era tão alta, mas já chegava um pouco abaixo do topo da montanha – e fui descendo, como numa curva exponencial. Logo depois de ter me equiparado à faixa horizontal em minha curva, mudei meu curso em sentido, num forte tranco, suficiente para me fazer caírem as lágrimas de desespero, suplicando para que essa luta terminasse logo. Eu precisando de cerca de dez minutos e já deveriam ter se passado, vejamos, claro, quase dois minutos. Sim, minha situação era muito complicada. Mas vinha dando certo. Eu estava bem me desviando dele e confundindo sua cabeça. Mas precisava de tempo, para não ficar apenas voando feito um louco, fugindo sem destino, pois uma hora eu não teria mais condições de resistir. Eu tinha que fazer com que ele se sentisse ameaçado, para que atacasse com mais cuidado, com maior lentidão.

Foi então, que, após esse meu último movimento mencionado, eu esperei que ele se achegasse um pouco mais próximo a mim, com um movimento de suposta indecisão entre esquivar-me para baixo ou para cima, que efetuei para confundi-lo – e digo dessa forma somente para escapar do termo “gingado” – fui para cima, voltei um pouco para trás, num movimento diagonal para retornar à linha de altura dele e o ataquei com meu escudo, fazendo com que ele caísse. Nesse momento, não deixando que me escapasse a chance, voei junto a ele em sua queda para permanecer atacando, ainda que eu estivesse com muita dor, e permaneci lançando raios, estando eu próximo dele, raios semelhantes a bombas e, estando à cerca de dez metros do chão, o deixei cair e permaneci atirando, agora novamente imprimindo um ataque mais constante, para que ele se mantivesse lá. Torno a comentar que isso só era possível porque minha energia não vinha de mim, eu não tinha essa energia, eu transformava qualquer outro tipo de energia, luminosa, sonora, qualquer tipo mesmo, em “energia em estado bruto”, o que deve ser a base de qualquer energia, pelo menos na física do meu mundo, é assim pelo menos que eu considero, e então converto isso em fortíssimos ataques. Apenas isso. Dessa vez, pouco depois de começar esse meu ataque mais forte, com ele agora no chão, ele logo se esquivou e veio em minha direção. A partir do momento em que o vi saindo do chão, afastei-me dali o mais rápido possível, sabendo que ele chegaria a mim antes que eu pudesse vê-lo. Fui em direção às águas. O tempo já devia ter se passado um pouco mais consideravelmente.


40. Energia potencial

24/06/2011

Meu objetivo era, ainda que eu estivesse totalmente debilitado e sem condição alguma de sequer ficar em pé, poder ser um estorvo suficientemente grande para que Éfilo não pudesse prosseguir na direção de meus amigos. Isso ainda por alguns minutos. E eu não consegui lançar um raio nas costas do maldito, não podia nem mover meu braço esquerdo para isso. Por que havia de estar ele à minha esquerda, por que não poderia simplesmente não ter ferido meu braço esquerdo? Assim, aumentava minha ira com a situação, e começava a chorar, e a refletir, nem me lembro do que eu pensava na hora, eu estava quase que numa torcida imbecil que normalmente se tem, quando se grita com uma televisão tentando instruir um atleta, algo assim.

Não esquecendo que tudo isso se passa incrivelmente rápido, eu consegui concentrar-me um pouco. Concentrei a energia como naquele escudo, feito anteriormente. Mas eu permanecia deitado, imóvel, era como se meus ossos estivessem quase todos quebrados. Alguns deveriam estar mesmo, foi uma queda gigantesca, em enorme velocidade e sem nenhuma forma de amortecer o impacto. E sem ninguém para me ajudar. Eu notei que ia concentrando minha energia, e ela ia ganhando altura. Foi então que notei que, de alguma forma, eu não precisaria das mãos para atacar. Eu teria mobilidade com a energia da forma que eu quisesse. Eu tinha muito aquela mentalidade de precisar das mãos para o ataque, ou que o ataque precisava de uma parte específica do corpo para se consolidar, como sempre via nos desenhos, sempre havia uma forma certa de se realizar cada ataque. Mas comecei a praticar tal coisa. Era como se houvesse uma montanha de energia sobre mim, e eu a inclinava para direita, para esquerda. Quando percebi que eu mesmo estava controlando isso de forma um pouco mais precisa, pensei naquele momento que poderia arranjar alguma forma de gastar meu tempo. Naquele exato momento de minha vida, eu estava estudando em uma escola técnica, daquelas que precisam de prova para conseguir ingressar. Minhas primeiras aulas de física propriamente dita foram em um cursinho que fiz para a tal prova. Nessa época eu consegui algumas leves noções de física, nada muito abrangente, específico, mas por alguns dias, semanas, lembro-me apenas que estava em minha cabeça que a energia pode ser dissipada em forma de calor ou em som.

Foi então que o chamei. Um grito normal, pouco antes que ele entrasse na floresta. Nesse momento perdi meus amigos de vista na cidade, com a visão encoberta pelas árvores. Mas eles já pareciam estar chegando ao destino. Colocamos a máquina próxima à região branca por lembrar que, normalmente, as lutas ocorriam no deserto. Mas então, após eu ter gritado, ele parou, mas não se virou para trás. Manteve-se parado até que eu, tendo concentrado um pouco de energia em minha boca, gritei o mesmo ei, mas levando aquela energia até ele, para que, quando a ele chegasse, eu pudesse expandi-la gigantescamente transformando-a em som. Foi um sucesso, eu, que estava tão mais longe dele, sofri com tamanho barulho que havia causado. Engulam essa, físicos! Ele virou-se então para mim, com uma terrível fúria, pondo a mão em seus ouvidos. Veio flutuando lentamente em minha direção. Então, pude ver Jumi, que estava bem distante do local onde seria a máquina. Inteligentemente, ele contou-me posteriormente que Silu o instruíra a distanciar-se de lá para que, encontrando Jumi, o inimigo não pudesse achar também a máquina. Um gênio. Eu adorava esse rapaz. Pois bem, nesse momento em que eu parecia totalmente inofensivo para Éfilo, ele não esperava que eu pudesse realizar um ataque muito significativo. Foi quando realizei o mesmo grito, tentando encobrir minha boca ao chão, mas agora o levando a expandir-se um pouco atrás dele, para tentar distraí-lo. Novamente, consegui e, nesse momento em que ele olhou para trás, muito rapidamente consegui lançar grande quantidade daquele raio que eu havia amontoado, atingindo suas costas e fazendo-o cair, quase da mesma forma que eu estava, mas de costas para mim. Ainda assim, não veio ele com todas as suas forças diante de mim, mas agora ele caminhava, firmando cada um de seus passos, de forma imponente e decidida, decidido a acabar comigo. Sua feição me dava medo, mas eu não podia deixar isso influenciar-me. Eu, a essa altura, já havia planejado tudo. Foi quando comecei eu a discursar. Eu, dessa vez, era raro isso. Então lhe adverti que tivesse uma expectativa maior com relação aos seus adversários. Com isso ele parou de vir em minha direção. Nisso, eu comecei a erguer-me em voo. Não necessitava do meu corpo para isso, só de minha mente. Assim, era como se estivesse flutuando um saco vazio, pois eu movia apenas a minha flutuação, mas meu corpo, em si, estava totalmente parado. Estabeleci novamente o escudo ao meu redor e o deixei um pouco impressionado. Agora eu precisava de mais alguns minutos lutando contra ele. Isso sem utilizar meu corpo.


39. Quase lá

23/06/2011

Tão logo os vi cruzar o limite entre a floresta e a região branca, vi também que, em uma velocidade bem menor que sua velocidade de ataque, o inimigo os perseguia, para dar continuidade ao seu massacre. A situação encontrava-se muito complicada. Ele sabia que eu não havia perdido totalmente a batalha com isso, mas também sugeria que eu não teria mais condição alguma de vencê-lo. E, de fato, era coerente que se acreditasse nisso. Até o momento em questão, nunca em toda minha vida teria eu me encontrado tão debilitado, tão ferido quando naquele momento. Meus amigos deveriam atravessar cerca de vinte metros de floresta, algo realmente curto. Lá, exceto pela região verde que é a grande floresta, de uma imensa área como qualquer outra das regiões da ilha, há apenas pequeninas florestas, com características claras de florestas, mas que servem apenas como uma linha divisória entre uma região e outra. Eu já devo ter dito isso, mas creio que não lhes esteja tão fixo na memória. Já falei de tanta coisa aqui que nem eu mesmo me lembro.

Pois bem, meus amigos, além de tudo aquilo que já haviam atravessado, o que sempre nos foi algo curtíssimo – mas, naquela circunstância, estava sendo um gigantesco desafio -, ainda tinham que atravessar esse miúdo de floresta e chegar até o lugar na cidade, onde poderiam ser reconstituídos. Mas eles não teriam como reconstituírem-se caso fossem pegos antes mesmo de chegarem lá. E eles não tinham forças para lutar. Jumi mal conseguia andar, e suas pernas eram necessárias para a base de sua luta. Silu foi ferido nas costas, que era o lugar que dava estabilidade no seu voo e a concentração da energia para seus ataques. Não, eu não planejei isso, foi algo totalmente ocasional, foram aquelas coisas que realmente acontecem na vida real, as pessoas se ferirem exatamente nos locais onde menos poderiam ser feridas. Sempre irão pisar bem no seu dedo que está machucado, bater no seu ombro que está queimado, isso não é algo que se diz para encaixar a história, isso sempre acontece, e foi uma fatalidade terrível naquela situação. Na verdade, tudo vinha cooperando para nossa falência.

Eu caído, vendo o inimigo dirigindo-se aos meus amigos, que não tinham quaisquer chances de resistir em uma luta com ele, quis erguer meu braço esquerdo e lançar um ataque a ele. Mas eu caí com aqueles meus amigos à minha esquerda, meu corpo virado ao chão. Meu braço esquerdo já estava doendo muito antes de eu ter que me esforçar e lutar com o inimigo, quem dirá após uma queda dessas. Aliás, quando passava um pouco próximo a mim, ele gabou-se um pouco, revelando seu nome. Éfilo. Não, ainda não conheço meu grau de participação na atribuição dos nomes das pessoas naquele mundo, e nem como eles são apresentados aos seus respectivos donos. Parece um sistema muito útil que vai distribuindo os nomes e as pessoas já sabem seus nomes no mesmo momento em que se encaram como seres viventes. Naquele momento, eu tentei erguer meu braço esquerdo, que era o que eu tinha para usar naquela circunstância, uma vez que ele estava à minha esquerda e meus dois braços estavam sob meu corpo. Logicamente, não tive condições de erguer meu braço. O direito eu até conseguiria, mas não haveria como eu atingir Éfilo com meu braço direito, seria impossível. Naquele momento, via meus amigos atravessando a floresta, necessitando agora apenas chegar ao tal local onde poderiam restituírem-se. Para que haja maior fundamento na história, a Máquina de Restituição Física foi criada uma vez que Jumi teria deslocado seu braço violentamente em uma batalha, alguns anos antes. Então, reunindo-nos com os que estavam presentes na cidade naquele dia, criamos uma máquina que, em poucos minutos, poderia restaurar totalmente as condições físicas de quem a usasse. Só havia sido usada aquela vez, e era um sucesso. Claro que com uma lesão pequena, não sabíamos se daria certo com a gente, já que estávamos totalmente debilitados na luta. E sim, esse é o meu mundo, criamos qualquer tecnologia que quisermos, é ilimitado, e não por é por isso que derrubamos a floresta, urbanizamos o deserto e nem nada. Claro que não há necessidade disso lá, os recursos são inesgotáveis e tudo mais. Sim, esse mundo é mágico, não tentem comparar, lá eu posso fazer o que eu quiser, lá eu posso voar, meu irmão, esse mundo é meu e eu tenho disponível a tecnologia que bem entender, então não incomodem-se com isso. Agora eu tinha que dar um jeito de eles não serem pegos pelo inimigo.


38. Prendendo o tempo

16/06/2011

Éramos reféns de grande medo, era um simples percurso que nunca antes nos teria sido tão complexo e perigoso. Meus amigos permaneciam fugindo enquanto eu operava na cobertura. Eles só precisavam de mais um minuto. Um único minuto em que eu teria que deter aquele inimigo tão absurdamente rápido. Então, creio que seja perceptível que, em qualquer situação dessas, o tempo pareça rodar com muito menos pressa. Isso é o básico de qualquer história. Mas me atentarei para que apenas conte os relatos desse um minuto, com sua precisão de detalhes.

Eu posicionei-me então entre meus amigos e ele. Meu escudo de energia parecia ser bastante útil no momento. Mas eu precisava de alguma forma de não permitir que seus ataques que não me atingissem acabassem ferindo meus amigos. Foi quando fui até sua direção atacá-lo, e ele, ainda que eu estivesse fazendo isso de forma muito veloz, me atirou seu raio e, sem que eu pudesse acompanhar seu movimento, progrediu na direção de meus amigos para atacá-los. Por mais que ele fosse rápido, seu ataque tinha a velocidade normal de um objeto arremessado com muita força. Claro, era muito rápido, mas era uma velocidade com a qual eu já estava acostumado. Assim, consegui concentrar-me para absorver o ataque, utilizando o escudo de energia. Apenas aumentei o escudo e a concentração de energia. Realizei movimento semelhante ao que utilizei anteriormente em situação similar, mas agora tentando atingir o meu inimigo, e não só o ataque dele. Para isso, gritei com todas as forças para que meus amigos tomassem cuidados, pois me utilizei de toda energia que havia acumulada em meu escudo, e abrangendo uma área muito maior. Por eles já estarem mais próximos da outra região, acabei até destruindo algumas árvores. Sinto muitíssimo por isso. Sério. Logicamente, o tal senhor que nos atacava conseguiu esquivar-se, voltando novamente para a posição inicial, onde estaria antes de eu atacá-lo. Rapidamente refiz o escudo, algo que não necessita de um tempo, de fato, considerável. Mas, agora, notei que eu corria um sério risco. Meus amigos estavam chegando mais perto da divisa. Foi quando notei que não necessariamente chegar à divisa seria a solução de nossos problemas. Entretanto, não tinha eu tempo para que isso ocupasse meus pensamentos no momento. Eu tinha que pensar em uma forma de atacá-lo sem tornar a mim e meus amigos alvos ainda mais fáceis.

Iniciei uma seqüência de movimentos que se formavam por uma investida em sua direção e voltando muito rapidamente até bem próximo de meus amigos, para tornar ao local onde estava. Vinha dando certo, minha velocidade ia suprindo a necessidade do instante, e eu o mantinha ocupado. Seus ataques passavam bem próximos de mim até que ele, em vez de correr aos meus amigos, foi na mesma direção, mas desta vez para me atacar. Mas eu tinha um escudo, a energia que havia em volta de mim seria suficiente para que ele não conseguisse me atacar e ainda se ferisse. Equívoco meu. Ele conseguiu penetrar meu escudo e me atingir com um grande soco em minhas costas. É claro que ele se feriu, mas creio que tenha se preparado para isso, não sei como. Foi um ataque muito forte, mas eu ainda tinha condições de permanecer lutando; eu precisava disso, meus amigos estariam perdidos sem mim. Mas, antes mesmo que eu me recuperasse, e ainda sem perder o escudo, vi que ele não esperou e foi muito objetivamente lançar alguns de seus ataques contra meus amigos. Nesse momento fui com grande velocidade para impedir. Lancei um pouco de minha energia para desviar alguns dos ataques, mas ainda não seria suficiente. Foi quando alarguei meu escudo e me lancei sob os ataques. Senti três explosões em minhas costas, recentemente atingidas. Sem conseguir pensar em outra coisa, caí no chão, sofrendo terrível impacto, como nunca antes havia presenciado em toda minha vida, com leve auxílio de minhas mãos para amenizar, algo que não foi em nenhum momento significativo. Após os três ataques, meu escudo se desfizera. Isso foi, de certa forma, útil para que eu não quebrasse o chão. Sempre segui aquele dogma de “morro, mas não quebro a casa”. Ou pelo menos sempre busquei ter tal princípio. Pois bem, foi cair ao chão com aquela violência e olhar para o lado, quando vi Jumi e Silu atravessando a floresta, com muita tristeza me olhando, e Jumi vacilando um pouco antes de seu último passo.


37. Passo a passo

11/06/2011

Agora cada passo que meus amigos realizavam era como uma grande epopeia. Eles precisavam proteger-se, mas mal conseguiam caminhar, e não andavam com medo do porvir, e se parassem de prestar atenção algo terrível poderia atingi-los, e isso poderia ocasionar algo ainda pior. E eles prosseguiam.

Tendo eu efetuado um bom ataque, acreditava que algo poderia mudar. Mas ele logo voltou ao seu traçado de voo, com um pouco mais de raiva. Agora ele viria me atacar. Mas eu não podia me afastar, pois isso o faria alterar seu alvo. Então, eu precisava me deixar ser atacado, mas posicionando-me de modo a fazer com que seu ataque falho não atingisse meus amigos. Mas sem alterar a rota totalmente, era muito complicado, parecia-se com aqueles jogos de lógica, eu odeio jogos de lógica, eles são horrorosos, eu gosto é de futebol e guerra, muita bomba, é disso que eu gosto, não do raio dos jogos de lógica. Sou muito frenético. Claro que mantenho uma pose de grande admirador da arte dos quebra-cabeças, isso se mantém forte em minha cultura. Mas é tudo enganação. E, ainda por cima, se eu não pensasse em alguma coisa, eu acabaria morrendo e matando meus amigos. Que lindo.

Assim, comecei uma luta, corpo a corpo, em altura entre o inimigo e eles, mas horizontalmente eu estava um pouco desviado, em direção ao deserto. E ele veio comigo, tentando me atingir com seus socos, e eu não era do tipo que lutava assim, eu ficava desviando não com meu corpo, mas com meu voo. E os golpes dele eram mais rápidos, eu tentava utilizar o que tinha ganhado com o futebol, um certo drible de corpo, vinha sendo efetivo. E eu o acertava e desviava, mas não o machucava. Mas o tempo vinha sendo gasto, eles já conseguiram andar mais cerca de cinqüenta metros nesse tempo. Sim, era algo demorado, mas vinha sendo efetivo. Até o momento em que os ataques não eram mais corporais. Ele, conseguindo me afastar com um soco, iniciou, à queima roupa, aqueles ataques explosivos, e eu não tinha o que fazer. Se algum, naquele momento, me atingisse, eu morreria ali mesmo, certamente. Então tive que novamente fazer o que sempre fazia quando não tinha outra saída: voar em círculos. Mas ele começou o verdadeiro bombardeio, com ambas as mãos alternadamente, jogando aqueles raios explosivos, seguidamente, de forma ininterrupta, e ia me perseguindo, e eu ia rodando, e era algo progressivo, ele ia chegando mais perto de mim, quando ele previu meu próximo movimento e se achegou para me dar um belo de um golpe em minha barriga. Pela graça divina não me atingiu na boca do estômago, seria algo terrível. Fui arremessado com grande força ao chão e, quando consegui me concentrar minimamente, pude tornar ao voo e flutuar novamente, sentindo a dor, mas não deixando de permanecer no ar. Tornei a me cobrir com energia. Percebam que não é como se costuma ver, eu ainda poderia voar e criar ataques muito poderosos, pois isso não era algo que depende de minha energia, mas de minha concentração, a dor e o desgaste não participam de tal evento. Não preciso de energia para voar. Assim, ainda que com muita dor, muito debilitado, se eu conseguisse movimentar meus pensamentos para atacá-lo, eu conseguiria. E assim foi, acheguei-me novamente para perto dele e comecei a atacá-lo com meus raios de energia, ele tornou a desviar. Seria uma luta interminável, dificílima. Mas eu ainda deveria me manter firme. Importava que meus amigos estavam quase concluindo a travessia. Então, se eu o atacasse suficientemente para que ele precisasse esquivar-se, ou seja, preocupar-se comigo, eles conseguiriam atravessar. E eu conseguiria, ele já estava cedendo aos ataques. Não entendo como meus oponentes pensam sua defesa, mas eu só precisava que ele pensasse. Eu só precisava de mais um minuto. Minutos não costumam serem tão longos quanto aquilo.


36. Escudo inverso

10/06/2011

Era o momento de tentar proteger meus amigos com aquilo que tinha à disposição no momento, para que eles chegassem ao lugar onde poderiam recuperar-se. Eles mesmos haviam sugerido que fôssemos pelo caminho mais curto, pois não conseguiríamos realizar uma caminhada quase dobrada, mas assim o caminho seria mais perigoso. Isto é, o caminho próximo à montanha seria menor na região Branca, a mais perigosa, mas seria maior no total. Eles me sujeitaram a esse risco, mas era algo coerente, nossas condições físicas não suportariam uma distância tão maior e o tempo necessário para o percurso seria suficiente para agravar os ferimentos. Assim, estávamos lá, bem ao canto leste da região Branca, tendo que atravessá-la por completo, e ainda sendo atacados. Situação ótima e recomendável para se viver todos os dias, algo lindo de se ver.

Eu acabara de investir contra o Senhor e teria acabado também de ver – ou não ver, na verdade – ele esquivar-se com extrema agilidade, de forma que não poderia eu sequer saber onde ele estava. Prossegui caçando-o com meu olhar em desespero, perguntando-me, assombrado, para onde ele teria ido. Não havia afastado-se muito, ele estava, na verdade, se aproximando de meus amigos para realizar um ataque. Tive que voar em tremenda pressa na direção deles para tentar impedir. Não poderia simplesmente atacar de onde eu estava, pois poderia atingir meus amigos, caso não controlasse completamente. Matematicamente, algum milagre ocorreu em mim no momento para que me surgisse tal reflexão urgentíssima e eu conseguisse agir em defesa deles. A distância do alto até o lugar onde estavam eles no chão seria, logicamente, maior do que a minha distância até o chão, uma vez que representaria uma diagonal, e assim consegui pensar rapidamente em descer apenas até perto do chão de onde eu estava mesmo para utilizar toda aquela energia que eu havia armazenado ao meu redor para desviar o ataque explosivo que ele estava atirando novamente, dessa vez mais de perto. Então, em resumo, estávamos nós dois bem no alto, quando segui em direção dele para atacá-lo. Ele movimentou-se para qualquer lugar esquivando-se em uma velocidade incrivelmente grande e imperceptível para mim, mas não foi diretamente para meus amigos, essa direção ele percorreu logo depois e em uma velocidade bem menor, tempo suficiente para que eu corresse até próximo do chão e desviasse o ataque dele horizontalmente. Sim, cenas complexas eu não tenho grande habilidade de contar na primeira vez. Em vez de descrever a cena e logo após fazer a ressalvas, eu faço o contrário. Não importa.

Após ter desviado seu ataque, movimentei-me rapidamente em sua direção para afastá-lo de meus amigos, e ele novamente esquivou-se com velocidade incrível, para cima. Eu precisava mantê-lo longe dos outros, ainda que eu não estivesse em minhas melhores condições de luta. Mas o inimigo, sabendo, disso se mantinha desviando de mim e atacando os meus amigos novamente. E permanecíamos nisso, em diversas investidas, quando finalmente formei aquele escudo novamente e o atingi. Ele estava no alto, pronto para me atacar, quando realizei um movimento circular vertical em sua direção, e, a certa distância, objetivei meu ataque e consegui acertá-lo. Ele vacilou no momento, creio que foi um ataque bem efetivo, mas não o suficiente. Ele ainda estava brincando conosco. Mas, agora, a distância percorrida já era maior, cerca de cem metros.