51. Despertar

27/08/2011

Claro que eu não consegui passar tudo aquilo que eu gostaria. Isso que, supostamente, foi o momento em que mais escrevi até então. Eu acho. Pois bem, prossigamos. Tenho sérios problemas de memória. Até porque, quem sabe, talvez, eu tenha vivido muitas coisas até hoje. Pois bem, lembro-me de ter caído no sono. E eu, realmente, como um bom jovenzinho que já costuma acordar com sono, dormi gostosamente todo cansaço acumulado da normalidade de minha vida e ainda da energia gasta na batalha. Acordei com meu pai abrindo minha porta pela manhã, como todas as manhãs que pertenciam àquela época. Isso com meus amigos em sua alegria vitoriosa, em meio a uma luta sangrenta. Antes de relatar a continuação, venho notando que não escrevo mais como escrevia no início. Que coisa. Voltemos.

Constato como foi minha volta ao mundo. O meu, no caso. Tendo acordado, entrei em desespero. De fato, isso nunca havia ocorrido antes. Eu não sabia como proceder, eu precisava preparar-me para a escola, deveria pegar o ônibus cedo, uma vez que eu estudava em outra cidade. E não poderia me atrasar, era sempre um tempo cronometrado. Horas teriam se passado, o tempo lá se passa assim como aqui. Pelo menos creio eu nisso. E eu ainda precisaria de mais cerca de meia hora até entrar no meu querido transporte, onde eu teria cerca de mais vinte e cinco minutos para acabar logo com a luta invencível. Eu sei que, descrevendo dessa forma, parece algo muito fútil, mas eu estava trêmulo, desesperado, amigos no ônibus perguntavam se eu estava bem, logicamente eu respondia que sim como se a vida fosse repleta de vagalumes que lhe trazem a paz. Não, eu não estava bem, eu não conseguia falar, eu temia meu mundo já estar destruído, ter perdido os meus amigos, minhas esperanças, eu ia morrer em breve, não sabia o que se me podia ocorrer em ocasião de minha morte naquele mundo, ou de sua destruição. Pronto, creio que sem ponto final por umas quatro linhas já tenha dado para se ter uma noção. Em meio às perguntas, respondia como sempre respondi. Se há algo de ruim se me ocorrendo, eu não o costumo dizer. Sempre esse tipo de confissão me parece um tanto quanto egoísta e desnecessária. Tenho amigos mais dispostos a ouvir tais coisas do que todos que perguntam, mas não querem realmente saber. Ou seja, sempre respondo que estou com sono. O fato de eu já acordar com sono não é suficiente para que o sono seja resposta para todas as minhas respostas. Mas acabou que não me perguntam mais se há algo de errado comigo. Apenas perguntam se estou com sono. Então começo a pensar neles como seres insensíveis. Grande poço de maturidade e sensatez, admitam.

O que ocorreu é que meu ônibus – palavra que não consigo pensar em outro termo para substituí-la de forma adequada, o que tem me trazido sérias frustrações – costumava (logicamente, apenas…) vinha de outra cidade, a minha estava ao centro dos destinos. Mas, ainda assim, ele – santo pronome! – habitualmente permanecia consideravelmente vazio, havia lugar para que eu me assentasse. Então, para que adivinheis minha incrível sorte, desta vez, ele continuava vazio, houve um lugar para que eu me assentasse, na janela, e próximo aos meus amigos, para que parecesse que eles possuíam alguma importância naquele momento. Então, eu fui diretamente para meu mundo, em sono profundo, à visão de meus caros colegas. Tendo entrado na Fabilândia (há tempos não menciono seu nome (estou muito disperso hoje)), voei muito rapidamente à cidade em busca de um relógio. Clamava continuamente aos céus em busca de um enorme trânsito, que fizesse minha jornada mais longa. Com o relógio, localizei meus amigos e matei os monstros, antes que o ônibus chegasse ao meu destino. Grata luta. Todos saíram bem e felizes. Então entrei na aula.

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50. Desmaio

12/08/2011

Pronto. Pronto. Duas vezes já basta. Novamente, estava, pois, eu, muito cansado. Não sei se houve já a vossa percepção, mas sempre que eu, porventura, me retiro, de certa forma, da batalha, há um suave momento de reflexão. Agora é diferente. Cheguei eu ao momento que tanto esperei. Para que possa situá-los melhor, eu estava em meio ao meu pior conflito, e estava dormindo. Não estava tomando conhecimento sobre a situação, nem nada. Eu só estava lá, desmaiado em minha cama, como fazem as pessoas que dormem. Então eu cesso tudo o que fiz até agora, esqueço meus esforços. Iniciei esse livro na tentativa de mostrar para as pessoas o porquê de eu ser assim, distante, louco e besta. Também com a intenção de fazer uma pessoa em especial me conhecer melhor. Essa pessoa, por sinal, nem fala mais comigo, até quase me odeia, ao que posso notar, e as pessoas não lêem meu livro para que possam me conhecer. Então, minha idéia inicial foi vã. Então, vou abandonar tudo isso o que fiz até agora para descrever, com riqueza de detalhes, não mais os fatos. Vou agora responder àquelas perguntas malditas de final de entrevista que os entrevistadores usam para tentar fazerem-se de sábios e cultos. “Eu por eu mesmo”. Sim, vou tentar resumir quem eu sou. E pensar que digo isso como se todos os que leram tivessem pensado “como assim ele fará isso?”. Aproveitarei que estou irônico hoje. Mas escreverei minha definição verdadeira do que acho que seja eu. Esse livro, aliás, eu tenho como autobiográfico, só para constar.

Pois bem, eu sou o Fabinho. Sim, sou eu mesmo. Viva a Fabilândia. Eu sempre fui um ser com uma mentalidade extremamente inocente, sempre ignorando o que se tinha como natural para a busca da alegria. Sempre busquei alegria no ar que respiro. É certo que vivo até hoje na presença de muitos usuários de entorpecentes, mas isso não vem ao caso. Mas eu sempre me destaquei nos lugares por onde andei. Eu sempre parecia um ser de outro planeta, muitíssimo bobo, pois, como disse, me alegro muito fácil. Eu rio, rio com qualquer coisa, sob qualquer circunstância. E isso sempre me pareceu muito bom, pois, até nos momentos de fraqueza eu teria com o que me alegrar. Mas é impressionante como a humanidade não gosta de ver gente feliz. É certo que eu sempre fui um tanto quanto inconveniente, mas… Claro, claro, eu sempre incomodei. Eu nunca fui bem aceito. Então, passei muito tempo tentando desenvolver alguma coisa que fosse satisfatória para que eu conseguisse me ser notado por algo bom. Logicamente, não obtive o devido sucesso. Até consegui ser bom em algumas coisas, mas não à medida que eu quis. Sou um bobo frustrado.

Minhas frustrações começaram a serem muito consideráveis. Muito mesmo. E eu, além de inocente, eu sou muito frágil. Muito mesmo, eu não suporto simples realidades diante de mim. Na verdade, eu era muito mais forte do que sou hoje, mas creio que minha armadura desgastou-se muito. Sou vulnerável, eu perdi a estrutura que me mantinha apto a suportar as rasteiras ou demais golpes que poderia, pois, sofrer. Eu fui incrivelmente prejudicado pela falta de compaixão das demais pessoas que estavam ao meu redor. Isso me gerou extrema indignação com o tipo de comportamento alheio que fazia mal aos outros. Eu realmente iniciei um processo muito forte de ódio a esse tipo de atitude. Eu rejeitei isso com todas as minhas forças. Para quando, sem notar, eu estava sendo esse tipo de pessoa. Eu estava causando intenso mal às pessoas que mais amava. Nesse instante comecei a me odiar, me odiar com todas as minhas forças. Sério mesmo, ainda possuo, talvez, um instinto de sobrevivência e qualquer coisa do tipo, claro, eu ainda prezo pela minha vida. Mas não consigo assimilar a idéia de que eu sou a pessoa que eu formulei na minha mente como alguém que eu deveria odiar. Eu era exatamente aquilo que eu detestava. Isso se agravou muito no começo desse ano, mas é outra história que posso tratar em outra ocasião.

Nesse momento, o que se me ocorreu é que eu, num último suspiro em meu favor, eu me dediquei a fortalecer um sistema emocional interno para facilitar minha vida. Hoje eu odeio engenharia. Na verdade, eu sempre detestei exatas, mas creio que muito se deve ao fato de que ter, de certo modo, gasto toda minha esperança matemática tornando palpáveis e materiais meus sentimentos e emoções. Juntei, pois, todas as principais situações de ocorrência de minha alma e uni-as em bancos. Bancos. Aqueles nos quais se deposita alguma coisa. Eu criei um banco responsável por guardar minhas alegrias, outro minhas tristezas, e assim vai. Antes de demonstrar minhas emoções, eu as registro no banco, o quanto de cada uma delas é válida a situação. Até por isso tenho muita dificuldade em expressar o porquê de eu gostar tanto de alguma coisa e não de outra, essa é a minha habilidade de definir o quão alegre aquilo me deixou, sem que eu avalie necessariamente o que o elemento tem de bom. Eu apenas sei a quantidade material de alegria que eu adquiri com isso. E eu sei o quanto eu poderei gastar. Há aquelas alegrias que me invadem imensamente, mas que eu as prendo para que possa gastar em outra ocasião mais pertinente. Na verdade, com a alegria eu não preciso tanto fazer isso. Eu faço isso com algumas tristezas, para me mostrar forte diante das situações corretas, e usufruir de toda minha tristeza sozinho em meu travesseiro. Eu também separei o choro da tristeza. Assim, consigo gastar alguns choros sem precisar sofrer. Afinal, percebo que seja difícil  de entender, mas eu preferi proceder dessa forma, achei que seria mais coerente com a vida que eu pretendia levar, e eu definitivamente estou bem adaptado a isso.

Outra coisa decidi fazer em meu favor. Normalmente, não é natural que se goste de agradar alguém que se odeie. Eu ainda precisava de alegria, senão minha vida não faria mais sentido. Não que já o faça, mas eu juntei minha alegria e a depositei em um lugar onde ela dificilmente se perderia. Eu, por mais que sempre me mantivesse inconveniente e desagradável às pessoas, sempre fui muitíssimo rodeado de amigos. Muitos deles, em todos os lugares. Então, eu transferi minha alegria para meus amigos. Ou melhor, em fazê-los felizes. Eu dificilmente sou feliz por estar sozinho. Eu, logicamente, rio sozinho, pela situação que obtive sozinho. Mas minhas maiores alegrias se concentram nos momentos em que estou com meus amigos. Minha vida tornou-se ser agradável aos meus amigos. E também em ser útil. Fazer o bem, portar-me de modo totalmente contrário ao Fabinho que eu odeio. Quem sabe um dia eu volte a gostar de mim. Pensei nisso agora. Mas foi nisso que tornou-se minha vida, em fazer meus amigos sentirem-se bem. E assim, fixo minha alegria na alegria deles. Por isso, desfaleço-me muito no mal alheio. É algo terrível. Mas assim consegui tirar o foco do primeiro impacto de minhas emoções. E assim, suspendo o efeito do ódio próprio. Tem funcionado.

Bom, é importante então que eu tenha passado o que eu gostaria. Não é tudo o que se sabe sobre mim, mas aí está o âmago de minha alma, o que há de mais interno em mim. Agora vejamos o que se me ocorre após o desmaio.


49. O grão

01/08/2011

Era o momento onde eu deveria pensar em alguma coisa. De repente me aparecem do nada dois monstros invencíveis. Ótimo, eu os venci, lógico, senão aqui não estaria relatando a história, eu acho. Pois bem, vocês devem lembrar-se que eu venci todos os meus confrontos, então não torçam por mim ao ler e nem fiquem imaginando minha derrota, eu não tento provocar nenhuma expectativa sobre o fim dos relatos, eu apenas estou contanto as histórias para que vocês vejam o quão lindo e divertido e amedrontador e perigoso e legal é o meu mundo. Não quero criar suspense. Digo-lhes isso pois acabei de ouvir falarem sobre o suspense que foi criado. Não iniciei esse livro com paciência suficiente para pensar nisso. Só um desabafo simples e convincente que desejei fazer. Julgai-me babaca. Seja por falar essas coisas ou por não definir se lhes trato por segunda ou terceira pessoa, ou se lhe trato por singular ou plural. Notai que a utilização de um ou de outro demonstra a permanência de um certo nível de esperança em meu coração.

Pronto, deixe-me contar a história. E não pensem que conversando comigo pessoalmente eu seja em alguma mínima fração diferente do que sou aqui. Deve ser horrível mesmo. Até por isso é difícil que me deixem terminar de contar minhas histórias. Perfeito, sintam o drama. Acabei com o senhorzinho bonitinho lá, com capa. Pra quê aquela maldita capa? Não gosto disso. Daí, eu estava feliz. Pensem: feliz. Cansado, mas feliz. Foi uma das grandes realizações de minha vida. Daí chegam dois monstros gigantescos que voam e são muitíssimo fortes e resistentes. Minha vida já era. Eles eram muito rápidos, muito mesmo, mas para lidar com grandes distâncias. Pensai vós, por exemplo, quando estão trabalhando com objetos muito pequenos. Não é que não se possa fazer aqueles movimentos do trabalho muito rápido, mas é que para manipular essas coisas que são incrivelmente menores que você, não há como executar tal trabalho em grande velocidade. Vejamos, enfiar a linha na bendita agulha. Certamente, se não tivesse uma linha e agulha ali, você poderia movimentar os punhos as mãos… Vocês já entenderam. Bonito.  Refletiremos novamente. Eles possuíam grande velocidade, assim como um de nós muito habilidoso e veloz. Isso. Agora pensem. Já tentaram agredir uma montanha? Sério, por mais que vocês utilizem muita força, muita mesmo, não irá adiantar. Não adiantavam golpes, apenas ataques de energia. Mentira, nada era útil o suficiente. Eu formulei um ataque quase do tamanho deles, quase apaguei a luz do meu mundo de tanta energia luminosa que eu utilizei para fazer aquilo. Atingi o rapazinho inteiro. Ele se queimou, claro, doeu. Mas nada insuportável.

Deprimente. Totalmente. Pensai, por que deveria haver esperança nessa situação? Sério, era quase equivalente a você sozinho jogando uma partida de basquete contra todos os jogadores da NBA no mesmo time. Sério, eu quase comecei a chorar olhando para aquilo. Eu amo esse mundo, não é algo normal. As pessoas não conseguem me entender, eu tento me explicar e ninguém consegue concluir o porquê de eu ser desse jeito. Então eu me aproximei. Pelo menos atacar eu precisava. Depois eu explico com riqueza de detalhes como eu me senti depois que realizei aquele ataque majestoso. Acabei de ouvir uma música que tem o nome capaz de expressar o que eu senti na hora. Agora eu quero chegar logo no 50, planejei com muito carinho o 50. Então, voltando ao assunto, eu fui atacar o carinha, ele me bateu como se eu fosse um inseto, eu caí no chão e dormi. Só pra facilitar o relato, deixai-me esclarecer o fato. Eu, nessa época, já possuía, por padrão, o costume de visitar o mundo apenas à noite, quando eu me deitasse, ou durante o dia apenas caso eu visse algo estranho por lá. Então, já era tarde quando eu entrei. Então, tive que lutar, lutar um monte, bastante, intensamente, quase morrendo, com aquele nervosismo, temor e raiva gritando em mim. Eu estava muito agitado, pela graça do Pai. Então, eu estava lutando, correto? Agora imaginem novamente, eu acordava bem cedo todo dia. Eu já tinha passado um tempo imenso nesse mundo, não foi pouca bobagem, eu fiquei longos períodos lá, por mais que os movimentos das lutas fossem rápidos, elas duravam muito, já estava muito tarde. Daí eu juntei meu sono com o cansaço acumulado e com uma queda horrorosa, o meu desmaio. Pronto, dormi. E eu não estou naquele mundo quando estou dormindo. Eu volto pra este mundo.