60. Apressado

15/12/2011

Percurso que me vem sendo tradicional, mudo com enorme velocidade a direção de meus movimentos em busca de um distanciamento maior de meu oponente. Inicio o relato sobre o percurso de combate, inicialmente. Digamos que, estando nós ao deserto, com o olhar voltado à montanha, eu estava mais próximo a ela, quase ao canto direito da região. Meu inimigo estava mais próximo à divisão entre o deserto e a praia, na verdade à sombra entre essa floresta que promove a divisão, mais ao centro da região. Eu sempre me mostro incrivelmente temeroso com o fato de ter quase certeza de que todos que leem meus relatos ignoram totalmente o cenário, tendo desconhecimento completo da distribuição das regiões de meu mundo. Importa que eu busquei relatar tudo isso da melhor forma.

Vejamos, tendo essa distribuição de posicionamentos concluída, prossigamos com o combate. Após o beijo e frescuras à parte de meu rival, ele direcionou-se a mim com incrível velocidade. Entretanto, eu já o encarava, previa tal ataque naturalmente, como era de se esperar. Ele foi exatamente em minha direção, enquanto eu fugi há minha direita, desviando, e corri em direção ao mar. Chegando próximo à primeira ilhota após o Branco eu, que voava horizontalmente próximo ao mar, mudei bruscamente a direção, subindo e virando-me para Mitraefe. Com isso, observei sua veloz ascensão. Ao início da perseguição, por mais que esta se desse por alguns segundos apenas, já tivera eu notado que precisaria proceder de forma a enganá-lo com minha velocidade. Na verdade, o olho humano muitas vezes não consegue captar movimentos velozes (ou os capta em deficiência, como a calota de um carro que roda para o lado oposto ao que vai a roda quando um carro está em alta velocidade). Acontece que, como se sabe – ou como espero ter feito-me claro –, aquele colega não é humano. Com isso, não tenho como mensurar o efeito da velocidade aos olhos dele.

Prossigamos. Ao final da minha subida, eu pude observar com clareza a mudança de direção dele em minha direção. Foi quando iniciei a tentativa de movimentos mais rápidos até então. Movimentos sem nexo e objetividade, simples e imbecis, mas focando no ponto mais alto de minha velocidade. Primeiramente, fui num movimento de linha reta, indo e voltando com absurda velocidade, pelo menos para o que eu acho que seja muito rápido. Assim, antes que o movimento se tornasse previsível ao meu sábio oponente, eu alterava a variável. Iniciava um movimento circular, e posteriormente um em oito, rumo ao infinito, retornando à linha reta, gerando até calor aos locais por onde passara. Ele parado observando, às vezes ameaçando uma reação. Enquanto fazia isso, como estava eu muito rápido e não teria a noção de se ele estaria me enxergando com clareza, uma vez que àquela época eu não tinha tanto conhecimento sobre esse processo de reconhecimento de movimentos pelos olhos, eu juntava um tanto enorme de energia sobre meu corpo, ainda porque esta não possui cor. Depois do ataque eu vi os locais com uma leve distorção da luz. Pois bem, ao último movimento em linha reta, aguardei uma fração de segundo a mais para que ele se decidisse por antecipar meu movimento, ainda à mesma velocidade eu estendi o percurso e lhe retornei com o poderoso ataque de energia, num golpe realmente muito poderoso que misturava um forte chute com a energia acumulada. Ele caiu ao mar.


59. Os quadros de um combate

14/12/2011

O bom Silu materializou algo como um grande toco de madeira. Era nesses momentos em que eu via a minha essência expressa nele. Ele não queria manter-se vivo, apenas, não buscava necessariamente vencer a luta. Ele precisava se divertir, sustentar as cenas que ele materializava apenas em sua mente e só ali poderiam concretizar-se. E isso era feito com uma precisão incrível; ele sustentava a imagem do herói perfeito das telas do cinema. Ele não assistia filmes de cinema, de onde viria isso, ora, mas ele certamente permanecia sonhando com cada momento em que ele estaria lutando. São, de fato, os mesmos sonhos que às vezes se passam por nossas cabeças, mas não esperamos que se realizem, pois sabemos que não temos poder. Isto é, dentro do mundo onde vivemos. Minhas frustrações passaram a ser muito menos relevantes quando esse mundo se formou, pois grande parte de meus sonhos estava lá, onde meu sonho era meu mundo. Esqueçam essa frase. A quem tento eu inspirar?

Pois bem, Silu, de costas para meu agressor, acabava de acertar firmemente o grande objeto em suas mãos ao queixo do segundo oponente. Neste momento eu, acreditando que ele seria ferido pelo outro oponente, quando então ele, sem ao menos virar o rosto, conduziu o objeto para trás, acertando o rapaz, à nuca. Aliás, creio que nem mesmo eu esteja entendendo tais definições, vejamos: o que me atacou será o Xis e o outro a lutar com Silu será o Ípsilon. Sim, Zê, logicamente não vou ficar repetindo o nome de alguém com a letra que nem mesmo falar eu tenho facilidade. Meu sábio professor de matemática já o chamava de “essa letra”, não sou obrigado a proceder dessa forma. Se bem que, de certo, posso escrever seu nome apenas com a letra. Não, isso seria uma ciência muito exata para mim. O Xis e o Outro.

Pois bem, tendo o Xis sido atingido pela grande tora, ela era realmente bastante comprida, parecia realmente engraçado poder bater em alguém com aquilo. Silu era, além de um incrível lutador, um excelente ator, a sua feição mantinha-se concentrada e séria. Eu, certamente, estaria sorrindo com todas as minhas forças para tentar disfarçar uma alegria tipicamente babaca. Assim, Silu caminhou em direção de Xis, com um expressão bastante enfurecida, até, de certa forma, amedrontadora. Puxou-lhe pela gola de sua camisa e o ergueu, trazendo-o à altura de seus olhos. Eu acompanhava deitado ao chão, como um inútil, uma vez que acabara de ser atingido ao abdômen pela direita, com um poderoso chute, agora fora atingido ao lado esquerdo. Minha alegria só não estava infinitamente esgotada pelo prazer de contemplar a luta de Silu. Nesse momento, o Outro erguia-se em sua direção, pronto para mata-lo, e eu nada conseguia fazer, nem sequer para alertá-lo; o ataque me atingiu também à boca do estômago, não havia ar para que eu gritasse. Mas não houve problema. Enquanto erguia a mão direita ao céu, de forma inexplicável, largando a arma que portava, Silu bateu com sua cabeça à face de Xis, fazendo-o quase desmaiar ao chão. Ao salto de Outro para concretizar seu ataque, a espada que Silu aguardava cair do céu se lhe chegou à mão, quando este se aproveitou do movimento da espada para, num giro, atacar Outro num golpe de baixo para cima, de fato cortando-o ao meio. Espero aceitar a ideia de que essa cena foi real, pois está muito além do alcance de minha imaginação.

Passado isso, fitei Jumi. Não há tanto o que falar, ele é como um deus do combate, ele não usava armas, pouco usava seus ataques em energia. Ficava apenas saltando, de um lado para outro, distribuindo chutes aos seus oponentes, que o cercavam ao lado. Era até, de certa forma, cômico, notava-se facilmente que eles pareciam não ter recursos para derrotar Jumi, que ainda apresentava uma expressão serena, como se nada se lhe ocorresse de instante.

Eu recobrava minha respiração e minha aceitação do momento de dor, quando observei o rapaz amparando a moça. Este fitava-me como se me destruísse apenas com seus olhares. Ele possuía uma estrutura física e facial muito bem definidas, isto é, era um rapaz de ótima aparência, e a garota ia debilitando-se, ouvindo as silenciosas palavras do rapaz. Posteriormente ela gritara seu nome, algo como Mitraefe. Adoto-o agora para facilitar meus relatos. Mas, certamente, não havia de ser isso. Pouco me importa. Vejamos, ele rapidamente a beijou e veio, então, atrás de mim, para que iniciássemos novo combate.