72. Contraste

27/01/2012

Retorno alguns segundos. A dor era quase irremediável. Era como se estivessem segurando o meu estômago e dando várias voltas em torno de seu eixo central. Na verdade, isso parecia estar sendo feito com o corpo todo, o que era muito conflitante, uma vez que eu estava à máquina de recuperação, eu não deveria mais sentir dores. Essas dores eram enviadas diretamente de meu coração, que não se importava mais em continuar batendo, não lhe mais faria diferença. Era como se estivesse implorando para que me matasse também, ainda que da forma mais cruel já criada, não seria tão doloroso como a dor que eu sentira naquele momento.
A porta, abrindo-se levemente, iluminou imediatamente a escuridão suprema daquela máquina. Meus adjetivos e entonação hoje não estão muito agradáveis. De nada importa. Pois bem, o que é dito sobre a porta é que, estando em uma câmara totalmente fechada e ausente de luz, qualquer luz do dia seria suficiente para clarear totalmente o ambiente. Meus olhos foram tomados completamente, era como se eu estivesse prestes a entrar em um paraíso. Aquela sensação, por alguns segundos, me fez perceber que nada daquilo era real. Não havia guerra, meus amigos não morreram, todo estava sobre o mais completo controle, onde nossa alegria era infinita e ininterrupta. Foi como se os mares estivessem enchendo abundantemente o deserto de minha angústia, o mundo tornara a possuir seu sentido. Eu poderia rever o meu amigo Silu, no qual eu poderia dar um farto abraço, mesmo que ele não entendesse nada. Eu poderia dizer o quanto amo Jumi, e que sem ele nada daquele mundo seria satisfatório. Eu poderia reviver a mim mesmo, que preferia ver o mundo dominado pelas trevas ao ver seus amigos morrerem. A alegria naqueles segundos foi uma das mais intensas de toda história.
A porta se abriu mais um pouco, parecia durar uma eternidade. Meus olhos se acostumavam com a luz. O paraíso permanecia ali, mas sem ser o paraíso que o mundo nos idealiza, ainda que seja. O vento soprava intensamente, como no momento em que entrei na máquina. Silu já havia morrido e Jumi ainda me aguardava. A alegria de saber que Jumi não morreu não foi suficiente para suportar a dor de perceber que Silu jamais voltaria. Cabe comentar que ele sempre voltou, todos os dias ele volta, eu o sinto, eu sei que ele está comigo, porque sem ele esse mundo já teria falecido. Mas eu nunca mais o abraçarei. Creio já ter comentado bastante sobre isso.
Nessas mudanças repentinas de sentimentos, a porta se abriu e eu correria a Jumi, para abraça-lo e dizer o quanto o amo, não deixaria que essa emoção se apagasse. Pude localiza-lo à beira da cidade, próximo aos carros, nos quais tanto corremos. Era a nossa diversão, porque voar e ser mais rápidos que os carros não nos era suficiente. Eu cheguei perto dele, mas não tive coragem de abraça-lo como gostaria. Fiquei um tanto quanto encabulado. Ele olhava, com o mesmo olhar de sempre. Não entendo porque demorei tanto a mencionar esse olhar, tudo faria mais sentido desde o começo se o fizesse antes. Ele permanecia apoiado ao carro, o olhar profundo não escondia o lugar do olhar depressivo. Ele parecia saber que chegara nosso fim.
Vendo a tristeza dele, lhe dei um abraço. Não foi um abraço como eu gostaria, mas foi a forma que tive de fazê-lo. Nós gostaríamos de correr a nossa última corrida. Mas não confiávamos em nosso tempo. Desprezamos nossa inquietação e fomos correndo, como se não houvesse amanhã. Tudo por aqueles nossos últimos momentos de vida. E o vento soprava. Em breve chegaria a hora.


71. Atenção

22/01/2012

E era daquele jeito que o meu amigo partiria. Que tipo de dor insuportável, eu não conseguia sequer pensar na dor que seria a minha morte ou qualquer outra coisa, a maior de todas eu já teria alcançado. Se antes eu estava aquecido por dentro, num calor incrível, agora estava realmente prestes a explodir. Foi assim.
Eu tornava a pensar no que representava aquele lindo olhar. Não sei por que motivo, mas eu sempre vi Jumi como um amigo maior do que qualquer outro. Maior do que Silu. Isso não reduz a imensidão de meu amor por Silu. Apenas demonstra o quão inalcançável seria o que havia entre Jumi e eu. Embora Silu tivesse um nível intelectual mais desenvolvido, embora isso resultasse em conversas mais agradáveis, embora Silu pudesse me completar quando minhas ideias não fossem mais satisfatórias, embora Silu já tivesse ido embora, embora o jogo de palavras de Silu não fosse tão inútil, Jumi possuía algo indescritível que o elevava ao incompreensível. Jumi me dava atenção. Mas não é como a atenção que os outros me dão, assim como não é uma carência suprema dentro de mim que faz isso tão impressionante. É claro que, por diversas vezes, refletia eu que o meu amigo teria sido criado para suprir essa atenção que eu nunca tive. Entretanto, a atenção incondicional que ele me dava não era como uma bajulação, nem era por satisfação própria. Seu olhar profundo refletia isso. Esse é o mesmo olhar que vi em mim nas fotos que não sabia que estavam sendo tiradas, que via em minha irmã em seus momentos de distração. E eu entendo que, nos momentos em que desfruto desse olhar, meu pensamento não é sobre a vida ou sobre a vida dos outros. Costumo pensar nas cenas em que virão, ou no que devo fazer quando as cenas que se passaram repetirem-se. Fico pensando que, da próxima vez, não vou deixar de escrever do jeito que me é cabível só pra cumprir uma regra estabelecida, ainda que meu foco de estudos seja sobre isso. Fico pensando em como ligar isso que venho dizendo com o que gostaria de explicar sobre Jumi.
Afinal, ele não olhava para o além na esperança de alguma reflexão, mas buscando crescer. E ele só fazia isso porque percebeu que era assim que eu tentava crescer. Por mais que eu não seja grande, eu cresci muito. Hoje as dores não me atingem tanto como antigamente. Eu aprendi que não devo focar minhas alegrias na concretização de minhas expectativas, mas nas coisas boas que vêm de cada momento. Assim, ainda que o momento seja de uma suposta frustração por uma expectativa que não ocorreu, não me frustro, uma vez que sei que ainda há coisas boas no momento em que vivo. Assim, supero-me a cada dia, entendendo melhor a minha visão de mundo. Jumi não apenas me dava atenção, mas ele trazia a atenção que tinha sobre mim à sua vida. Ele buscava crescer com os meus erros e acertos enquanto demonstrava seu amor por mim com todas as suas forças. Ele sabia o que o erguer de minhas sobrancelhas significava, a diferença entre cada tom de minha voz e o que a altura de meus ombros queria dizer. Ele já havia captado tudo isso. Ele já tinha o completo conhecimento sobre mim. Isso era útil para que ele soubesse como agir diante de mim, como aprender sobre o que sei para poder conversar melhor comigo e também para que eu me conhecesse melhor, diante do conhecimento que ele tinha de mim. Por diversas vezes ele me repreendia, mostrando o que eu realmente sentia, algo que nem eu mesmo havia percebido. Ele era a maior concentração de atenção sobre minha pessoa que poderia haver sobre qualquer dos mundos.
Diante disso, noto que não há atenção sobre mim no mundo em que vivemos. Ninguém percebe como me sinto. Por diversas vezes, enquanto eu permanecia afogado em um oceano depressivo, me questionaram se eu estaria com sono. As pessoas nunca entenderam o porque de eu ficar feliz com um acorde diferente que se pode proporcionar em uma guitarra ou o porque de eu chorar assistindo um filme infantil. As pessoas não prestam atenção no que digo, fazendo sempre o oposto. Juro que não sou sábio, mas compreendi que, se as pessoas me ouvissem mais, o mundo seria mais feliz. As pessoas nunca pararam para me entender e, quando o fizeram, elas estavam em outro lugar, ainda que presentes em minha frente. Eu posso ficar horas falando sobre a minha vida para a pessoa que está diante de mim, mas esta não ouve nenhuma de minhas palavras. Seus questionamentos são sempre contrários ao que digo. Eu acabo de falar uma impossibilidade imposta por determinada situação e a pessoa, para tentar me ajudar, levanta a exata possibilidade. As pessoas não se atentam a nada do que fala. Creio até que muitos dos leitores não prestaram atenção ao fato de que, ao início do livro, eu estaria tentando entrar em uma faculdade e, agora, já estou me encaminhando para o segundo ano de academia, prestes a começar a dar as aulas. Também não se deram conta de que não há Lua na Fabilândia.
Após a minha dor profunda pela morte de Jumi, o monstro viria em minha direção lentamente. Foi o tempo de a porta da máquina se abrir e eu perceber que nada daquilo teria sido real.


70. Inacreditável

21/01/2012

Na iminência de começar um capítulo utilizando-me do termo “Pois bem”, inicio o capítulo com o termo “Na iminência”. Pois bem, eu estava na máquina, desesperado para sair de lá, na certeza de que o monstro já estaria chegando e que Jumi estaria sozinho à luta. Eu era um amigo terrível, ainda havia muito de mim que eu poderia conceder na luta sem a necessidade de me recuperar. Isso estava me corroendo por dentro. Eu não mais suportava a dor de esperar meu amigo morrer pra sair daquele lugar.
Finalmente, a porta se abriu para mim. Voei rapidamente para descobrir o que estaria acontecendo, a que ponto a visão que eu tive dentro da máquina seria real. Realmente, aquele monstro estava bem ali. Encarando Jumi. Era impossível. Como eu teria realmente visto algo de fora da máquina? Não havia tempo para reflexões.
O monstro tentou atacar Jumi, mas este se desviou com extrema facilidade. Eu comecei a acreditar que seria fácil. Ele tinha um tórax bastante avantajado, mas seus braços eram curtos. Sua feição monstruosa, muito irada, não mais me amedrontava. Era o meu momento. Ele não era tão maior que Jumi. Enquanto corria, lancei algo como bolas de minha energia seguidas vezes, para não lhe dar tempo para reação, chegando próximo a ele e lhe dando um chute, carregado de energia. Ele caiu, não tinha muita velocidade e parecia bastante vulnerável. Se o atacássemos com bastante vigor, logo poderíamos vencê-lo. Isto seria ótimo, acabaria com meus medos e desesperos. Perder mais alguém seria o que de mais terrível poderia acontecer em meu universo.
Em leve sinal com a cabeça, começamos a ataca-lo com muitas forças, sem lhe dar espaço sequer para que respirasse. Ele ameaçava levantar-se e já estávamos golpeando-o de novo. Até que ele, em uma mudança repentina de postura, agarrou meu tornozelo e me atirou para longe. Era como se ele estivesse brincando até então. Ergueu-se em extrema velocidade e chutou o peito de Jumi, sem dificuldades, também o fazendo distanciar-se. Começou a questionar-nos se esse realmente seria nosso melhor poder de luta. Em quase todos os desenhos que eu assisti isso ocorria, mas os oponentes diziam que não eram, e começavam a lutar com mais forças. Entretanto, no nosso caso, estávamos tentando derrota-lo o mais breve possível. Estávamos dando o melhor de nós. Isso me amedrontou infinitamente, eu fiquei sem ar por alguns segundo. Apenas alguns. Mas minha barriga doía como se me estivessem espancando. Nenhuma palavra saía de minha boca, eu já tinha percebido que seria impossível detê-lo.
Após alguns segundos, ao tentar me levantar, verifiquei que minhas pernas estavam bastante trêmulas. Comecei a flutuar, na esperança de disfarçar o efeito do medo. Jumi permanecia com seu velho olhar de bravura, distante, como se não estivesse vendo o que se lhe ocorria. Ziguezagueando, fui em direção ao meu oponente, para tentar empregar-lhe novo ataque. Fazia o tal movimento como se estivesse pulando. De nada foi efetivo, ele me atingiu antes mesmo que eu pudesse vê-lo. Caí, dessa vez, próximo a ele. Com um rápido olhar, vi a Lua que estava brilhante ao céu, parecendo que fazia exibir de forma mais grandiosa o poder daquele monstro. Jumi corria em sua direção para tentar dar um de seus ataques mais fortes com sua perna direita. Prosseguia à grande velocidade, mal podia vê-lo. Mas, antes que concluísse seu ataque, eu pude ver aquele monstro maldito esquivando-se e preparando-se para responder ao ataque, mesmo este não tendo sequer se concluído. Aquela cena era tão dolorosa que parecia estar ocorrendo em uma velocidade mínima, me lembro até hoje. Com sua mão direita coberta por uma luz vermelha, o monstro atacou o ventre de Jumi como se utilizasse um machado. O ataque foi suficiente para cortá-lo ao meio.
Era mais um amigo que partira. Com o golpe, Jumi desfragmentou-se de imediato. Entretanto, ainda assim, foi como se o tempo parasse para que ele olhasse em meus olhos, com a mesma expressão de sempre. Mas ali, foi como se eu tivesse a certeza de que, em todo esse tempo, em todos esses longos anos em que ele manteve esse olhar, ele só refletira sobre o quanto me amava.


69. Gracinhas habituais

15/01/2012

A dor não tinha ido embora, mas eu já não me importava com ela. Na verdade, a minha vida é não me importar com as dores, porque elas nunca me trazem benefícios. Quer dizer, supostamente, as dores serviriam para mostrar que há alguma coisa errada, servir de alerta ao organismo. Mas elas sempre me vinham em momentos nos quais eu não deveria me preocupar se havia algo errado comigo, tamanhas preocupações que eu deveria ter com a situação na qual estava envolvido. E permanece ocorrendo. Entretanto, agora as dores físicas em meio às lutas têm sido menos recorrentes. E, quanto às dores emocionais, elas permanecem inúteis, uma vez que elas ocorrem exatamente por eu ter bem notado que algo estaria errado, como era na situação.
Pois bem, vejamos o que ocorria. Em meio a uma angústia absurda, ocasionada por uma catástrofe que ocorrera em momento de leve desatenção, nós tínhamos notícias de que haveria um próximo ataque, o mundo teve uma básica mudança estrutural com aqueles ventos exorbitantes – o que caracterizava um ataque em nível superior ao comum –, nós fomos tentar verificar o que seria e, após quase morrer, não conseguimos nenhuma informação útil além de saber que havia uma enorme concentração de energia se formando. Fiz isso para tentar dar a ideia de continuidade no meu relato, como se eu estivesse falando muito rápido. Peço desculpas.
Após o breve resumo da situação, informo o que fizemos: ficamos esperando. Realmente, esperávamos arduamente, com mentes não tão dispersas quanto antes. Talvez não desse tempo de os dois recuperarem-se por completo. Eu precisava mais do que ele. Bem mais. Mas não havia tempo. Permanecíamos esperando, sabendo que logo ele viria. E o maldito demorava demais. Eu não sabia o que fazer, porque conheço as leis do mundo que garantem que, se eu estiver esperando por uma coisa, enquanto eu estiver em guarda, ela não irá aparecer, mas se eu sair para realizar outros afazeres, então esta coisa chegará. Isso é lógico.
Fui me recuperar, Jumi me acompanhando até a cidade. Aguardávamos o tal inimigo, ou os tais, ou não sei o quê. Na hora, apenas. Vejo-me em grandes dificuldades em contar a história pelo fato de eu ser um narrador onisciente. Não sei como conseguem. Eu começo a falar as coisas mostrando que já sei o final em vez de deixar que vocês saibam apenas as coisas na linha cronológica dos fatos. Mas, na verdade, quem se importa com a linha cronológica dos fatos? Eu não sou um rapaz muito chegado em linearidade, a vida para mim não é assim. Creio que falarei mais disso posteriormente.
Prossigo. Até porque eu preciso, por diversas vezes, sair do parágrafo onde inicio o relato que gostaria de contar para escapar de uma digressão. As digressões. Elas são como um profundo poço no qual me perco. Perfeito, caí numa delas novamente. É como se eu estivesse deitado com uma pessoa acima de mim, só que invertida.
Após chegarmos à cidade, entrei na máquina e aguardei. Aquela máquina é como uma digressão. Quando entro nela, é como se eu entrasse em outro mundo, aquele negócio de meta-mundo, outro mundo dentro de outro mundo. Eu sou estranho, ofendam-me o quanto puderem. Eu não entendo se sou eu que não me contento com os mundos nos quais vivo ou se é só uma máquina. Até porque se realmente for eu, isso será desesperador. Como que, após cinco anos naquele mundo, eu já me cansaria dele a ponto de precisar de um terceiro? Eu sou detestável. Espero que seja apenas a máquina.
Estando dentro da máquina, eu realmente não tinha conexão alguma com o mundo externo. A minha mente começou a se contorcer, ao que me parecia, e eu não suportava os cinco minutos ali dentro. Nem reparava se meu corpo estava se recuperando. Eu só queria sair dali. Mas, naquela máquina, os pensamentos começam a se dispersar, algo que quase não ocorre comigo naturalmente. Meus pensamentos começam a confundirem-se com a realidade, e minha mente não é muito agradável nesses momentos. Eu comecei a ver o que estava ocorrendo lá fora. Eu vi um monstro gigante aparecendo. E era horrível. Seria a mais terrível surpresa se eu saísse de lá e isso estivesse acontecendo de verdade. Veja, finalmente estou conseguindo.


68. Segurança

12/01/2012

Eu estava lá, flutuando com meus pés seguros por Jumi. Após todo o ocorrido, a única coisa que fazia com que eu me sentisse seguro era a presença desse meu amigo. Era algo impressionante porque eu estava sentindo novidade em voar em um mundo onde eu poderia voar à velocidade que quisesse. Era como se eu estivesse me erguendo do chão em decorrência do vento, não através de minhas forças, era fantástico.
O vento, bom tê-lo mencionado. Um dos grandes incentivos para que fôssemos em busca de respostas à região Preta era estar acontecendo uma coisa totalmente fora do normal: o vento era incrivelmente devastador. Podíamos ver algumas árvores, que teriam sido desmatadas aos movimentos dos gigantes, voando pela ilha, a nos rodear. E isso era o que mais nos trazia     temor ao realizar aquele movimento, por mais que fosse isso que o promovesse.
Agora, falemos da região Preta. Era algo muito estranho, eu tentava olhar o que lá estaria ocorrendo, mas eu, muito distraído e temeroso com o vento, tinha bastante dificuldade em realizar essa minha simples missão. No primeiro momento, eu senti a emoção de estar ali voando, mas logo me dei conta do risco que corria, passando a reprimir meus movimentos. Eu sabia que Jumi estava me segurando, eu sabia que nada de mal me ocorreria, mas eu não queria conceder a oportunidade ao universo para que as coisas dessem errado. Agora que eu descobrira que nós não éramos invencíveis, todas as minhas recordações de batalhas me vinham à mente, e eu ficava imaginando o que teria ocorrido para que eu não morresse nas tantas ocasiões.
O barulho do vento era imenso, trazendo-me o terror. Eu misturava as sensações, a dor pela perda, a desespero e o medo de que eu tivesse o mesmo fim. Jumi segurava meus tornozelos, mas eu precisaria me esticar em posição diagonal acima para conseguir ampla visão daquela região. Eu não conseguia fazê-lo. Me via aos prantos, aterrorizado com a situação, pedindo para que isso parasse. Jumi olhava para mim e gritava que estaria me segurando. Eu não queria, eu precisava descer, mas ele insistia. Até que ele me disse o que eu já sabia: “não vou deixar que nenhum mal te aconteça, eu estarei aqui com você” e mais alguma coisa. Eu já sabia muito bem disso, mas a voz dele, gritando mais forte que o barulho do vento, só por mim; isso fez com que eu me acalmasse.
Estiquei-me e consegui ampla visão daquela região. As casas acinzentadas permaneciam lá, a região parecia normal. Eu ficava tentando ver alguma movimentação estranha, até que encontrei um ponto mais escuro. Era como um ponto de energia que atraía mais escuridão, expandindo-se. Eu bem notei que dali sairia nosso próximo oponente. Estava tudo muito bem, eu já superara o medo e tentava buscar ainda mais informações quando, sem que eu percebesse, as mãos suadas de Jumi começaram a largar lentamente meus tornozelos. Tão logo o senti retomando a segurança, apertando-os forte novamente. Me senti seguro, sem notar que a tentativa de Jumi teria sido em vão. O vento bateu com mais força, fazendo com que eu escorregasse.
Eu sei que, nesse momento, eu comecei a cair naquela região. Eu percebia a minha queda, esboçava alguma reação, mas não conseguia sequer mover o meu corpo. Eu sentia minha morte naquele momento. Olhando a região, era como se ela me dissesse: “finalmente, você é meu”. Confesso que poucos momentos de minha vida me trouxeram desespero tamanho. Eu não havia ainda caído nem dois metros, mas já parecia que eu tocava o chão. Achei que tudo fosse acabar ali mesmo. O mundo estava caindo diante de mim. Minha vida parecia ter perdido todo o valor. Era como se eu simplesmente me contentasse com a morte, diante de toda dor. E permanecia com esse pensamento, até que senti a mão de Jumi me tomando pelo tórax, a um grito desesperado por minha vida. Ele agarrou-se ao topo da montanha, impedindo a minha queda. Acontece que, realmente, a região Preta estava nos puxando para dentro dela, e ele teve que utilizar toda a sua força ali para nos manter. Eu chorara como um pequenino bebê, temendo minha morte até esse momento. Jumi me segurava em seu colo como se eu fosse seu filho, enquanto sua outra mão nos sustentava. Ali, foi como se um mundo tivesse parado. Já não ouvia mais o barulho do vendo, mesmo com ele estando ao máximo de sua intensidade. Não via mais a escuridão daquela região. Eu apenas conseguia centrar meus olhos em meu amigo, que sorria, que me amava, que me dava a segurança e o carinho necessários para me retirar todo medo. Eu estava bem agora. O abracei. Fiz um leve esforço para, em poucos segundos, retirar-nos de lá. Estávamos de volta à região branca.


67. Norteio

11/01/2012

Não pense que qualquer atitude que tomamos tenha sido à base de um tempo produtivo de concentração. Certamente, a minha mente não conseguia pensar em outra coisa que não o meu grande amigo. Eu olhava para Jumi e ele também paralisado, totalmente desnorteado. Na verdade, creio que haja a possibilidade de eu explicar plausivelmente o que ocorria com meus pensamentos nesse momento. Era como se o meu pensamento fosse um pequeno Silu, do tamanho de um bebê, que estava aos meus braços, e os pensamentos relevantes ao momento fosse como areia que lançavam sobre o bebê. Por alguns breves instantes, eu ainda poderia ter a visão do bebê coberta e pensar naquela areia que estava sobre ele, mas ela logo caía ao chão, tornando a imagem do bebê à minha visão. Era, realmente, como se meus pensamentos de dissipassem em Silu, se dispersassem, enfim, dissolvessem em Silu. Sim, creio que tenha eu chegado ao verbo mais adequado para expressar o que era minha mente nesse momento. E, quanto mais tempo eu pensava no meu amigo que partira, maior era a dor. Era como se estivessem tentando cavar e eu fosse a terra; tiraram de mim a as raízes mais preciosas que sobre mim nasceram e ainda tentavam arrancar cada vez mais minha alma. Não sei se foi uma boa comparação, na verdade não sei mais nada, só sei que a dor que eu senti foi tamanha que me faz doer absurdamente neste momento, só em me lembrar da dor que eu senti naquela hora, quanto mais de me relembrar do meu amigo que partira. Dói muito para mim ter que falar disso, mas será valoroso à história, logicamente.
Prosseguindo, estávamos sem norte, totalmente. Creio que já fui bastante incisivo nessa declaração, mas sinto que persistir possa ser proveitoso. Pois bem, os fatos devem esclarecer melhor. Ao tremor que ocorreu, sabíamos que algo estava por vir. Isso, ao menos, tivemos a perspicácia de perceber. Entretanto, não conseguíamos pensar no que fazer diante disso. Começamos a esperar, sem saber o que poderia acontecer. E, acreditem, esperamos, o tempo suficiente para essas reflexões que venho apresentando, que, logicamente, não foram feitas na hora devido à minha inconstância emocional e racional do momento, mas é algo sério, acreditávamos que após o tremor uma nova batalha se iniciaria, mas parecia que algo novo estaria por vir, e por isso demoravam. Só o que sabíamos era que, após tudo o que ocorreu, o nosso próximo oponente seria uma espécie de “boss”. Acreditávamos seriamente que ele encerraria a guerra. Não era algo esperto de se imaginar e nem era bom que nos planejássemos diante de tal suposição, mas prosseguíamos aguardando.
Foi então que Jumi, ainda em dor, assim como eu, me puxou pelo braço e fomos caminhando à montanha. Ao meu questionamento, apenas me disse: “Venha”. Jumi era uma criatura peculiar. Seu olhar sempre permanecia muito distante. Na verdade, eu o mirava com a certeza de que ele estaria assim em decorrência da morte de Silu e, é claro, ele ficou um tanto quanto modificado em sua expressão devido ao ocorrido, mas ele sempre tinha um olhar de quem não estaria ali presente. Era como se ele não entendesse o mundo. Jumi sempre permanecia reflexivo, sem que eu notasse, e não há como desvendar os mistérios que se passavam por sua mente. Eu sei que começamos a subir a montanha. Após o tremor, forte vendo se instalou por lá. Eu flutuava até o pico da montanha enquanto Jumi ia saltando fantasticamente na magnitude de seus movimentos. Eu não o entendia, e ficava como um boneco de pano inútil, eu voava e me perdia em meio ao vento, sem sentido para subir ao pico da montanha. Chegando lá, o vento nos direcionava levemente à região Preta. eu, totalmente confuso, finalmente fiquei satisfeito quando Jumi explicou que iríamos observar o que estaria acontecendo ali, para que pudéssemos nos preparar. Eu achei uma ideia absurda, primeiro porque, mesmo sabendo o que estaria acontecendo, não adiantaria nada, e também porque havia o risco de nos prendermos ali e perdermos totalmente a chance de sobrevivência. Não sei se outrora mencionei, mas, após uma grande série de verificações, constatei que, estando na região Preta, eu não consigo voltar ao mundo onde vivemos. Na verdade, eu sei que não mencionei, acabo de recordar-me. Mas é certo que há muita magia ali envolvida. Com isso, Jumi alegou que não haveria problemas.
Pois bem, Jumi e suas largas pernas aliadas a pés que tocavam levemente o chão, apenas com suas pontas, formulavam um ótimo “gancho”, por assim dizer. Isto é, ele poderia apoiar-se à região externa da circunferência que marcava o topo da montanha para fazer o que planejara. Ora, o topo da montanha não era algo tão gigantesco; era até pequeno, de certo modo. Dava até para se realizar uma pequena luta no espaço, mas este não era tão significativo. Jumi apoiou a ponta de seus pés de um lado do topo da montanha e, aproveitando-se do vento, me fez como uma pipa. Sim, parece ridículo, mas foi muito efetivo. Ele me segurou, cada tornozelo com uma mão, enquanto eu planava visando o escuro de meu mundo, totalmente seguro em meu amigo que restara. Assim, consegui ver o que estava acontecendo naquela região.


66. O passado

10/01/2012

Eu poderia começar a me preparar, fazer qualquer coisa, me aquecer, recuperar meus pontos de vida – a melhor forma que tenho de descrever a máquina de recuperação – poderia fazer qualquer coisa, mas minha mente estava totalmente travada. Eu não conseguia calcular como seria a próxima luta, o que haveríamos de fazer para que não morrêssemos. Até porque, no momento, finalmente entendi que essa seria a nossa situação. Eu começava a esboçar um pensamento, mas não conseguia prosseguir, pois todas as minhas ideias no momento se convertiam na tristeza de perder meu amigo, meu grande amigo. Eu sabia que precisava me conter e pensar em outras coisas, pensar na minha vida, no meu futuro, na próxima luta que se aproximava, e eu tentava, mas eu estava ali, ajoelhado sobre meu amigo que partira, minha mente não se voltava para outro lugar.
Eu entrei em crise emocional, eu estava lá no mundo e precisava lá permanecer, queria estar lá, mas minha mente parecia que gritava para que lhe retirassem daquele lugar. Assim, eu fiquei entrando e saindo do mundo progressivas vezes, era algo bastante rápido e desconfortável. Isto digo para que seja bem percebido que minha mente não mais era dominada por mim, e sim o contrário. Eu perdi o controle total de meus pensamentos, tamanha dor. No momento eu teria várias reflexões interessantes, mas não tive condições de fazê-las. Pouco tempo depois elas vieram a mim, ainda em meu sofrimento, e as compartilharei por hora.
Qual a serventia da desintegração em meu mundo? Com a morte de Silu, passei a acreditar que isso dever-se-ia a uma forma de apagar o passado. Se todos aqueles seres do meu mundo representavam ideias, então quer dizer que, quando alguém morre, morre comigo uma ideia? Até então, isso parecia bastante coerente, pensando nos inimigos que eu matava. Matava com eles ideias ruins, me tornando uma pessoa melhor. Mas, com a morte de Silu, significa que eu perdia então uma ideia boa? Se ele já estava comigo há cinco anos, isso deveria estar sendo bom, correto? Pois bem, será que, agora, eu seria uma pessoa pior por em consequência da morte de Silu? Só um adendo, vou me questionando, mas não esperem que eu vá responder tudo isso, são só questionamentos que eu fiz na hora e guardo sua conclusão até então. Retornando, ao ver que Silu morrera, o que seria de minhas ideologias? Eu mudei e por isso o mundo matou Silu? E o questionamento mais importante: minhas ideias fora do mundo determinam os fatos dentro de lá ou os fatos de lá determinam minhas ideias fora do mundo?
Os dias após a guerra e a morte já haviam se passado. Eu me voltei a mim mesmo e não notei diferença em minha vida. Eu persistia: é claro que não haveria de ver diferenças; para que as visse, deveria eu estar fora de mim, eu mudei com as mudanças, logicamente, tudo isso seria normal para mim. Mas não era isso. Eu era o mesmo, apesar das diferenças que se dão com o tempo. E, por mais que eu buscasse, não conseguia identificar qual era a influência da ideia que Silu representava em mim e o que eu teria perdido sem ele. Claro, perdera eu um amigo insubstituível, juntamente com os lindos momentos que viveríamos juntos, não fora sua morte. Mas em mim mesmo, enquanto Fabinho, eu não pude ver a diferença. Estaria eu sendo tão insensível quanto à morte de meu grande amigo?
Na verdade, com o tempo, eu fui vendo que não era isso. Minhas ideias ruins, em qualquer lugar e em todo tempo, alimentam a região preta de meu mundo. Mas as coisas não são tão simbólicas assim. Nem tão interligadas. Eu vivo naquele mundo tão fisicamente quanto vivo aqui, e minhas horas lá são como se estivesse aqui, sem alteração. Apenas permaneço eu aqui, desligado, enquanto estou em outro mundo, dentro de mim. Na verdade, até hoje não sei direito a localização desse mundo. Não é isso que está em questão por hora. O que vejo é que aquele mundo é só outro mundo em que vivo. Não vem a ser uma expansão desse em que vivemos, nem o contrário. Aquele mundo é o mundo que pertence a mim, o mundo que reflete quem eu sou, mas não é o mundo que controla minhas ideias. Ele é fruto de minhas ideias, mas isso deve-se apenas a sua estrutura, e não aos fatos que lá se dão. O fato de estar havendo lá uma guerra não representa que eu estivesse vivendo um grande momento de maldade em meu coração, mas que meus pensamentos ruins alimentaram a região do mundo que se preocupa em gerar seres que tentam dominar o restante do mundo, e estes, naquele momento, aguardaram para formular uma estratégia de combate, ao invés de sair guerreando loucamente. Eles também têm sua personalidade, suas ideias, seus pensamentos e influências. Eu não sei de onde isso vem, mas eles a possuem e fazem com que isso se reflita nas batalhas. E assim eu apenas prossigo, eles vêm, eu tento impedi-los, naturalmente, porque naquele mundo eu decido o que quero que ocorra, porque decidi que quero que seja assim. Não creio que seja abuso de minha parte, mas eu decido que seja assim porque eu tenho o poder maior naquele mundo, eu quem escolho. Pode ser difícil isso, mas é assim que eu procedo e estou bem com isso. Escolho o que me faz bem, tentando fazer com que esse bem se espalhe.
Com isso, concluo que as ideias não são apagadas com a morte: a morte apenas apaga o fruto das ideias. Se eu formulo diariamente novos monstros, alimentados pelas forças ruins, não quer dizer que meus pensamentos bons não sejam suficientes para encher o mundo com novos seres. Eles aparecem dentro de uma necessidade que tenho, para serem bons frutos. O passado não marca os que morrem naquele lugar fisicamente, pois se é um mundo de ideias, eles que sejam fortes o bastante para permanecerem em minha memória. Não faço ideia de como eu ainda consigo me lembrar dos nomes daqueles que enfrentei; isso me vem com muita facilidade à mente. É simples para mim. É assim que eu prossigo. Jamais me esqueço das horas que passei com meu amigo. Então, retorno à dor de ter Silu na ausência de meus braços.