75. Sutilezas

27/02/2012

Desde que iniciei o livro, isto é, no tempo cronológico de minha vida real fora daqui, já se passou um grande tempo. Há, de fato, mais de um ano. No ano que se passou, voltava todo dia da faculdade com um grande amigo, o suposto irmão mais velho que nunca tive. Todas as noites, durante o percurso pelo qual ele me concedia carona, vínhamos relatando sobre os acontecimentos que conduziram nossos dias. Eram histórias incríveis de se contar, não que me venha à mente alguma por hora, ou que alguma delas me seja útil à narrativa de minha história, mas foi narrando minha vida e vendo-o narrar a dele que eu pude perceber como nunca antes o quanto a vida muda rapidamente. Era algo impressionante o quanto os pequenos detalhes interrompiam o rumo de nossos pensamentos e planejamentos. Era como se jogássemos um jogo e cada dia fosse uma fase pela qual haveríamos de passar. Nessa metáfora admito que possuíamos uma meta e estabelecíamos detalhes internos a serem alcançados até atingi-la. E isso ocorria a cada dia, ou cada fase. Na verdade, a vida sempre foi assim, mas eu apenas notei com clareza sobre isso no ano que se passou, quando eu descrevia detalhadamente cada dia meu, como em um diário. E, além disso, eu acompanhava o diário de meu amigo, vendo que isso acontece com todo mundo. Os acontecimentos relatados marcaram mudanças, muitas mudanças. Mudanças no modo de pensar sobre as situações, mudanças nos alvos e até no comportamento. Muita coisa me fez mudar, até com velocidade relevante.
Ao início do ano passado, a mesma pessoa que, mesmo sem saber, me incentivou a iniciar os relatos que realizo aqui em forma de livro, mencionou a mim que eu seria um ser um tanto quanto inconstante. Eu concordei com ela pelos modos que me portava diante dela. Entretanto, eu coloco aqui todos os relatos possíveis para marcar que, após a revelação de minha amiga, o ano me proporcionou momentos que me provassem e demonstrassem como é verdadeira essa inconstância em meu ser. Há alguns dias eu afirmei que buscaria prestar certo auxílio a uma amiga muito especial. Infelizmente eu não consegui, o que a deixou extremamente exaltada. Ela, com muita angústia, mencionou que eu precisaria “apenas” realizar uma “simples situação”. Foi aí que entendi tudo. É como se houvesse uma linha que demonstrasse a real complexidade da situação. Quanto mais alto, mais complexo. Ela estava pouquíssimo abaixo da metade. Minha amiga acreditava que a situação encontrava-se no ponto mínimo e eu num ponto brevemente abaixo do máximo. Mas não me achego aqui para discutir sobre minha amiga, mas sobre mim. Eu realmente complico coisas simples. Na verdade, eu estou escrevendo esse livro exatamente para provar quais são os meus acontecimentos internos que me conduzem a proceder assim. Isto é, o porque de eu ser tão complicado.
Tendo tomado as circunstâncias e contextos mais adequados, prossigo sobre meus relatos. Adoro prosseguir. O que se passa é que escrevi tudo isso para mostrar que eu sou tão complicado que acabo por ser demasiado inconstante. Mas incrivelmente inconstante. Sou inconstante até em ser inconstante, uma vez que mantenho algumas coisas como verdades absolutas em minha vida, como tradições imutáveis. Eu tomo banho do mesmo jeito (exatamente na mesma ordem) desde a sétima série. Sou surpreendentemente inconstante. Creio que seja isso a razão de uma das características de meu mundo. Eu a relataria posteriormente, próximo ao momento em que eu iria precisar de tal informação, até porque prometera eu que encerraria relatos avulsos para dar prosseguimento a história. Mas aproveito que ainda não revelei o monstro que viria para falar sobre isso sem quebrar o ritmo de uma narrativa mais pesada. Sou quase um gênio da literatura.
Pois bem, o que ocorre é que o meu mundo é um mundo, não como qualquer outro, mas como qualquer outro. Ele é como um planeta, aliás, é um planeta, mas de uma dimensão mágica. Ele não possui tamanho para ser considerado um planeta, mas é como um. Ele é esférico, como mencionam os livros de ciências da quarta série. Ele é suficientemente grande para que eu olhe ao meu redor como se não visse a curva de sua circunferência, mas é bastante pequeno, creio que sua área não seja equivalente a um país de tamanho mediano. Até porque entendo muito de matemática e estatística. Devo ter dito um absurdo de mais alta ordem, mas ninguém saberá jamais, uma vez que só eu vejo meu mundo, logicamente. A questão é que, como um planeta que possui um solo onde as pessoas andam, normalmente se pensa que seja uma grande quantidade de matéria reunida, formando sua massa e seu conteúdo. Isto é, uma esfera maciça. Entretanto, meu mundo não é assim. Ele é mágico, simplesmente. Eu tenho um mundo mágico dentro de minha mente, para onde vou por diversas vezes, não sei se já mencionei isso anteriormente. Prossigo. Eu já tentei cavar em meu mundo, para saber o que pode vir a ocorrer, logicamente. Eu cavei e tive uma gigantesca surpresa: o meu mundo era oco. Era como um ovo sem nada por dentro, isto é, oco, como as pessoas já entenderam da primeira vez. Eu fiquei desesperado com a noticia que produzi a mim mesmo, mas eu fui relatar isso em outra oportunidade e notei que eu estaria enganado. Mas meu mundo não se contenta em ser normal, ele precisa de atenção, só pode ser isso. Eu fui cavando, em busca do outro lado, o que ocorreu é que eu cavei, cavei e cavei. Isso não é bonito, mas é profundo. Perdão. O mundo simplesmente não possuía fim. Era assim. Eu cavei uma distância maior do que o diâmetro do mundo e não cheguei ao final. Então cavei o dobro do diâmetro, para me certificar de que tudo estaria correto, mas não cheguei ao final da mesma forma. Este capítulo foi para, sutilmente, informar que o solo de meu mundo é inconstante quanto o dono, não possuindo uma forma fixa. Ele varia de acordo com a vida, a escavação, o bom humor, algo do tipo. Não há ponto específico para a existência de mundo sem fim ou mundo oco. É assim que se procede. Isso não é uma forma de criar algum final à história, alguma resolução, isso simplesmente ocorre de forma estranha, e será útil, acredite.

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74. Cenário

09/02/2012

Como raios que partem as almas, a noite caiu. Não como cai uma noite qualquer, até porque não há noite na Fabilândia. O que ocorre é que aquela força na qual comentei no capítulo sobre o momento em que olhei a região Preta começou a sugar demais as coisas. Na verdade, nem me lembro se, em todas as vezes que mencionei as regiões, marquei seus nomes com letra maiúscula. É, a princípio, o correto, uma vez que as cores são seus nomes, e os substantivos próprios devem ser iniciados por letra maiúscula. Sem desvirtuar, era uma massa de energia que parecia atrair o restante das energias ruins daquele lugar, em busca de fortalecimento. Isso provocava movimento muito grande e veloz de objetos daquela região que possuem massa. Essa movimentação era tão intensa que interferia em toda ilha, com aqueles ventos, anteriormente mencionados também. Entretanto, isso começou a crescer de uma forma tão exorbitante que era como se a as coisas não estivesse mais ali, movimentando-se e tornando ao local apenas à velocidade que conseguíamos ver, mas sem estarem fisicamente ali. Um dia convocarei alguém que saiba explicar tal situação. Em vídeo. Eu realmente não tenho ideia de como explicar o que acontecia, só sei que as coisas eram atraídas para aquele buraco negro do mal, provocavam uma movimentação de ar tão imensa que movia o restante do mundo. No final, isso acabava provocando algo como uma escuridão falsa. Logo, noite.
Como se não bastasse, a areia se movimentava fortemente, ocasionando, de certo modo, uma linda nuvem de poeira. Mas ela não estava à altura dos olhos, estava um pouco acima, de uma forma estranha. Era como uma nuvem. Isto é, não entendo como e nem o que acrescentava, mas era como se, ao invés de fazer isso apenas para seu fortalecimento, o monstro estivesse buscando uma forma de criar um cenário apropriado para a luta. No momento, eu apenas possuía medo. Medo é algo interessante para se comentar.
Meu mundo possui a estranha temática que é a de mudar a potência de meus inimigos através de minhas emoções ruins, diante de certa moral que adquiri ao longo do tempo. Em geral, ira, orgulho, inveja, mentira, medo, entre outros desse tipo, daqueles que os vilões de desenhos possuem. Isso poderia ser muito discorrido pelos meus textos, mas não é. E não porque busco omitir tais assuntos. Eu simplesmente não desenvolvi isso no meu mundo. Em algumas vezes até lembrava disso, mas nunca trabalhei com esse tipo de controle. Se vinha um monstro e eu me irritava, eu simplesmente batia com mais força. Sempre foi assim. Como jogar um jogo de luta e não utilizar a defesa, uma vez que se ataca com tanto vigor que nem se lembra desse ponto. No caso, era como se eu lutasse com algo que recuperasse os pontos de vida do oponente, eu logicamente me preocupava com minha defesa. Mas eu me mantinha amedrontado, sem pensar no mal que isso fazia ao meu desempenho, deixando meu oponente mais forte. Isso era tolice, sempre foi. Mas hoje eu sou quase invencível, sendo ainda modesto no receio de provocar algum mal a mim futuramente.
Por fim, ocorre que hoje, ao escrever isso que tem sido lido, reparei numa Lua linda brilhando à janela. Esta nunca permanece aberta, praticamente. Ocasionalmente, recebi a visita de minha mãe ao meu quarto abrindo-a. Leva-me a uma última reflexão, sobre o que eu perco lá durante minhas noites. O mundo aqui é tão lindo como lá, mas dotado de outras circunstâncias que fogem muito ao meu controle. Entretanto, nunca me dei conta do quanto as coisas podem me fugir do controle também no meu mundo. Pois bem, muito há a se perder ainda nessa história.


73. Chuva

08/02/2012

Posso me considerar bastante inútil, mas eu realmente me sinto incentivado a tentar trazer para cá o mesmo sentimento que tive naquele momento. Esperávamos, sabíamos que viria, possuíamos uma pequena noção do que seria e até nos aprontávamos para a ocasião, mas ela não ocorria. Ficávamos aguardando de modo cansável e nada acontecia. E notem, eu realmente fico esperando, como fiquei naquele momento. Dou novos rumos ao intestino delgado, tento desenrolar sua extensão e criar novas possibilidades. Dou novas formas às nuvens – não há nuvens na Fabilândia. Dou novas melodias aos sons de meus passos. Dou novos sabores aos alimentos abundantes da ilha – não se come na Fabilândia. Enfim, busco algo para atrasar a história, simulando o atraso do momento. Insisto sobre a demora da concretização do momento, buscando falar mais coisas antes de falar sobre o momento. Persisto em um único parágrafo, para não mudar de um assunto, mesmo já o tendo alterado, só para dar a impressão de que ainda estou falando sobre algo que não poderia ser interrompido.
Minha vida tem persistido muito ligada ao ócio. Trabalho para conseguir maneiras de ter ócio. Estudo para que as férias cheguem e eu possa me preocupar com o ócio. Meu tempo livre é algo precioso, mesmo sendo quase o que possuo por completo. Falo de minha vida atual, do momento em que escrevo, minha vida fora do mundo, minha vida enquanto dono do mundo. Aliás, as coisas desse mundo têm me trazido tanto empenho em tempo livre que pouco me preocupo com as coisas de meu mundo. O tempo que eu teria lá talvez me trouxesse mais alegrias. Ou amigos. Mas insisto nas inutilidades que posso ter aqui, no mundo em que estamos. Planejo minha vida, sem lhe dar o rumo que necessita para que o planejamento se conclua plenamente. Lamento coisas simples não darem certo, lamento não ser correspondido, lamento as descobertas modernas. Aliás, descobertas modernas servem para acabar com a alegria que sempre existiu, provenientes do desconhecimento de elementos tão comuns que sempre nos acompanharam. Ninguém atribuía peraltice a déficits, era só eliminar isso à base de disciplina. Ninguém atribuía falhas amorosas à amizades. Amigos eram apenas amigos, e isso não impedia o início de um grande amor, pois não havia a possibilidade de amigos se gostarem. Não se pensava sobre isso, e hoje isso determina meu caos emocional. Não me importo com ele.
Creio que os meios de reflexão da atualidade têm decretado o fim do mundo próximo. Creio que seja impossível que o mundo prossiga após chegar ao que é hoje. Não menciono tais fatos crendo que tudo o que escrevo será, talvez, lido após o momento em que escrevo, e nunca antes. Assim, se minhas expectativas correspondem com a verdade, o mundo já estará bem pior do que está hoje, e já se terá bastante claro quais são os fatos que nos levam a crer que o fim do mundo está próximo. A sociedade, principalmente a brasileira, nunca esteve tão depredada intelectualmente. Certo estou disso, até porque guardo todo o conhecimento sobre a intelectualidade histórica do país. Isso também foi uma ironia, assim como o título do capítulo, que assim foi colocado na esperança de lhes dar esperança. Esperança que algo ocorresse, além de o autor lançar uma tempestade de ideias inúteis. Creio que já esperaram bastante.