73. Chuva

Posso me considerar bastante inútil, mas eu realmente me sinto incentivado a tentar trazer para cá o mesmo sentimento que tive naquele momento. Esperávamos, sabíamos que viria, possuíamos uma pequena noção do que seria e até nos aprontávamos para a ocasião, mas ela não ocorria. Ficávamos aguardando de modo cansável e nada acontecia. E notem, eu realmente fico esperando, como fiquei naquele momento. Dou novos rumos ao intestino delgado, tento desenrolar sua extensão e criar novas possibilidades. Dou novas formas às nuvens – não há nuvens na Fabilândia. Dou novas melodias aos sons de meus passos. Dou novos sabores aos alimentos abundantes da ilha – não se come na Fabilândia. Enfim, busco algo para atrasar a história, simulando o atraso do momento. Insisto sobre a demora da concretização do momento, buscando falar mais coisas antes de falar sobre o momento. Persisto em um único parágrafo, para não mudar de um assunto, mesmo já o tendo alterado, só para dar a impressão de que ainda estou falando sobre algo que não poderia ser interrompido.
Minha vida tem persistido muito ligada ao ócio. Trabalho para conseguir maneiras de ter ócio. Estudo para que as férias cheguem e eu possa me preocupar com o ócio. Meu tempo livre é algo precioso, mesmo sendo quase o que possuo por completo. Falo de minha vida atual, do momento em que escrevo, minha vida fora do mundo, minha vida enquanto dono do mundo. Aliás, as coisas desse mundo têm me trazido tanto empenho em tempo livre que pouco me preocupo com as coisas de meu mundo. O tempo que eu teria lá talvez me trouxesse mais alegrias. Ou amigos. Mas insisto nas inutilidades que posso ter aqui, no mundo em que estamos. Planejo minha vida, sem lhe dar o rumo que necessita para que o planejamento se conclua plenamente. Lamento coisas simples não darem certo, lamento não ser correspondido, lamento as descobertas modernas. Aliás, descobertas modernas servem para acabar com a alegria que sempre existiu, provenientes do desconhecimento de elementos tão comuns que sempre nos acompanharam. Ninguém atribuía peraltice a déficits, era só eliminar isso à base de disciplina. Ninguém atribuía falhas amorosas à amizades. Amigos eram apenas amigos, e isso não impedia o início de um grande amor, pois não havia a possibilidade de amigos se gostarem. Não se pensava sobre isso, e hoje isso determina meu caos emocional. Não me importo com ele.
Creio que os meios de reflexão da atualidade têm decretado o fim do mundo próximo. Creio que seja impossível que o mundo prossiga após chegar ao que é hoje. Não menciono tais fatos crendo que tudo o que escrevo será, talvez, lido após o momento em que escrevo, e nunca antes. Assim, se minhas expectativas correspondem com a verdade, o mundo já estará bem pior do que está hoje, e já se terá bastante claro quais são os fatos que nos levam a crer que o fim do mundo está próximo. A sociedade, principalmente a brasileira, nunca esteve tão depredada intelectualmente. Certo estou disso, até porque guardo todo o conhecimento sobre a intelectualidade histórica do país. Isso também foi uma ironia, assim como o título do capítulo, que assim foi colocado na esperança de lhes dar esperança. Esperança que algo ocorresse, além de o autor lançar uma tempestade de ideias inúteis. Creio que já esperaram bastante.

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