75. Sutilezas

Desde que iniciei o livro, isto é, no tempo cronológico de minha vida real fora daqui, já se passou um grande tempo. Há, de fato, mais de um ano. No ano que se passou, voltava todo dia da faculdade com um grande amigo, o suposto irmão mais velho que nunca tive. Todas as noites, durante o percurso pelo qual ele me concedia carona, vínhamos relatando sobre os acontecimentos que conduziram nossos dias. Eram histórias incríveis de se contar, não que me venha à mente alguma por hora, ou que alguma delas me seja útil à narrativa de minha história, mas foi narrando minha vida e vendo-o narrar a dele que eu pude perceber como nunca antes o quanto a vida muda rapidamente. Era algo impressionante o quanto os pequenos detalhes interrompiam o rumo de nossos pensamentos e planejamentos. Era como se jogássemos um jogo e cada dia fosse uma fase pela qual haveríamos de passar. Nessa metáfora admito que possuíamos uma meta e estabelecíamos detalhes internos a serem alcançados até atingi-la. E isso ocorria a cada dia, ou cada fase. Na verdade, a vida sempre foi assim, mas eu apenas notei com clareza sobre isso no ano que se passou, quando eu descrevia detalhadamente cada dia meu, como em um diário. E, além disso, eu acompanhava o diário de meu amigo, vendo que isso acontece com todo mundo. Os acontecimentos relatados marcaram mudanças, muitas mudanças. Mudanças no modo de pensar sobre as situações, mudanças nos alvos e até no comportamento. Muita coisa me fez mudar, até com velocidade relevante.
Ao início do ano passado, a mesma pessoa que, mesmo sem saber, me incentivou a iniciar os relatos que realizo aqui em forma de livro, mencionou a mim que eu seria um ser um tanto quanto inconstante. Eu concordei com ela pelos modos que me portava diante dela. Entretanto, eu coloco aqui todos os relatos possíveis para marcar que, após a revelação de minha amiga, o ano me proporcionou momentos que me provassem e demonstrassem como é verdadeira essa inconstância em meu ser. Há alguns dias eu afirmei que buscaria prestar certo auxílio a uma amiga muito especial. Infelizmente eu não consegui, o que a deixou extremamente exaltada. Ela, com muita angústia, mencionou que eu precisaria “apenas” realizar uma “simples situação”. Foi aí que entendi tudo. É como se houvesse uma linha que demonstrasse a real complexidade da situação. Quanto mais alto, mais complexo. Ela estava pouquíssimo abaixo da metade. Minha amiga acreditava que a situação encontrava-se no ponto mínimo e eu num ponto brevemente abaixo do máximo. Mas não me achego aqui para discutir sobre minha amiga, mas sobre mim. Eu realmente complico coisas simples. Na verdade, eu estou escrevendo esse livro exatamente para provar quais são os meus acontecimentos internos que me conduzem a proceder assim. Isto é, o porque de eu ser tão complicado.
Tendo tomado as circunstâncias e contextos mais adequados, prossigo sobre meus relatos. Adoro prosseguir. O que se passa é que escrevi tudo isso para mostrar que eu sou tão complicado que acabo por ser demasiado inconstante. Mas incrivelmente inconstante. Sou inconstante até em ser inconstante, uma vez que mantenho algumas coisas como verdades absolutas em minha vida, como tradições imutáveis. Eu tomo banho do mesmo jeito (exatamente na mesma ordem) desde a sétima série. Sou surpreendentemente inconstante. Creio que seja isso a razão de uma das características de meu mundo. Eu a relataria posteriormente, próximo ao momento em que eu iria precisar de tal informação, até porque prometera eu que encerraria relatos avulsos para dar prosseguimento a história. Mas aproveito que ainda não revelei o monstro que viria para falar sobre isso sem quebrar o ritmo de uma narrativa mais pesada. Sou quase um gênio da literatura.
Pois bem, o que ocorre é que o meu mundo é um mundo, não como qualquer outro, mas como qualquer outro. Ele é como um planeta, aliás, é um planeta, mas de uma dimensão mágica. Ele não possui tamanho para ser considerado um planeta, mas é como um. Ele é esférico, como mencionam os livros de ciências da quarta série. Ele é suficientemente grande para que eu olhe ao meu redor como se não visse a curva de sua circunferência, mas é bastante pequeno, creio que sua área não seja equivalente a um país de tamanho mediano. Até porque entendo muito de matemática e estatística. Devo ter dito um absurdo de mais alta ordem, mas ninguém saberá jamais, uma vez que só eu vejo meu mundo, logicamente. A questão é que, como um planeta que possui um solo onde as pessoas andam, normalmente se pensa que seja uma grande quantidade de matéria reunida, formando sua massa e seu conteúdo. Isto é, uma esfera maciça. Entretanto, meu mundo não é assim. Ele é mágico, simplesmente. Eu tenho um mundo mágico dentro de minha mente, para onde vou por diversas vezes, não sei se já mencionei isso anteriormente. Prossigo. Eu já tentei cavar em meu mundo, para saber o que pode vir a ocorrer, logicamente. Eu cavei e tive uma gigantesca surpresa: o meu mundo era oco. Era como um ovo sem nada por dentro, isto é, oco, como as pessoas já entenderam da primeira vez. Eu fiquei desesperado com a noticia que produzi a mim mesmo, mas eu fui relatar isso em outra oportunidade e notei que eu estaria enganado. Mas meu mundo não se contenta em ser normal, ele precisa de atenção, só pode ser isso. Eu fui cavando, em busca do outro lado, o que ocorreu é que eu cavei, cavei e cavei. Isso não é bonito, mas é profundo. Perdão. O mundo simplesmente não possuía fim. Era assim. Eu cavei uma distância maior do que o diâmetro do mundo e não cheguei ao final. Então cavei o dobro do diâmetro, para me certificar de que tudo estaria correto, mas não cheguei ao final da mesma forma. Este capítulo foi para, sutilmente, informar que o solo de meu mundo é inconstante quanto o dono, não possuindo uma forma fixa. Ele varia de acordo com a vida, a escavação, o bom humor, algo do tipo. Não há ponto específico para a existência de mundo sem fim ou mundo oco. É assim que se procede. Isso não é uma forma de criar algum final à história, alguma resolução, isso simplesmente ocorre de forma estranha, e será útil, acredite.

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