79. Esforço

16/03/2012

Eu carregava a energia com uma das mãos, enquanto permanecia coberto com a água, que se portava como os escudos de energia com os quais eu me revestia, esféricos em volta de meu corpo. Ela não atrapalhava a minha visão, não sei de que forma. Eu permanecia. Ao me aproximar relevantemente da praia, toquei meus pés à água, movimentando-me um pouco mais rapidamente e em diagonal, erguendo assim uma onda alta, ainda que não muito significativa. Esta alcançaria meu inimigo, que não se movia. Talvez quisesse me decepcionar mostrando que não seria vulnerável à água. Entretanto, em minha sagacidade, antes que as ondas o tocasse, fiz com que meu raio chegasse até ele, em intensa violência. Foi como um forte soco com energia em estado bruto. Acertei exatamente seu rosto, para me dar tempo. Ele deu uns dois passos para trás, para que não caísse. Sua mão em seu rosto, logo tornaria a ver para me procurar e revidar o ataque. Entretanto, tão logo o acertei, emiti outro raio às águas, erguendo grande quantidade, para que houvesse a impressão de que eu teria entrado nas águas. Ao invés disso, saí em disparada para o lado, tentando fugir do alcance de sua visão. É realmente bastante fantasiosa essa cena, como eu conseguiria tamanho êxito em um momento em que este era quase nulo? Pois bem, o êxito talvez não tenha sido tão gigantesco. Na verdade, eu não sei dizer. Eu sei que eu saí voando, não olhava mais a reação de Fário. Talvez ele tenha acreditado, talvez não, talvez tenha perdido tempo, talvez estivesse me dando tempo. Só sei que consegui alcançar Jumi, erguê-lo aos meus ombros e esconder-me próximo à montanha.
Jumi não estava com problemas de locomoção, ele estava no topo de sua performance física. Ele é um guerreiro muito forte. Mas eu o precisava erguer em grande altura de voo junto a mim. Fário chegou ao deserto. Nós estávamos escondidos, de fato. Era um ótimo esconderijo. Mas ele aterrissou ao centro do deserto, com muita força. Seus passos eram pesados e, para a nossa surpresa, vinham em nossa direção. Como teria ele nos vistos, o que teria feito? Até por isso creio que meu plano não foi em tudo bem sucedido. Eu já estava ao lado de meu amigo, como esperava, mas não despistei meu inimigo. Não sabíamos o que fazer. Correríamos de lá? Eu acreditava que fosse isso que ele queria. Busquei então executar a segunda parte do plano, que no caso teria sido construída antes da primeira. Saí com Jumi do esconderijo, em frente a Fário. Lancei três bolas de energia em sua direção, enquanto iniciava minha subida. Eu queria muita atitude. Assim, as três bolas de energia vinham do mesmo lugar, só que com alturas diferentes. Elas iam na direção de Fário horizontalmente. As três o atingiram, enquanto lentamente buscava erguer-se a me alcançar. Mas não o afetaram. Eu subia com o máximo de velocidade que meu cérebro poderia me oferecer. Quando eu realmente me concentrava, eu ia a uma velocidade incrível, até mais rápida do que a de meu inimigo. Isto é, eu tenho a exata velocidade que eu quiser, só preciso pensar nela. Mas as circunstâncias me eram tantas que me faziam não conseguir me concentrar somente na velocidade. Eu teria, por exemplo, que verificar se Fário estaria ficando para trás.
Como a velocidade era incrivelmente alta, a altitude também já tivera aumentado absurdamente. Entretanto, Fário permanecia ali, colando-se a mim. Jumi olhava a situação em meus ombros, reconhecendo que eu deveria tomar conta da situação naquele momento. Era o que eu pensava. À chegada mais perigosa de Fário, Jumi lhe atirou seu mais poderoso ataque, que seria o referido raio que partia de seu chute. Eu, vendo isso, sabia que o mais provável de se ocorrer seria o inimigo desviar-se e atacar pelo outro lado. Com isso, quase ao mesmo momento – uma vez que reconheço a imensa velocidade de meu inimigo – lancei um poderoso raio na direção oposta. De forma genial, eu estava certo. Consegui atingir seu rosto novamente, retardando-o levemente. Mas, como o retardo era leve, poucos segundo depois passávamos pelo mesmo apuro. Jumi não teve dúvidas sobre o que considerava mais importante. Aquele mundo era sua casa e o que eu tinha de mais importante. Atirou-se sobre Fário. Por ser um excelente guerreiro, conseguiu realizar ataques bastante eficazes, atrasando mais um pouco e ainda machucando o oponente. Mas este era muito forte para um luta corpo a corpo, ainda mais por Jumi não saber voar. Por que não lhe dei asas? – me pergunto por todos os dias. Eu parei para ver o que aconteceria. Jumi, alegado minha idiotice, alertou-me que continuasse.
Eu fechei brevemente os olhos e fui. Senti algumas lágrimas correndo e não tive coragem. Eu voltei para buscar meu amigo. Era inaceitável que eu o deixasse ali, ele era mais importante pra mim do que o mundo. Para a minha sorte, o ataque de Fário em Jumi terminou com uma joelhada em sua barriga, mandando-o para cima. Com isso, consegui recuperar meu amigo e prosseguir a subida. Olhei para baixo e não era mais perseguido. Continuei com todas as minhas forças, acreditando que tudo daria certo. Parei, averiguando abaixo novamente. Meu inimigo estava simplesmente armando uma coluna de fogo, como aquela de água que eu recebera anteriormente. Mas agora era fogo, que consome. Eu nunca teria me deparado com fogo de verdade naquele mundo, ao longo de toda a minha jornada lá. Eu estava aterrorizado, segurando Jumi, o que já não era lá das coisas mais fáceis de fazer, comecei a jorrar energia contra aquele fogo. Era realmente eficaz, o fogo cedia. Quando consegui eliminar o fogo, deparei-me com uma bola de fogo que vinha em minha direção, camuflada por todo aquele fogo. Era fogo e mais fogo. Ele era o fogo. Era terrível. Jumi emitiu aquele raio novamente e quebrou a pedra. Terminei de me proteger com meu ataque de energia, conseguimos nos manter vivos. Prossegui na subida, mas por um instante muito breve. Apenas o que fiz foi jogar Jumi para cima que, com a velocidade adquirida, iria realmente muito alto. A partir disso, iniciei gigantesca descida em direção ao meu inimigo. Utilizei toda a energia possível, suficiente para cobrir todo aquele mundo. Era minha chance. Ele não poderia resistir àquilo. O que ele fez foi avançar a mim, sem que eu pudesse ver, tamanha velocidade, e me acertar ao rosto com um forte soco. Todo esforço teria sido em vão.


78. Análises

09/03/2012

Doía o golpe que eu acabara de sofrer, o que eu vira meu amigo receber instantes antes, até o que eu receberia em breve. Mas o que mais doía era saber que, ao dizer ao meu melhor amigo que o amava, não tive tempo sentir a sensação linda que era estarmos transparecendo nosso sentimento naquele último momento de amizade do qual desfrutaríamos. Só pudemos dizer, mas não sentir o amor um do outro. E essa foi a amizade mais verdadeira que eu já vi e presenciei. Doía mais eu saber que perderia meu amigo do que saber que eu poderia perder a minha vida ou o meu mundo.
Fário passou a não utilizar toda sua velocidade, talvez quisesse um desafio ou algo além. Ele veio em minha direção e me deixou esquivar de alguns golpes. Ele era grande mas nem tanto, menor que Jumi. Ele tentava acertar um ou dois golpes e parava em minha frente. Meu medo era maior com ele parado do que me atacando. Ele emanava medo, passava a total certeza de que seria impossível vencê-lo. Ele desistia. Naquela velocidade de antes voltava ao meu amigo, atacando com um pouco mais de força, como quem percebia que Jumi seria um lutador mais avançado do que eu. Jumi era bravo, esquivava-se pela honra. Fário possuía garras, como se houvesse uma escavadeira em suas mãos. Atacava Jumi com golpes diagonais para baixo, uma mão de cada vez. Testava-nos. Em dado momento, ele realizou um ataque com sua mão direita e, fazendo Jumi acreditar que já teria se esquivado, ele avançou mais um pouco com suas garras, que já estavam para baixo, tocando o peitoral descoberto de Jumi. Este, como em todos ataques que recebíamos desse monstro, voou certa distância. Mas o mais impressionante foi a marca em seu peito: as mãos de Fário estavam muito quentes. Insisto, muito quentes. De costas, olhou levemente para trás, por sobre os ombros. Vendo a expressão amedrontada de quem observava tais movimentos, ergueu os braços e, olhando para cima, gritou: “eu sou o fogo!”. Não tive energia mental suficiente para ligar as informações que me eram dispostas durante o combate, mas hoje penso que o nome do inimigo possa ser “Fire”, uma vez que ele seria o fogo. Mas me lembro da pronúncia de um ‘o’ ao final de seu nome. Todavia, já me era dada uma informação absurdamente relevante para o prosseguimento da batalha, na qual meu inimigo teria poder de fogo. Fogo queima. Relevantíssimo.
Não sei se consegui me fazer claro, mas meus ataques de energia costumam doer. Quando menciono que atacava eu meus inimigos e eles não esboçavam reação seria, além de um drama, uma forma de mostrar que não alcançara eu o resultado desejado, mas os ataques sempre interferiam negativamente no desempenho de meus oponentes. Ocorre apenas que alguns são mais aptos a suportá-los do que os outros. E não é uma elevação de nível gradativa, uma vez que os monstros são produzidos a partir de pensamentos ruins de minha parte no mundo externo, e estes oscilam, de fato, em minha vida.
Esse monstro, além de muito invencível, era muito astuto. Ele realmente lutava sob estratégias muito bem desenvolvidas. Uma delas era permanecer sempre entre eu e Jumi. Eu poderia lançar um raio sobre ele que possuísse uma dimensão tamanha da qual não se poderia desviar. Entretanto, se o fizesse, atingiria também Jumi, e não tenho eu a ousadia para executar tal operação. a vida dele não era menos importante do que qualquer coisa que eu pudesse possuir, então não a negaria por nada. Ocorre que um ataque desses não seria tão danoso para meu inimigo, mas já o machucaria afim de me dar tempo para lutar e pensar e viver, talvez. Não fazia eu ideia do que fazer, mas era uma tentativa totalmente válida.
Sem opção no momento, corri ao mar. Eu tinha um pequeno plano, que me ajudaria por certos momentos. O inimigo tratava-se do fogo, mas eu já vira que sua bola de fogo, lançada ao início do combate, poderia resistir às águas, ao menos por um tempo. Quanto mais seu mestre. Água não seria o ponto fraco do fogo. Mas me ajudaria, como já disse. Ao caminho, em vez de uma linha reta, desviei levemente para a direita, na circunferência da ilha, pouco antes da floresta, e elevei minha altitude, variando-a para confundir os movimentos do inimigo que, logo ao momento em que saí de meu lugar passou a me perseguir, para impedir qualquer plano meu. Meus dribles deram certo, valorizei minhas artes em brincadeiras infantis, foram totalmente favoráveis ao momento, como se pôde notar.
Cheguei às águas e me virei à ilha. Fário permaneceria estático à praia, pouco antes de tocar as águas. Reconheço que ele tenha tentado prever meus movimentos, crendo que eu cri que ele seria vulnerável a água. Mas eu já teria notado que não, então o deixei crer que eu cria nisso. Pelo menos eu cria que ele cria que eu cria. Infame. Mas certamente seria isso. Então, ao invés de pegar água e tentar atingi-lo, retirei um pouco da energia da água, a fim de transformá-la em gelo. Dando isso certo, tentei recolher um pouco de água apenas com a energia, conseguindo também. Estava testando meus poderes em meio a uma batalha mortal, veja só você. Falo sobre isso mais tarde. Pois bem, eu recolhi um pouco de água e me cobri com ela, indo lentamente em direção ao meu inimigo. Isto é, a velocidade era maior do que a de alguém que corre sem voar, mas na luta isso viria a ser relevantemente vagaroso. Ele realmente acreditava que eu atiraria água nele, mas me destaquei em meio a um momento de sabedoria. Como meu ataque de energia é incolor, elevei um leve raio até meu inimigo calmamente, para que isso não fosse notado. Mantive-o fora de minha direção, a fim de ocultá-lo ao horizonte, que não possuiria nada a ser distorcido. Eu me aproximava da praia, prestes a executar meu primeiro plano de ataque nesse combate que estaria plausível de sucesso.


77. O impossível

05/03/2012

Ficamos alguns segundos nos olhando. Eu não sei o que acontece nesse mundo, mas todos os eventos mais tensos têm o poder de durar um tempo praticamente inexpressivo na realidade, mas aparentar anos e anos de extensão. É algo inexplicável. Ficamos realmente menos de um minuto nos olhando antes de algo acontecer, mas era como se permanecêssemos por horas e mais horas de medo em frente ao nosso fim. Ao menos, era isso que sentíamos. Nesses segundos, nenhuma palavra foi dita. Por pouquíssimas vezes olhei meu amigo, muito rapidamente, para não perder qualquer movimento de meu novo inimigo. Nem nos arriscávamos a dizer uma coisa, tamanho medo. Muito se diz sobre os grandes amigos, que nem precisam se falar para entender, bastando um olhar. Dentre eu e Jumi, amigos por tantos e tantos anos, na verdade, nem sequer era necessário um olhar para que soubéssemos o que o outro queria naquele momento. Quanto ao inimigo, de alguma forma, era como se isso acontecesse. Ele permanecia parado em seu lugar, apenas movimentando seu tronco minimamente. Não dizia uma palavra, como já mencionei. Entretanto, era como se ele estivesse dizendo alguma coisa, ou alguém tentasse fazer isso por ele. Não ouvíamos nada, mas compreendíamos uma comunicação que estava nítida talvez no ar, talvez à mente. Não eram palavras, mas uma sensação de medo que se imprimia em nós, como se alguém abrisse nossos corpos e a colocasse lá. De algum modo, não saberia eu explicar como, mas ao contrário de todas as outras vezes de minha vida, esse medo não representava o meu desespero, mas determinação. Eu nunca soube produzir esses efeitos a partir disso, mas nessa situação isso ocorreu, inesperadamente.
Não permaneceríamos parados por toda vida, por mais que fosse essa a minha preferência. Enfim chegou o momento. O cidadão estava de pé em nossa frente, uns vários metros de distância. Ele estava de pé como as pessoas costumam ficar de pé, com os dois pés em paralelo, normal, de fato. Em dado instante, após esses segundos tenebrosos – e meu drama adquirido – ele posicionou sua perna direita para frente, flexionando um pouco os joelhos, como se preparando para um impulso. Isso demorou mais do que deveria demorar, talvez como uma dramatização um pouco mais desenvolvida. Foi o momento em que me veio a morte de Silu à mente. Aquele meu amigo tão precioso que partiu sem que eu pudesse ao menos dizer o quanto eu o amava. Quando meu oponente começou a se mover, logo estendi minha mão ao meu amigo, ele me estendeu a sua, como se já previsse. Então eu olhei em seus olhos e, na dor da rapidez daquele momento, que desejava eu durar todos aqueles anos em que eu não aproveitei para dizer aquilo, lhe disse com firmeza: “Eu te amo”. Antes que eu pudesse completar a frase, ele já sorria a mim respondendo: “Eu também”. Naquele momento eu soube que, por mais que eu fosse morrer, como acreditava, eu sabia que teria cumprido uma vida valorizando a amizade mais forte que poderia existir.
O inimigo saltou em nossa direção. A guerra estava iniciada. Em um movimento que eu quase não pude ver, ele caiu para cima de Jumi, dando-lhe um soco muito forte que o fizera voar, gritando: “Eu sou Fário!”. Por muitas vezes já me arrepiei, mas, nesse momento, senti um frio que parecia agredir meus ossos violentamente, tamanho o espanto. Espanto pela força, pelo mal que estava em minha frente e pelo tamanho do meu oponente, mas principalmente por eu me chamar Fábio. Tomei como explicação que essa seria toda a incorporação do mal que há em mim lutando contra mim. Até hoje acredito que seja isso.
Quando ele olhou para mim, não tive outra reação se não correr. Eu precisava ataca-lo com toda a força que eu tivesse. Como já foi dito, utilizar-me de um ataque de energia não interfere em nada na minha energia. Eu apenas transformo a energia que me toca em energia em estado bruto e a lanço sobre meus oponentes. A diferença é apenas na quantidade que eu utilizo e na dificuldade que tinha para juntar uma quantidade exorbitante de energia em pouco tempo. Mas isso só exigia de mim certo nível de concentração. Eu possuo o transtorno do déficit de atenção, o que compreende a situação enquanto um enorme desafio. Prossigamos. Antes de pensar em uma luta corpo a corpo com aquele monstro, pensei em elimina-lo logo. Com toda a velocidade possível, eu teria que pegar Jumi às costas e leva-lo comigo às maiores alturas, para que eu descesse emitindo o maior raio de toda história. Mas o monstro estava entre eu e Jumi. Eu tentei dar a volta, mas quando passei pela altura de Fário, ele se movimentou e, com facilidade, me apanhou pelos cabelos. É nesse momento que necessitaria eu cabelos menores naquele mundo. É claro que ele poderia ter pego qualquer parte de meu corpo, sendo ele tão mais rápido, mas ele escolheu os cabelos. Puxando-me, deu uma joelhada em minhas costas e me arremessou. Ainda em dor mas em determinação, antes de cair me mantive flutuando e lancei sobre ele um ataque de energia, não tão absurdo mas bem concentrado. A diferença entre os ataques de energia é que alguns podem se espalhar mais ou menos, mas com a mesma quantidade de energia. Digamos que um ataque mais concentrado seria um ataque, de certo modo, mais fino, que teria a possibilidade de penetração maior. Foi nisso que apostei naquele momento. Fário apenas desviou-se, como se nada ocorresse no momento. O mundo caía sobre mim naquele momento. Eu pensava em todas as possibilidades, todas me eram nulas, antes mesmo de eu as executar. Chegaria o meu fim, certamente.


76. Chuva de fogo

02/03/2012

Noto que em muito me estendi ao retardar a chegada de meu novo oponente. Perceba que concedi ao leitor um período de espera similar ao meu. Vejamos, se dormi à tarde fora do mundo para ingressar nessa luta contra os sete inimigos, acabada a luta eu não retornei ao mundo dos homens para aguardar o seguinte. Na verdade, acabo de perceber que adorei a nomenclatura utilizada. Mundo dos homens enquanto o nosso mundo, o mundo no qual escrevo e vivo a maior parte do tempo, e meu mundo, referindo-me à Fabilândia. Deveria eu ter notado isso anteriormente. Retornando, observe que, após uma luta cansativa e relativamente demorada contra os sete inimigos, uma vez que houve até aquele debate antes de iniciar-se a luta propriamente dita, além do tempo em que os aguardei chegar antes até do debate. Nisso já teriam sido dadas as horas. Já era de noite no mundo dos homens. Meus pais já deveriam ter chegado em casa para ver o que teria acontecido e eu não os responderia se tentassem me acordar. Achariam que eu estava com algum sério problema, e de fato estava, mas eles não saberiam deduzir sobre qual seria a ocasião. Minha mente se contorcia diante dessa reflexão. Pensava eu seriamente em voltar para avaliar a situação e a possibilidade de me manter por lá naquele momento. Não havia essa opção. Seria muito provável que o monstro não me esperasse para aparecer, matando Jumi, que não teria nenhuma defesa. Eu precisava me manter lá.
Há muitas reflexões que invadiram minha mente no momento, invadem agora, trazem discórdia, sofrimento, foi um momento terrível onde eu encarava a pior situação possível. Eu estava entre passar por uma situação complicadíssima frente aos meus pais e perder meu mundo, sem saber no que isso resultaria. Eu também pensava sobre a possibilidade de Silu voltar a viver caso eu saísse e retornasse ao mundo. Isso possuindo eu apenas quatorze anos e vivendo em meio a amigos que, por mais que eu os adorasse, me proporcionavam ambientes muito hostis. Creio já me ter feito claro sobre a intensidade do momento em minha mente, não me vejo mais discorrendo sobre as reflexões. A hora já é dada. Vou prosseguir com a parte da história na qual o monstro aparece.
Os céus, como já fora dito, estavam escurecidos por algo que eu nunca antes vi, que era a movimentação muito intensa das massas de ar. O vento soprava como se não houvesse limites e precisávamos fazer muita força para permanecer de pé no mesmo local. Era como o fim do mundo se anunciava à televisão. Uma imensa coluna de fogo se ergueu por detrás de montanha, vindo, logicamente, da região Preta. Era inexplicável, uma vez que, com tamanho vento, não havia como se imaginar que uma coluna de fogo pudesse ganhar altura sem perder seu formato e direção. Era até provável que o vento soprasse a coluna até onde estávamos, mas dando a volta no mundo, tamanha sua força. Enfim, não havia sentido para uma coluna conseguir se erguer. Subia a partir de um impulso realmente muito grande para conseguir tal resultado. Por dentro dela também subia um ser, na figura de um homem não muito forte, mas apenas aparentemente. Ele subiu até altura na qual pudéssemos vê-lo, isto é, diante de nossa angulação, mais ou menos a altura de uma montanha e meia. Lá ficou parado, com os braços abertos. Isso durou uns vinte segundos, o que nos parecia três dias e dezessete horas, precisamente. Nossa posição diante daquele ser era lamentável, era um poder incrível que se manifestava diante de nós. Esperando que ele se achegasse até nós para lutar, nos colocamos em guarda. Eu nunca soube ficar m guarda.
Ele não estava muito amistoso para cumprir um protocolo de bom oponente e se apresentar antes de iniciar algum combate. De lá, antes que pudéssemos prever, lançou praticamente todo aquele fogo que se erguera em sua coluna, espalhando por toda ilha. Isso não faz sentido algum. Refletindo novamente, não acho que haja os elementos necessários para que se constitua fogo naquele mundo. Isso é apenas estranho, mas o fogo estava lá. Ele queimava, não era apenas ilustrativo. Por impulso, consegui, com o braço esquerdo, agarrar-me à cintura de Jumi e voar com todas as minhas forças até debaixo do mar, para que não fôssemos queimados. Era como se da coluna o ser tivesse emitido uma porcentagem para cada canto da ilha. Uma dessas porcentagens, como numa bola de fogo, parecia manter-se na incumbência de nos seguir. Ainda debaixo daquela água, vimos o que seria como uma bola de fogo, mas apenas de fogo, sem um valor em massa que estaria incendiado, apenas uma bola de fogo, entrando no mar e, como se olhasse para nos procurar, começasse a nadar em nossa direção. Por sorte ou até comodismo de seu dono, desmanchou-se ela antes de nos atingir. Um suave capricho estabelecido.
Retornamos à superfície e ao local onde estávamos antes da chuva de fogo. Esta já estaria encerrada. A coluna de fogo foi perdendo sua base, que reduzia-se até os pés do monstro. Era então apenas uma cobertura de fogo que o acompanhava. Este fez o que prevíamos, flutuando até um pouco mais à nossa frente no deserto, encarando-nos. Chegando próximo à areia, apagou o fogo que lhe cobria. Era um ser horripilante. Sua estrutura corporal era como a de um lobo humanizado, andando sobre duas patas, mas seu rosto não era o de um lobo. Era um rosto novo, criado, inventado. Não há relações com qualquer outra coisa que eu tenha visto. Não me vejo muito no potencial de descrevê-lo, apenas busco informar sobre seu formato: era como uma caixa que possui uma esfera em seu interior. A esfera um tanto quanto oval e maior do que a caixa, isto é, vazada. Na parte inferior tudo se encontrava, no círculo. Era mais ou menos esse o formato, mas não no sentido literal. Recolha a imagem que tentei passar e formule isso até parecer plausível de ser chamado de cabeça. Seus olhos eram negros e de morte. Não havia nariz, e a boca parecia sempre aberta, sedenta por almas. Algo do tipo. E ficou parado, nos observando e avaliando um ataque. Meu medo era quase maior que o poder daquele monstro.