82. Falho

29/04/2012

Queria eu focar-me em outra coisa, tentando prosseguir no relato da batalha. Sei que preciso continuar narrando, estou certo de que para qualquer um que ler isso é muito importante. Mas, para mim, é como se o mais importante tivesse acabado. Quando comecei a escrever, eu sabia que teria que passar por isso. Eu sabia, sabia muito bem, mas fiz de conta que isso não me afetaria, que conseguiria prosseguir como se nada estivesse acontecendo. Como se esse fato não representasse mais nada para mim. Imbecil. Sempre. Pois bem, eu estava muito bem acostumado a prosseguir com dor. Como meu sistema de lutas alterou-se um pouco, há bastante tempo, eu perdi um pouco desse costume. Mas creio que esse espírito guerreiro não me deixou. Pra que fui falar nisso? Como se houvesse alguém com maior espírito guerreiro do que Jumi. Como se houvesse forma de simplesmente esquecer o amigo que mais amei em toda minha vida e prosseguir contando uma historinha qualquer.

Fário se aproximava lentamente. Ele parecia querer me dar mais alguns segundos de vida. Ou queria me amedrontar ainda mais. Talvez soubesse de minha natureza reflexiva, quisesse me fazer chegar à conclusão de que perderia a luta, me apavorar até que eu estivesse totalmente descontrolado emocionalmente, para meu desempenho na luta fosse prejudicado. Talvez fosse isso mesmo. Ou talvez apenas quisesse me fazer pensar que ele me estaria dando os últimos segundos de vida, para que a segunda hipótese se concretizasse. Pois bem, tentar adivinhar o pensamento de meu oponente não é uma boa pauta para o prosseguimento da história. Na verdade, isso se encaixa apenas na breve reflexão que tive no momento.

Ele permaneceu andando, calma e tranquilamente, como se estivesse apenas voltando para sua casa após um dia de trabalho. Estava longe, a cerca de cento e cinquenta metros de mim. Eu estava parado, de pé, encarando aquele que quase não alterava sua expressão. Eu estava com meus braços para baixo, punhos fechados, pernas um pouco abertas. Aguardava meu oponente.

Por saber que minha energia conseguia conduzir a água, como realizara há alguns instantes, eu tentava movimentar um pouco da areia próxima a mim. Obtendo sucesso, tentaria recorrer àquela propriedade de meu mundo, na qual o mundo poderia, simplesmente, não ter fundo ao cavar. Eu não sei o que acontece quando alguém cai nesse oco do mundo, mas eu deveria tentar, era uma de minhas únicas chances, caso fosse, de fato, uma chance.

Comecei a juntar minha energia, para conseguir derrubá-lo em um buraco. Fui abrindo o caminho de areia, para garantir que conseguiria abrir, primeiramente, o buraco. A uns 20 metros de mim, aproveitei o vento para disfarçar a formação de um breve monte de areia, que cobriria a visão de Fário. Logo em frente a esse monte, eu comecei a cavar um buraco, apenas retirando com a energia a areia que estivesse ali. Após ter cavado um pouco, coloquei uma fina camada de areia, para cobrir o buraco. Levemente, retirei o monte de areia que tampava a sua visão, já que já teria providenciado camuflagem melhor. O buraco estava um pouco à direita da rota de meu oponente em minha direção, par que ele não tivesse que pisar naquele lugar. Eu precisava manter certa energia para segurar aquela areia ali e um pouco (muita) para conseguir empurrá-lo até ali. Eu fiz tudo isso sem mover um músculo, apenas manipulando minha energia. Isso seria um poder que eu desenvolveria e compreenderia melhor posteriormente, mas, até então, vinha sendo bem utilizado.

Ele se aproximou, eu esperava que ele estivesse tangendo o buraco, que era até, de certa forma, grande. Ele, ainda sendo mais rápido do que eu, não chegava a ser mais rápido do que eu. Ocorre que ele sabia controlar e usar sempre o máximo de sua energia. Eu ainda precisaria me concentrar mais para chegar à maior velocidade, coisa que só alcançava algumas vezes. Mas, sabendo disso, me movimentei de modo a conseguir tal concentração no momento.

Finalmente, Fário chegou ao lugar que eu esperava. Já às costas dele estava o buraco. Usei a energia que camuflava o buraco para lhe chamar à atenção, aproveitando que não mais precisaria segurar aquela areia. No mesmo instante, voei com toda a velocidade da qual dispunha e com uma quantidade imensa de energia em minhas mãos, usando-a para empurrá-lo naquele buraco. Como consegui me concentrar, meu movimento foi um sucesso, e consegui derrubá-lo no buraco.

Entretanto, antes que eu pudesse, de fato, comemorar meu êxito, notei que não se tratava do buraco que eu precisava. Havendo dois comportamentos distintos da terra quando nela se cava, como já foi dito, ao invés de se abrir um buraco oco, abriu-se um daqueles intermináveis. Agora, o que teria sido meu triunfo, se transformaria no meu pior pesadelo.


81. Areia ao vento

04/04/2012

A vida passa sem notarmos. Mal sabia eu. Juntos novamente, partiríamos ao mesmo movimento, rodeando-o. Eu por um lado, Jumi por outro, até estarmos às extremidades do oponente e podermos pensar em algo. Eu pensava em voar para distrair o oponente, lançar um ataque incrivelmente forte enquanto Jumi o atacava por baixo. Estratégia tradicional. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não encontro palavras. Pois bem, não foi possível. Ao sairmos, cada um por um lado, Fário escolheu um de nós para atacar. Jumi foi escolhido. Próximo, bem próximo do local onde saímos, Fário já conseguiu alcançar Jumi. Com aquelas garras horrendas e gigantescas, em formato cônico, deu como um soco em Jumi, atingindo metade de sua barriga, facilmente despedaçada. Com a mesma destra do primeiro ataque, antes que Jumi pudesse desfrutar da dolorosa queda em dignidade, tomou algo como um tapa, com as costas daquela mão, em sua cabeça, para cair mais rápido.

Apenas gritei, com todas as forças. Tantas forças que parecia que minha cabeça explodiria. Gritei apenas uma negação, que durava por horas de um fôlego, como se quisesse gastá-lo inteiramente na dor de ver meu amigo sofrendo aquele ataque. Sem que eu pudesse pensar em fazer isso, já me vi naquele lugar. Minha velocidade foi tão absurda que Fário se assustou em me ver ali, tamanha minha vontade de estar com Jumi. Eu estava de joelhos ao lado de Jumi. Perdendo eu toda a noção e controle de meus sentidos, me vi formando, com minha energia, como um campo ao nosso redor, expandindo-o com muita violência. Fário, não podendo resistir, foi levado para longe, próximo à montanha. Deve ter feito uma feição bastante curiosa, não sei, não olhei. Só resvalei meu olhar por três vezes.

A primeira quando ele bateu suas costas à montanha. Retornei a olhar os olhos de Jumi, que, ao contrário de mim, não estava agonizando a dor, o temor de partir, nada. Ele apenas sorria. Eu chorava tão intensamente que parecia que não havia espaço suficiente em mim para suportar tamanho volume de água. Antes fosse isso o mais terrível. A dor que eu sofria era tão maior que eu, mas tão maior, que eu não queria mais enxergar. Era como se eu visse as portar para o mundo em que estamos fecharem-se, me condenando a qualquer coisa. Minha mente não soube e nem sabe até hoje comunicar a alguém, sequer a mim mesmo, o tamanho daquele sofrimento. Eu sentia a dor de alguém rasgando minha pele repetidas vezes, sem que isso estivesse acontecendo na realidade. E eu gritava incansavelmente, como se precisasse alcançar um nível inatingível de gritos para recuperar Jumi. Creio que tenha feito aqueles últimos momentos dele algo totalmente desprezível. Não que o fizesse deixar de sorrir. Seu sorriso era lindo, como nunca antes eu havia visto nele.

Tendo sido arremessado longe e encontrando-se com a montanha um pouco acima do chão, chamou-me à atenção o barulho de Fário caindo. Foi a segunda vez que olhei para ele, ainda estava longe. Tornei ao meu amigo. Toquei seus cabelos, lisos como fios de ouro na tonalidade castanha. Ouvi várias palavras em toda minha vida, meu léxico é agraciado por um arsenal incrível de opções e combinações, dentre as quais já ouvi gigantescas declarações de amor, das mais belas às mais singelas, das mais claras às mais poéticas. Entretanto, jamais vi tamanho amor explícito a alguém como vi naquele olhar de Jumi. Ele mostrava que eu era o tudo dele, como se não soubesse o quanto ele era para mim.

Olhei pela terceira vez. Fário começou a andar lentamente, com uma expressão extremamente enfurecida. Vinha em minha direção, como quem desse tempo para que eu me despedisse. Gentil rapaz. Ao maior dos prantos que conheci, reclinei-me sobre Jumi, abraçando-o. Fui erguido pelo seu braço esquerdo, ainda, de certo modo, inteiro, para ouvir as últimas palavras de meu amigo.

– Fabinho, olha o tamanho desse seu poder – iniciou. Você pode vencê-lo. Não o faça pelo ódio disso aqui, mas faça por esse mundo. Esse mundo é dono da vida que você tem fora dele. Você é importante, muito importante. Posso partir de qualquer jeito, mas só estive vivendo por sua causa. Ou não teria sentido. Espero ter te ajudado. Eu te amo, grande amigo.

Era isso que ele tinha a me dizer. Depois de tudo, era isso. Seu sorriso não se deteve se não somente por engasgar no meio das frases, tossindo muito. Terminou a breve fala sorrindo, sem parar. Eu não compreendia, porque criara um mundo que me traria tamanha dor. Fário ainda estava longe. Minha mão direita sobre seu ombro, a outra me apoiando, ao lado de sua cabeça, para não forçar muito seu corpo. Não queria causar mais dor a meu amigo que partiria. Não sabia se ele se lembraria de algo, como uma vida após a morte. Não conheço a morte em mundo algum, não tenho como descobrir o que interferiria nele. Eu estava totalmente atordoado. Coloquei aberta em seu peito a mão na qual me apoiava, deslizando levemente. Foi o momento em que ele começou a partir. Seu sorriso não me deixou jamais, permanece comigo em qualquer lugar. É o que me deu e me dá forças. Ele começou a se desintegrar, desmanchando seu corpo em minhas mãos. Não havia Lua ao céu, nem alguma história daquelas que não condizem com a verdade. Eu estava lúcido, em meio a uma batalha terrível. Jumi estava realmente partindo, como areia ao vento. Diante de meus olhos, levando com ele quase toda minha vontade de viver. Só foi o tempo de que nós, simultaneamente, mesmo ensaio, disséssemos a última palavra: “Adeus”. Era tudo.


80. Mãos

02/04/2012

Serei breve. Diante do ataque falho que acabara de realizar, me atentei a recuperar Jumi. Meu oponente era excelentissimamente astuto. Jumi teria sido arremessado ao maior dos altíssimos, para que eu pudesse atacar sem que ele fosse atingido. Jumi não voava. Então, enquanto estivéssemos ao céu, eu não poderia larga-lo. Não que ele não pudesse cair, saberia meu amigo uma forma de manter-se vivo mesmo após a queda, mas o problema é ele estar no ar, vulnerável por não poder esquivar-se. Com toda a velocidade, alcancei Jumi e este manteve-se agarrado aos meus pés, para que eu me movimentasse. Fário, primeiramente, impediu nossa passagem, mostrando claramente qual era o risco que corríamos e qual a vantagem que ele levava conosco ao céu. Até porque, se hoje eu conto isso, é em ocasião de eu apenas ter notado isso em batalha, diante dessa situação. Acreditei que, neste momento, estivéssemos perdidos. Mas, antes que eu pudesse realizar qualquer discurso de despedida desse mundo cruel, eu tinha uma vida, agarrada em meus pés, a zelar. Não poderia deixar que acabassem com Jumi.

Entretanto, altero o parágrafo para dizer que, em dado momento, eu tentei descer e Fário foi bloquear meu movimento. Avistei o monstro vindo em minha direção, acreditando que seria o fim. Não houve tempo hábil para que eu realizasse uma alteração em minha rota, de modo a desviar. Apenas observei sua perna se preparando para um chute que viria diretamente em meu rosto, potencializado pela velocidade na qual eu estava descendo. Apenas fechei os olhos, ou tentei fazê-lo. Na verdade, meu inimigo ameaçou o chute, o vi retirando o pé. Já era tarde, eu estava determinado a fechar os olhos. Só os abri novamente após assimilar o fato de que eu não teria sido acertado e que, levemente, teria visto que ele não me atacaria. Ao abrir os olhos, olhei para trás e notei que ele descia nos perseguindo. Ele poderia usar uma velocidade bem maior e nos matar, ou já ter feito isso anteriormente, mas apenas nos empurrou violentamente ao chão. Foi doloroso, mas não foi um absurdo. Ele poupou nossas vidas. Eu já estava ao chão, junto a Jumi, caído.

Fário queria mais. Poderia fazer qualquer coisa. Sua estrutura corporal era, por completo, bastante larga. Seus ombros mais do que seu tronco. Braços muito largos, não demonstravam tonificação muscular, mas eram muito fortes. Sua mão acompanhava a grande largura de seu braço. Até o presente momento. Ele, pousando delicadamente em nossa frente, como se flutuasse com o auxílio de turbinas, logicamente inexistentes, iniciou uma mutação. Nada tão especial. Apenas transformou suas mãos em algo parecido com as garras daqueles grandes tratores. Possuíam os cinco dedos pontudos, era o formato de uma mão gigante, como que formada de metal, seus dedos largos encontrando-se ao centro. Eram duas mãos que correspondiam praticamente ao seu tronco, que já era incrivelmente grande. Uma arma terrível e letal, certamente.

Sem saber o que fazer, eu e Jumi levantamos prontamente. Não havíamos sido feridos à queda, até por esta ter sido sobre um monte de areia, no caso o deserto, e por Fário não ter intencionado a nossa contusão. Creio que ele queria muita diversão. Chamou-nos ao ataque. Começamos a rodeá-lo com muita velocidade, lançando vários raios, mas com medo de nos aproximarmos. Todos ele defendia com suas mãos de ferro, ou algum metal qualquer. Em dado momento, notei que eu conseguiria me aproximar aos poucos, estando ele de costas para mim. Mantive minha precisão nos ataques, até que tentei, com toda a velocidade disponível, ataca-lo de perto, enquanto Jumi parava de mover-se para lançar grande número de ataques consecutivos. Esse não era do feitio natural de meu amigo, mas se adaptava bem a isso. Um grande lutador. Por alguns segundos, meu oponente dava as costas a mim. Eu acreditei que fosse o momento propício para promover o referido ataque de perto. Porém, ao me aproximar, sem que eu visse, fui atingido e arremessado a uma enorme distância. Foi quando percebi que Fário não estava de costas. Ele estava rodando para nos ver, mas em tamanha velocidade que eu não pude notar. Fui atingido por um forte chute lateral em minhas costas, uma vez que fui realizar o ataque partindo lateralmente, para que meu movimento corporal potencializasse o poder. Naturalmente. Foi a pior coisa que eu poderia fazer. Jumi correu em minha direção, movimento permitido por Fário. Veio ver se eu estava bem, respondi que sim, ou ao menos consegui me levantar e me mover normalmente. Prosseguiríamos o ataque.