84. Golpe

20/05/2012

Para que se lembre, até aquele momento no mundo eu já tinha descoberto o poder de absorver a energia à qual estava submetido e convertê-la em outros tipos de energia para poder atacar. Os caminhos mais próximos e vantajosos encontram-se exatamente nos lugares mais óbvios que nos esquecemos de olhar. Estava eu ali, debilitado por ter sido utilizado enquanto escavadeira de um monstro incrivelmente forte, no momento em que uma rajada de fogo vinha em minha direção de uma forma horrenda e incrivelmente veloz. Eu me erguia com certa dificuldade enquanto pensava em alguma saída. Havia duas coisas que eu poderia fazer: ou eu usava minha energia para cavar para os lados do buraco e assim fugir ou outra coisa. Sendo a primeira coisa na qual pensei, comecei a cavar rapidamente, sem grande avanço, apenas uma entrada. Mas, no caso, se eu fosse fazer o tal buraco lateral, havia a possibilidade de o fogo se espalhar e chegar até mim, assim como a possibilidade de o lado do túnel ser oco ou algo do tipo. Não faço ideia do que poderia ocorrer, até hoje nunca tentei isso de cavar as laterais de um túnel eterno. Túnel eterno, ótima nomenclatura. Ou buraco eterno, creio que seria mais pertinente. Perfeito, prosseguindo, na fração de segundo na qual refleti sobre o assunto, achei que não seria tão sábia a decisão de tentar escapar pelos lados. Restava a outra coisa.

Fogo. Como é sabido, eu tenho o poder de absorver a energia com a qual tenho contato e transformá-la em outra coisa, inclusive no que chamo de energia em estado bruto. A física deve me odiar por isso. Pois bem, como isso não me veio à mente anteriormente? É claro que, em determinadas ocasiões, os ataques de Fário também vinham acompanhados de bolas de fogo, algo como pedras de meteoritos no tamanho de, digamos, uma bola com a qual se praticam alguns esportes, em média. Mas, naquele momento, naquele túnel, era apenas fogo. O que melhor eu poderia absorver do que fogo?

Em um instante de séria concentração, me empenhei em absorver toda a energia daquele fogo. Eu não sabia se o fogo poderia me queimar ainda assim. Quando vi, enquanto absorvia o calor, o fogo ia se apagando. Talvez alguma modificação no oxigênio, algo do tipo. Eu estava parado, cotovelos juntos à cintura, punhos fechados e mãos estendidas horizontalmente ao meu corpo, naquela posição onde os heróis de desenho permanecem para acumular seu poder. Eu apenas absorvia o poder que me era lançado, assim digamos. O fogo continuava descendo, eu continuava absorvendo. Já estava com tanta energia acumulada que acreditava que haveria um colapso no tempo-espaço, algo do tipo. Nada de anormal, eu só permaneci com grande energia acumulada. Naturalmente. O fogo cessou. Rapidamente, me escondi naquele rascunho de buraco cavado lateralmente. Não era o suficiente para fugir, mas, para quem me olhasse de cima, talvez eu não fosse visto. Fiquei ali por alguns segundos. Quando acreditei que o monstro tivesse parado de olhar, retornei. Com isso também retornou uma densa camada de fogo, talvez bem mais forte. Certamente, o ser ali tivesse a brilhante concepção de que deveria sobrar alguma coisa morta ali, após ter sido queimada, e me aguardou para que eu, dessa vez, morresse. Talvez ele tenha achado que consegui me esconder no buraco.

O fogo vinha mais forte, precisei de mais concentração para detê-lo. Até que, em dado momento, eu desisti de permanecer nisso, talvez fosse bem idiota de minha parte. Nada que fuja da normalidade, mas não pretendia que isso se repetisse de modo que eu morresse. Pois bem, observando que eu possuía grande êxito em absorver aquele fogo, eu comecei a ganhar altitude naquele túnel subterrâneo. Fui subindo, subindo bastante e com alta velocidade. Gostaria de ter gravado aquele momento em que eu finalmente saí do buraco, em meio àquele fogo, de forma triunfal. Achei lindo e justo.

Por alguns segundos, o meu oponente me observava com muita surpresa em sua expressão, mas isso não o fez parar. Apenas perceber que o fogo sozinho não me venceria. Até hoje, acho ótimo ter descoberto que resisto ao fogo, por mais que eu não mais precise disso hoje. Então Fário veio rapidamente em minha direção, e eu esquivei indo para um lugar qualquer. Se ele me golpeasse, como fez com Jumi, eu certamente morreria instantaneamente. Minha constituição física não resiste a nada mesmo. O que ocorreu é que ele vinha em minha direção e eu esquivava para lugares aleatórios e não muito previsíveis. Ele tinha mais facilidade para atingir sua velocidade do que eu, assim como sua velocidade máxima era maior do que a minha normal. Entretanto, aquilo já me fazia evoluir. Todas aquelas lutas já serviam para que eu conseguisse uma velocidade similar à dele em todos os momentos. Ficávamos indo de um ponto a outro, não eram movimentos interligados, até que Fário começou a perceber isso e cortar etapas desses percursos, chegando cada vez mais próximo de mim. Deixei que tudo ocorresse até que ele sentisse estar bem próximo de me alcançar. Até que eu me movimentei em direção ao topo da montanha, em ascensão diagonal. Mas, ainda longe, percebi que seria alcançado. Nesse momento, alterei meu percurso para cima, totalmente, e virei-me para Fário, que já estava muito próximo a mim. Com isso, consegui emitir, de uma só vez, toda aquela energia que eu havia armazenado. Foi o maior ataque que eu já realizara.

Ele realmente sentiu o golpe. Ele era mais preparado para ganhar a luta, mas eu estava conseguindo me sobressair. Era muito mais do que o esperado. Pois bem, estávamos em uma boa altitude, não das maiores que já atingimos naquela mesma luta, mas uma altura relevante. Ele caiu desamparado lá de cima. Talvez ele tenha que gastar alguma energia em seu voo. Não entendo como funciona a flutuação dos demais seres. A minha é tão simples e vantajosa. Estava lá no chão, erguendo-se, furioso. Debilitado, mas furioso. Não sei o que seria pior, morrer para alguém no auge de sua condição física, mas que me mataria simplesmente por sua missão ou alguém que, ainda que debilitado fisicamente, me mataria por seu ódio, furioso comigo.

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83. Inversão

18/05/2012

Meu pior pesadelo, como sou dramático. Já tive pesadelos bastante ruins, sobre temáticas bem piores do que minha morte. Isso é o de menos, ruim é ter que viver sem algumas coisas que, às vezes, nem vemos quão especiais são.

Pois bem, estava lá meu amiguinho, caído em um buraco que não tinha a profundidade que eu precisava, depois de tanto trabalho para conseguir cavar sem usar as mãos, ainda em meio a um pavor insuportável: a qualquer momento aquele monstro poderia, simplesmente, negar a caminhada dele e me atacar rapidamente, sobre todas as minhas armas e preparações. Seria fácil atribuir isso a ele. Foi sorte minha ele ter respeitado sua decisão de unicamente me apavorar.

Vejamos, estava ele deitado, um tanto quanto sem reação, tentando, antes de reagir na batalha, entender o que minha mente tão sábia teria imaginado que aconteceria caso aquele monstro fosse empurrado naquele buraco. Naquele momento, ele me questionou se eu o enterraria na areia. Na impossibilidade histórica e emocional de lhe dizer que, na verdade, eu o atolaria, iniciei uma forte investida com aqueles raios de energia.

Meus instintos de luta me eram acrescidos de uma forma gradual ao longo do tempo. Fico, de fato, entristecido, por nunca ter buscado um aprimoramento em algum tipo de luta fora do mundo, de modo que, como venho dizendo, sou muito forte e poderoso, tenho um poder destrutivo e uma capacidade de luta muito grande, mas não tenho como proporcionar grandes defesas, esquivas, como os lutadores sempre fazem. Eu apenas tenho o poder. Ainda assim, aprendi muita coisa na luta, desenvolvi, de fato, grandes habilidades. Prova disso é que, sem mesmo que eu notasse, eu já estava sobrevoando o tal buraco a uma distância valorosa, ótima para que eu continuasse meu ataque. Eu fui lá naturalmente, sem me preocupar ou pensar que deveria estar lá.

Fário disse a tal frase, que antes mencionei. Com ela, vendo que ele ainda estava, logicamente, consciente, comecei a utilizar uma energia muito grande e atacar sem escrúpulos. Lançava uma série de raios, dos fortes, inundava aquele lugar. A poeira do deserto foi se levantando como em raras oportunidades. Até que, por alguns segundos, concentrei mais energia para lhe enviar um grande golpe. De fato o enviei. Não foi dos mais fortes que já enviara, mas foi bastante valoroso. Até porque permaneci com ele sendo emitido por vários segundos, com toda a fúria que minha mente poderia produzir.

Claro que o machuquei, esse é um tipo de ataque que transforma qualquer tipo de energia em energia bruta; o mínimo que deve ser feito é machucar as pessoas. Entretanto, aquele ser era revestido de uma forte armadura, que eu acredito que seja seu próprio corpo, mas, de todo modo, o raio não pôde mata-lo assim, tão facilmente. Quando a poeira abaixou um pouco, ele mostrava sinais de ter sido gravemente atingido, mas nenhuma debilitação grave foi constatada. Ele apenas gritou que eu não deveria achar que minhas estratégias seriam tão válidas, que jamais um buraco poderia prendê-lo de forma tão eficaz e que, se ele realmente foi atingido por todos os meus ataques estando dentro daquele suposto buraquinho (diante de suas palavras) é porque não se manifestou contrário a isso, pois, se ele tentasse esquivar-se, jamais seria atingido. Mas ser atingido parecia ser parte de seus planos, para mostrar sua resistência.

Ele começou a declaração de que seu poder era muito maior do que um simples buraco no chão enquanto atirava fogo ao seu redor, mudando um pouco a constituição da areia ali, como se fosse transformar o deserto em vidro, algo do tipo. Ali, eu soube que algo ruim aconteceria. Ele voou até mim, me segurou pelos ombros e começou a me guiar até o buraco. Com minhas costas, ele tentaria me enfiar ainda mais fundo naquela terra fofa do deserto. Ocorre que, para cavar, normalmente as costas não constituem o melhor método, e a areia já não mais é tão fofinha. Após ser empurrado contra o buraco por alguns metros, eu percebi que seria mais inteligente de minha parte utilizar minha energia para abrir o espaço para o qual eu percorreria, de modo a não mais me machucar tanto. Assim também como pensei que, como estávamos muito próximos, caso eu fizesse um grande campo de energia ao meu redor, ele também seria atingido. As duas hipóteses estavam corretas. Fário permaneceu me empurrando, mas agora a energia abria o espaço antes de meu contato com a terra. Primeiro passo alcançado. Com isso, Fário me empurrou até onde resistiu diante de minha energia, cerca de cinquenta metros abaixo do solo. Poderiam ser quantos fossem, aquilo seria eterno. Parando de me empurrar, ele começou a voltar para a superfície. Ele havia cavado um túnel utilizando minhas costas, e eu já não estava mais tão favorecido fisicamente, assim digamos. Com isso, ele rapidamente chegou ao chão, comigo lá, buscando forças para fazer o mesmo. Ocorre que o ser, com grande perspicácia, resolveu por lançar uma quantidade exorbitante de fogo lá de cima. Eu estava em um túnel, sem escapatória. A vida é muito agradável.