85. Folhas no outono

26/06/2012

Bem legal ser morto, experimento isso todos os dias. Ao menos tenho experimentado todos os dias a sensação de ter minha alma esmagada pelas circunstâncias da vida. Era algo mais ou menos assim que eu sentia naquele momento. Aquele rosto que parecia mais uma máscara, sem expressão, finalmente alterava-se para uma expressão que transbordava ódio. Era divertido como lamber uma faca.

Pois bem, era dado o momento de uma luta corpo-a-corpo. Minha concepção de luta era bastante distorcida naquela época, uma vez que eu quase nunca socava ninguém. Eu tinha um raio que matava os inimigos, não havia motivo para socar alguém e correr o risco de me machucar. Isto é, eu sempre buscava tratar minhas lutas à distância. Agora eu me deparava com lutas que exigiam mais de mim. Não que eu tivesse algo mais a dar, ou que eu soubesse ter algo a mais.

Após refletir sobre isso, prossigo então com o relato da luta. Mantive o bom hábito de, logo após qualquer ataque, sempre permanecer armazenando mais energia. Isso não trazia qualquer consequência ao meu corpo, era apenas uma forma bonita de me manter preparado para o restante da luta. Comigo bem acima, mais ou menos à altitude da montanha, ele deu um salto e achegou-se a mim, buscando me atacar. É impressionante o fato de parecer que o tempo de deslocamento dele até mim foi igual a zero. Sério, pareceu não ter havido movimento. Ao pisar o chão dando seu impulso, ele já estava ali, ao meu lado. Coisa linda de se ver, caso isso seja possível. Mais impressionante é que eu pude acompanhar todo o seu movimento, ainda tendo tempo de desviar-me dele. Eu não sabia desse meu potencial todo.

Ele estava posicionado praticamente abaixo de mim, sua subida foi toda vertical. Eu comecei a subir junto a ele por uma brevíssima rota, mas já realizei meu movimento de esquiva. Com bastante sensatez, fiz uma movimentação que fazia parecer que eu esperaria a exata hora em que ele chegaria à minha posição e, assim, eu sairia dela e já retornaria dando um chute. Entretanto, na hora em que eu deveria direcionar-me a ele com o chute, avancei só um pouco, retornando ao primeiro ponto para onde teria me esquivado. Com isso, ele errou o violento soco que planejara, e eu pude lhe lançar um poderoso raio de energia. Senti que isto o machucou, mas eu teria que progredir.

Se ele me acertasse, aquela luta estaria perdida na hora. Primeiro pela violência gerada por seu ódio; também pela violência gerada pelo meu ódio; e, por fim, pela simples superioridade dele. Não sei porque, mas acabo de perceber que tenho contado as histórias aqui, mas tenho feito o protagonista parecer esperto. A intenção nunca foi fazer com que eu parecesse esperto. Eu apenas fiz as leituras corretas nos momentos de batalha, mas não venham pensar que sou esperto. Sou apenas o Fabinho, o rapaz que viaja para um mundo que existe dentro dele.

Prosseguindo com a luta, eu comecei a realmente me sobressair. Não que o medo não me tivesse tomado absolutamente, mas eu tive as respostas certas a cada ataque dele. Eu permanecia desviando e atirando raios, hora ou outra eu conseguia inverter os papéis e atacá-lo, para que ele sentisse a necessidade de atacar mais, ficando mais afobado. Deve haver o questionamento sobre qual o mundo idealizado em que eu conseguiria atacar, mas era simples, eu já havia alcançado a velocidade ideal para isso, apenas sabia driblar meu adversário e usar meu poder da forma correta. Ou seja, eu aprendia pouco a pouco a lutar contra esse meu oponente.

Em dado momento, eu pude produzir uma bola de energia sobre ele, como fiz com os outros elementos, como a água. Com isso, eu pude segurar seu corpo e, enquanto o fazia sofrer a dor do que fizera colocando-o em minha energia, consegui conduzir seu corpo, atirando-o longe. Fiz isso cerca de duas vezes, estava indo bem. Até que ele quase me acertou, passando seu braço muito próximo de meu ombro direito e minhas costas. Era muito quente, e eu não estava absorvendo sua energia. Aquele calor, ainda que não me tivesse tocado, foi o suficiente para me queimar. Assim, eu vi que precisava de uma atitude rápida. O segurei novamente com minha energia, com meus braços a sua perna esquerda também. Mirei a montanha e tentei arremessá-lo lá.

O fato de meus ataques estarem dando certo não alteravam meu quadro emocional. Minha tentativa de derrotá-lo era fruto de meu incrível amedrontamento diante da possibilidade de morrer. Buscava ganhar pelo medo de perder. O medo e mais a tristeza profunda pela morte de meus melhores amigos em toda existência fazia com que eu lutasse contra ele como se houvesse um buraco gigantesco em minha barriga, que me proporcionava uma falta de ar absurda. Absurda uma vez que o conceito de respiração no meu mundo possui muitas restrições. Até olhei para minha barriga, para ter a certeza de que não fora atacado naquele momento. Qual não foi minha surpresa ao notar que eu estava errado. Era fruto daquele momento. A sensação de que os gafanhotos chegarão ao cair da última folha do outono para destruir toda a colheita. Aquela batalha era a última folha do outono, ela não poderia cair.

Eu segurei sua perna, numa tentativa de trazer um detalhe mais heroico à minha luta. Ele já estava bem seguro, eu armazenava a energia e o cobria também com ela. Fiz sobre ele o escudo mais denso que poderia ser feito, de modo a não deixá-lo escapar. Girei o meu corpo com toda força para, finalmente, lançá-lo àquela montanha, em busca de um ataque final. Deixei tudo preparado, pensei em tudo. De nada serviu.

Eu realizar o movimento, foi até, de certa forma, cômico o modo como eu, tentando arremessá-lo, simplesmente não tive forças para tal ataque. Não que não as tivesse, estava ainda em pleno vigor, mas meus braços escorregaram, ele foi sábio o suficiente para entender a lógica de meus movimentos e, assim, concentrar toda sua força para não ser arremessado. Muito sagaz da parte daquele maldito. Foi como se eu estivesse tentando mover a própria montanha, totalmente ineficaz.

Entretanto, com o giro que meu corpo acabou por fazer após tentar jogar o desgraçado longe, eu logo concentrei mais um bom tanto de energia para lhe lançar. Movimentei minha mão como se esta fosse uma faca. Concentrei toda a energia numa espessura bastante pequena, um raio muito fino, muito fino mesmo, mas com muita energia, muita mesmo. Atingi exatamente sua cabeça. Foi o suficiente para cortá-la. Ele começou a se desmanchar por completo. Enfim aquilo teria acabado. Fiz o suficiente para poder me jogar no mar, após isso.

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