86. Tudos

19/07/2012

Era como se minha vida estivesse acabado, isso fisicamente falando. Eu apenas tive a capacidade de, estando no ar, me direcionar até um lugar acima do mar para que lá eu pudesse cair. Apenas parei de flutuar e me deixei cair. Mergulhei tranqüilamente e fiquei ali, boiando, como um corpo morto. Era tudo isso que eu conseguia ser. Aquilo que mais me motivava para respirar já teria partido. Eu não entendia, nem pretendo entender ainda o porque desse mundo me proporcionar a possibilidade de alcançar o nível mais absurdamente elevado de tristeza. Há de se imaginar sobre o quanto eu posso ser dramático, mas isso não existe. Nada do que eu tinha valia a pena de estar sem eles. Eles eram tudo, e continuam sendo, mesmo sem serem mais nada além de lembranças. São tudos que eu perdi que não podem ser reconstruídos. No máximo aprendi a ter outros tudos.

É impressionante o quanto meus tudos estão indo embora. Estou perdendo uma sequência incrível de coisas que se identificam pela possibilidade de me fazer falta. O que eu mais amei nessa vida ou não existe mais, ou está muito longe de mim ou está tão perto que eu consigo fazer me odiar. Eu tenho essa habilidade. A única coisa que sobra para me trazer alegria é o bacon e a música, não vou deixar de reconhecê-los. Mas não é assim. A vida conduz-nos a alguns pontos que nos tiram a visão das outras coisas. Eu simplesmente não consigo mais enxergar as razões que eu deveria ter para me alegrar. Enxergá-las eu até consigo, difícil mesmo é fazer com que elas retornem a ser um sentido.

Mergulhei minha cara no mar, a fim de confundir minhas lágrimas com aquelas águas. Me sinto infinitamente entristecido por não ter um mar aqui comigo agora. Eu estava com sono, muito sono, mas não tinha forças para voltar e dormir. Não queria mais me encontrar com mais ninguém, tudo aquilo que importava teria indo embora. É claro que, com essas declarações, posso parecer um imbecil que despreza a família. Não é assim. Mas aqueles meus amigos que eu perdera eram os únicos capazes de compreender aquilo que eu sentia, até porque eles eram os únicos que acreditavam na sua existência. Ninguém mais sabia desse mundo ou acreditaria nesse mundo. Naturalmente. Sofrer por uma coisa que não pode ser contada a ninguém na face da terra é algo absolutamente insuportável.

Levantei-me e fui andar. Andar no deserto. Andar pela floresta. Andar, não havia forças para isso. Mas era um movimento que acontecia naturalmente. Buscava uma forma de conseguir respirar, já que todo meu ar parecia fugir de mim. Eu continuava conferindo se minha barriga ainda estava junto ao meu corpo, pois parecia que eu havia perdido-a.

Pior é ver que mais de seis anos se passaram e as coisas parecem continuar como estavam antes. Os tempos se alteraram, as razões também, houve momentos em que deixaram de existir essas sensações. Mas retorno àquele mesmo ponto, onde preciso conferir se ainda tenho barriga, pois só encontro um vazio, um frio que não se pode compreender. Vou atrás de uma barriga e já volto.