100. A ideia

30/08/2012

Bom, certo dia, como vos falei, sentei ao computador e comecei a conversar com uma linda garotinha. Comecei a lhe falar sobre um mundo paralelo para o qual eu costumava ir. Contava como é o mundo, o que eu fazia nele, sobre os amigos que eu tinha nele. Gostei de contar. Resolvi que tinha histórias que caberiam em um livro. Um livro autobiográfico. Contei algumas das histórias mais importantes que eu tinha. Apenas contava histórias, mas percebi que isso não era suficiente. Esse mundo em que vivo é totalmente determinante em minha personalidade. Sou assim, em grande parte, por causa de meu mundo. Passei a contar as coisas sem pensar, afim de que o livro se tornasse uma forma de expressão pessoal.

Comecei contando algumas coisas sobre o mundo, como ele era, com tudo começou. Aproveitei-me desse período para tentar apontar elementos que talvez provassem a existência desse meu mundo. Após isso, narrei um dos episódios mais importantes da
Fabilândia, que foi a grande guerra, como hoje eu venho a chama-la. Ali perdi meus grandes amigos. Após isso, pulei para a parte onde eu perderia meus novos amigos, que já não são novos, estavam comigo havia um bom tempo. Não tenho a intenção de apenas escrever uma história com um final triste, não quero ficar dramatizando minha pobre vida de infortúnios. Apenas narrei alguns dos fatos que me foram mais marcantes. Não é um final triste. Dói a ausência de meus amigos, claro, mas permaneço vivendo, fazendo em nosso mundo o que mais gosto, que é o bem para as pessoas. Talvez a minha falta de bem de outrora seja o que provocou o mal de meus amigos, que tornou-se também  meu pior mal. Mas prossigo, persisto ainda vivo diante de tudo.

Muitos podem não ter conseguido sintetizar que comecei a contar a história quando ainda estava estudando para ingressar em uma faculdade e, hoje, termino já sendo um professor para outros que têm esse interesse, mesmo sem eu ter terminado minha graduação. O tempo se passou, e eu, escrevendo, fui tomando novas reflexões, fui, através dessa retrospectiva, mudando a forma de olhar minha vida.

Creio que ainda possam pensar que não obtive muito sucesso na vida e que essas perdas que tive foram muito pesarosas. De fato foram. Entretanto, vejo que as pessoas não sabem lidar direito com pesos. Percebo que a maioria das pessoas vê a vida como uma longa estrada, um longo percurso. Caso elas tropecem, caem num chão duro e tem que fazer um grande esforço para se reerguerem. Se há um buraco no caminho, precisam arriscar o pulo, com grandes chances de falha. Ainda, se perdem alguma coisa no caminho, não têm como voltar atrás para buscar. Se não conseguem chegar ao final da estrada, têm uma enorme frustração.

Não vejo a vida assim. Vejo a vida como uma grande piscina. A vida não tem uma rota específica a se traçar. A piscina está cheia de coisas boas, só é necessário que se nade até alcançar cada uma delas. Alguns nados são pesarosos, complicados. Algumas coisas estão muito no fundo, precisa-se de muito ar para chegar até elas. Mas estas trarão recompensas. Se você não alcança uma das coisas que almeja, logo olha para o lado e vê que ainda há várias coisas a serem alcançadas. O peso da frustração não é tão grande assim. Frustrações vêm muitas vezes carregadas de orgulho. Ninguém precisa disso. Não se pode restringir a vida a uma única possibilidade. Há um terreno muito grande em nossas casas, mas muitas vezes deixamos de construir aqueles castelos lindos e gigantes com medo de destruirmos o casebre que construímos bem no centro. A vida não é isso.

Esse não é um livro sobre escapismo. É um livro sobre o Fabinho. O Fabinho é isso. Sou carregado de um caminhão de coisas ruins, mas acredito que algumas coisas boas em mim possam valer a alguém. Pode valer a milhares de pessoas, a centenas, dezenas, mas, ainda que seja apenas uma pessoa, já valeu a pena. Continuo vivendo. Talvez mais do que qualquer outro no mundo, uma vez que vivo em dois mundos diferentes. Tenho em mim a comprovação de que ideias podem valer mais do que muitos pensam. Assim, estou certo de que há muitos outros mundos como o meu, apenas esperando para serem descobertos.

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