96. Prioridade

21/08/2012

O carnaval se passou, foram momentos mais do que alegres, conheci pessoas que até hoje guardo com muito carinho em meu coração. Todos os eventos de lá alcançaram os lugares mais profundos de meu coração gritando: “Alegre-se!”. Minha nova realidade trazia todas as circunstâncias necessárias para que eu me encontrasse feliz novamente.

Quinta-feira. Cheguei à minha humilde residência após boas aulas na faculdade. Era tudo muito novo, eu vinha me agradando com tudo o que me era exposto, meu senso crítico não estava tão aflorado. Sou muito apegado ao futebol. Sempre gostei de jogar e de assistir. Meu time do coração estava jogando naquela noite, com transmissão ao vivo na televisão fechada. Por estudar ao período noturno, sempre acabo tendo a possibilidade de assistir aos jogos apenas à segunda metade. Era um jogo tenso. Tudo me fazia querer assistir aquilo até o final. Eu estava bem concentrado, bem preso àquilo. Eu estava sozinho na sala assistindo.

Ouço me chamarem. Era Tito. Uma voz doce e rasgada com um tom um tanto quanto aflito. Eu estava acostumado com isso. Era natural que, quando algo lá ocorresse, ele me chamasse. Entretanto, hora ou outra, eu era chamado por certas bobagens. Isso ocorrera durante o acampamento: eu estava junto a todos, desfrutando de várias atividades infantilmente divertidas, brincadeiras de salão, entre outras coisas. No meio de todo mundo. Eles me chamaram, eu saí correndo ao banheiro, simular qualquer coisa para que não me vissem enquanto estivesse em meu mundo, pois já comentei que é como se eu estivesse em coma, meu corpo desliga-se totalmente; isso poderia preocupar o pessoal do acampamento, não queria isso. Escondido, fui ver o que era e notei que não se tratava de nada interessante, apenas alguma reação estranha nas águas. Isso me irritou um pouco, mas eu os entendo, tranquilamente os repreendi e tudo ficou bem. Mas, em decorrência disso, acabei por não atender o chamado de meu amigo.

Ele me chamou novamente, me parecia aos prantos. Preocupei-me, desesperei-me, tão logo resolvi olhar para o mundo e ver o que ocorria. Nada encontrei. Achei estranho. Olhei melhor e vi Nubi e Huor tranquilos a passear pela praia. Eu não entrei no mundo, apenas vi o que estava ocorrendo através daquele sistema que desenvolvemos.

Voltei a assistir ao jogo. Meu time ganhou. Lembro-me de ter desligado a televisão, desligado a luz e, no momento em que estava indo até meu quarto, no corredor, Tito gritou mais uma vez. Gritando mesmo, me repreendendo. Gritou “Fabinho” das primeiras vezes, mas chegou a “Fábio” na terceira. Corri para o quarto, deitei-me ainda com algumas coisas à cama que arremessei rapidamente ao chão e, finalmente, entrei em meu mundo. Para minha surpresa, não achei mais meus amigos andando ao redor da praia. Olhei para as ilhotas. Fui em direção a elas, procurando-os em cada uma. Cheguei à última.

Ocorreu algo interessante quando namorei a garota da internet, algo que nunca antes vi ocorrer: nasceu uma ilhota em meu mundo. Não sei que tipo de sentido isso pode fazer, mas nasceu. Lá havia uma grande construção, bonita, com teto circular, linda arquitetura: era um teatro, um grande teatro.

Andando, entrei no teatro. Lentamente. Eu estava muito tenso, meus amigos não apareciam. Sei que faço tudo parecer muito rápido, mas não se enganem. A agonia que eu sentia era tamanha que, caso eu pudesse materializá-la, ficaria ainda maior do que Tito, que era gigante. Cheguei à sala principal. Havia alguém ali no palco, numa região escura. Um foco de luz acendeu-se ao centro. Nubi, com um violão, começava a tocar uma canção. Uma linda canção, cuja melodia me lembro até hoje, mas que repetia apenas uma frase: “no mundo, não se esconde nada”. Até hoje – e isso jamais acabará – não consigo entender o que significa isso. Não consigo entender, simplesmente. Creio que não haja um sentido. Foi só qualquer coisa que ele tinha a cantar naquele mundo, a única coisa que lhe veio à mente. Quem sabe esta não era sua melodia preferida, algo que teria feito para outra situação. Ele cantava e eu o chamava. Ele engolia seu choro e não me podia responder. Não havia ninguém na plateia. Com isso, eu flutuei até ele, não muito rapidamente, mas com certa velocidade. Quando cheguei próximo a ele, ele voou verticalmente, quebrando o teto do teatro para sair. Ele estava me olhando com toda a dor que seu coração poderia sentir.


94. Nervosinho

19/08/2012

Voltamos ao chão e começamos a discutir enfurecidamente. Ele teria se ferido, pouco, mas estava ferido. Eu não conseguia conceber que ele tinha percebido, nem aceitar que eu tinha pensado nisso, até porque foi muito rápido, não foi um pensamento que tenha gerado grandes reflexões. Foi uma fração de segundo. Mas ele viu isso nos meus olhos. Mas eu não ia me matar, certamente não iria, já estava preparado para acabar com o monstro sem problemas. Eu jamais esperava que meu amigo fosse fazer isso.

E discutíamos sobre meu ódio, razão da existência desses monstros, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre o que eu pretendia que o mundo virasse, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre a minha irresponsabilidade, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre minha ingratidão, sobre a idiotice dele ao fazer isso. Eu não tinha muito que falar, estava totalmente irado, totalmente, como estive poucas vezes em minha vida. Antes que eu lançasse sobre ele um raio destruindo-o, eu fugi dali, rapidamente. Fiquei tentando fazer qualquer coisa, tentando encarar a ideia de que eu realmente pensei em suicídio. Eu nunca tinha visto isso tão de perto. Mantive em profundo desespero e me deitei, a fim de dormir.

Após a terceira revirada à cama, que ocorreu muito rapidamente, voltei para lá e, apontando para a cara daquele meu amigo idiota lindo, com cara de sério, revoltado, cheguei perto dele e lhe dei um apertado abraço. Comecei a chorar infinitamente por me ter dado conta de que eu ainda não havia recobrado minha motivação de vida. Ou, pelo menos, faltava um bom tanto dela. A cena foi até, de certo modo, provida de graça, uma vez que eu realmente fingi estar ainda muito irado quando queria, na verdade, reconciliação. Nubi fez até o favor de gritar, tentando me impedir. Despedi-me e fui deitar.

No dia seguinte, após algumas coisas não terem dado muito certo, voltei àquela mesma raiva. Não era mais com Tito, era com a vida. Eu me sentia muito irado. Ficava ali, ao computador, tentando me animar. Não dava tão certo assim. Gente sabe ser muito idiota na internet, isso me irrita. Até que, em certo momento da noite, ouvi me chamarem na Fabilândia. Era um exército bem bonitinho que por ali passava. Eles estavam com alguma dificuldade. Eu cheguei. Todo exército se moveu em minha direção, ignorando completamente os coitados dos meus amigos. Estes, por sua vez, pararam para ver o que eu pretendia fazer. A ira era imensa.

Eram todos como soldados, soldados humanos. Claro que não eram humanos, mas eram algo como isso, tinham lanças e escudos. Eu simplesmente desci até o chão, desconsiderando qualquer dupla conotação que haja nisso, e os comecei a bater neles. Eu apenas batia neles. Meus golpes físicos já são valorosos o suficiente para matar. Eu não ativei minha invulnerabilidade. Não tentava eu morrer, apenas estava tão nervoso que pretendia mata-los como se eu fosse o grande lutador. Utilizei meu ataque de energia apenas algumas vezes, mas ali, finalmente, consegui fazer a luta esteticamente perfeita, como sempre sonhara. Eu apenas batia em todos eles, como nos filmes. Desviava das lanças sem precisar voar ou coisa do tipo. Apenas usava minha velocidade para me esquivar e acertar golpes fortes. Eram cerca de sessenta soldados ao mesmo tempo, matei todos eles socando-os e chutando-os. Foi uma realização épica demais para se narrar em apenas um parágrafo, mas creio que nenhuma palavra enalteceria tamanha beleza de combate.

Com isso, direcionei-me aos meus amigos, na finalidade de despedir-me, dizendo que não estava muito bem. Eles me impediram, dizendo que precisavam apresentar alguém. Huor era seu nome. Apontaram-me como o mais novo integrante do nosso esquadrão da justiça. Ele me parecia um bom rapaz, mas era meio chato. Não engoli direito essa ideia. Meus amigos, em meu mundo, não são chatos. Aliás, eu acabara de derrotar um exército. Exércitos têm comandantes, por que ele não poderia ser o tal comandante? Eles não me convenceram direito só falando. Eu fui discreto, perguntando aos outros sobre sua origem, mas, não satisfeito, o peguei pelo pescoço, deitei-o ao chão e perguntei se ele não me traria problemas. Ele, aterrorizado, respondeu que não. Confirmando que isso era bom, o soltei. Mas ele era meio babaca, insistindo em diálogos que não seriam edificantes.

Ele era bom sim. Acho que era. Tinha um tronco em formato quase circular, era bem magro e orelhas pontudas. Cabelos ruivos, era bem estranho, como qualquer outro. Tinha mais ou menos a minha altura naquele mundo, um pouco mais alto. Era um bom rapaz, era amável, quase humilde e atencioso. Seu grande problema mesmo era levar as discussões para um lado onde ele sempre parecesse o mais inteligente. Ou tentar levar, pois ele era um tanto quanto desprovido de conhecimentos. Entendo que ele só buscava uma ascensão no nosso modo de vê-lo. Nos tornamos bons amigos. Entretanto, o laço que tínhamos não era tão forte quanto o que eu guardava com meus outros amigos. Ele era como um rapaz legal que tenta entrosar-se com uma roda de amigos muito forte. Como todos eram legais, ele foi bem recebido, mas não era bem como aquele achegado de longa data, até porque ele não era um achegado de longa data.


47. A espada

14/07/2011

Nesse momento, em que vi meus amigos iniciando um combate sério sem nem notarem que estavam sendo controlados. Eu estava absolutamente aterrorizado, perdi totalmente as esperanças. Como haveria eu de lutar contra alguém que poderia controlar os meus pensamentos? Nada do que eu fizesse seria útil, uma vez que ele poderia, de repente, mudar meus movimentos do nada e fazer com que eu me matasse sozinho. Era algo terrível. Silu olhou para cima. Estava lá o ser medonho responsável por aqueles ataques. Eu estava apavorado, cogitando matar-me apenas pelo medo do que poderia acontecer – algo também previsto pelo nosso inimigo. Silu não. Silu olhou, fez aquela típica expressão de quem reconhece a qualidade de alguma coisa com um olhar e um beiço muito irônicos. Mencionou algo como: “não é que tem alguém controlando a gente?”. Não fora bem assim, mas era uma calma irritante. Adoro esse cara. Ele ergueu voo, questionou o que o monstro fizera e tentou ataca-lo. Alguns golpes errados de cada lado, logo Silu caía ao chão com grande violência. Com toda calma do mundo ergueu-se e disse para que acabássemos com ele. Decidimos então permanecer atacando-o mais próximos ao chão, para que Jumi tivesse maiores chances de acertar seus ataques.

Fomos então, diante da situação, com a maior cautela possível, focando nossos pensamentos no nosso objetivo maior, que era proteger aquele mundo e, acima de tudo, mantermo-nos vivos. Não era fácil, ele parecia não estar sendo ferido com nossos ataques. Foi quando consegui me aproximar e lutamos, corpo a corpo, e eu bloqueava os ataques dele com os meus, usando muita energia e muita vontade de acabar logo com ele. Silu, nesse momento, materializou uma espada e foi na direção dele lutar, buscando uma possibilidade diferente, uma vez que a energia não o ultrapassava. Era algo do tipo, ele não tinha vulnerabilidade; na verdade a tinha, mas praticamente nula. Investia eu em voadoras incrivelmente fortes, carregadas de energia concentrada em minhas pernas, Jumi utilizava seus ataques mais fortes e nada era suficiente. E ainda não podíamos nos deixar levar pela tristeza e frustração, pois esses eram pensamentos que certamente vinham dele, e não deveríamos deixar isso nos abater e fortalecê-lo ainda mais.

Até que ele começou a me atacar, de alguma forma eu havia sido o escolhido por ele. Ele vinha com seus socos e seus raios, e eu não tinha por onde me defender; era como se tudo estivesse voltando ao que teria sido logo antes, e eu talvez não tivesse mais a mesma oportunidade de me recuperar. Quando vi, no mover de seus cabelos – que nem eram tão compridos – que havia algo de estranho nele. Ele não estava usando de toda sua velocidade, estava sendo até gentil. Não era isso. Na verdade, ele estava protegido por algo, algo como um campo de força, não entendi bem o que era. Só sei que não suportava mais a situação. Em um movimento totalmente inesperado por ele, com minhas mãos cobri o rosto dele, segurei com muita força e tentei remover aquilo, usando também minha energia, fazendo um ataque visivelmente horroroso, amedrontador. Senti-me um grande lutador naquele momento. E eu tentava quebrar essa camada sobre ele que não me deixava atacá-lo. E nesse momento a minha fúria não parecia incentivada sobre ele. Eu sei que eu consegui segurar algo que estava além de seu rosto, algo que eu não podia ver, mas eu segurava e tentava arrancar, como uma fantasia. De alguma forma, consegui quebrar aquilo. Ele parecia estar sem muita reação, surpreso quanto ao que eu tentava fazer. Não esperava isso de mim. Pois bem, eu rompi com aquilo que havia com ele, mas não pareceu fazer tanta diferença. Uma grande ideia surgiu sobre a mente de Silu que me lançou sua espada, estando ele a uma altura mais elevada do que a minha. Enquanto caía a espada, Éfilo me lançou um forte ataque no peito, uma grande explosão que poderia me destruir desta vez. Eu o segurava pelo pescoço quando fui atingido. Reagi lentamente, involuntariamente diminuindo aos pouco a força que exercia sobre seu pescoço e o largando, iniciando uma queda que não teria rumo. Eu o olhava nos olhos, lhe dando a sensação de que desta vez eu teria perdido. Ele me olhava, querendo esboçar aquele seu orgulho, mas ainda apavorado com a situação, que o surpreendeu e também poderia tê-lo destruído. Logo que acabei de soltá-lo e estava prestes a cair, a espada também caía ao meu lado, bem a tempo de segurá-la. Assim, sobre ela concentrei enorme energia e a forcei contra o peito dele. Permaneci exercendo pressão por um segundo, até que consegui perfurá-lo, antes que ele tivesse reação, novamente. Conseguindo perfurar totalmente seu corpo, eu expandi aquela energia até que ela o tomasse por completo. Eu mirava sua face, o pavor agora estava sobre ele, e seu fim era chegado. Com um olhar de ódio ele soltou sobre mim o seu último ataque de energia antes de ser destruído finalmente. Inconsciente, eu fui caindo até que, pelo que parece, Silu me segurou e impediu minha queda. Ao chão, fui levado para que me recuperasse novamente.


46. Temor insano

13/07/2011

Não havia tempo de me segurar um único segundo, ao soar o sino eu, mais do que depressa, até quase como um reflexo, eu apertei o botão que, de dentro, abriria a porta da cabine. Mal pude esperar que ela por completo se abrisse e já me via fora dela. Assim eu logo cheguei ao local de combate, pronto para a luta e totalmente revigorado. Era fantástico, eu não mais sentia dor, foi o que de mais maravilhoso já me aconteceu, uma recuperação tão milagrosa em tão pouco tempo. Eu saí dali me sentindo o rei do mundo, capaz de vencer qualquer batalha.

Chegando lá, a visão que tive do campo de batalha era Silu caído ao chão, agonizando e Jumi realizando um ataque muito forte, após utilizar-se da montanha para ganhar mais altura, mas, logicamente, o terrível inimigo conseguiu esquivar-se com facilidade. Então eu achei que o poderia surpreender e tão logo derrotá-lo. Mas, tão logo cheguei próximo a ele, recebi um daqueles fortes ataques em minha perna. Senti-me totalmente queimado, não tivera machucado meus ossos, minha musculatura, só sentia uma horrível dor ali, mas permanecia totalmente apto a permanecer lutando ao máximo de meu vigor. Assim, notei que meu leve orgulho não era suficiente para que eu pudesse vencê-lo. Ele ainda era mais forte do que eu. Isso começou a me enfurecer e eu, me achando o grande sábio, percebi que não deveria atacá-lo sem meu escudo de energia, comecei a soltar sobre ele toda minha ira e meu poder. Foi aí que notei que nada do que eu fazia estava provocando algum dano nele. Pelo contrário, quanto mais se expandia minha ira, maior sua resistência aos meus ataques, ainda que eles estivessem sendo cada vez mais fortes. Mas eu prosseguia, indo levemente em sua direção e atacando imensas e poderosíssimas bolas de energia sobre ele, cada uma mais forte que a outra. Foi então que, sem que eu notasse, ele moveu-se para trás de mim e me socou com tremenda força. Eu não perdi minha estabilidade ao vôo, apenas senti aquilo com grande dor.

Foi então que presenciei um comportamento curiosíssimo de minha mente. Enquanto eu me via claramente buscando um pensamento de paz, era como se houvesse algo, como uma mancha, mas que se manifestava tentando calar meu pensamento bom; parecia que estava tentando sufocar esse pensamento, enquanto me dizia para que eu não perdesse o “foco” e me mantivesse atacando com ira, ódio e superioridade. E era uma sensação muito material para que eu a considerasse apenas um momento de reflexão. Eu sei que é algo muito comum e imbecil ficar falando sobre pensamentos positivos, sobre não pensar nessas coisas, mas isso não é uma lição de moral, é apenas uma reação empírica das coisas que ocorrem naquele mundo, então não me venham questionar tanto sobre isso. Não planejei nada disso, apenas ocorre.

Nesse momento, antes que eu me perdesse em minhas reflexões enquanto Éfilo permanecia na batalha, voei rapidamente para longe dele. Assim, prosseguimos numa batalha como aquela que foi antes de me recuperar, quando estava apenas passando o tempo. Mas, dessa vez, era algo muito mais intenso; eu tinha toda minha vitalidade para prosseguir lutando, e não era mais apenas uma perseguição, eu estava usando aquilo para conseguir atacá-lo nos devidos momentos. E nos mantínhamos naquele combate, voando muito rapidamente de um lado para o outro no deserto, que era muito extenso. Até que, de repente, notei que, além de minha luta interna, ao chão, Silu e Jumi começavam a discutir, um tanto quanto calorosamente, sem que houvesse muita coisa que eu pudesse fazer para acabar com aquilo naquele momento. Então, em meio à perseguição, olhei para a face de Éfilo. Ele sorria como se soubesse de tudo o que estava acontecendo. Foi nesse momento que notei que talvez fosse ele o responsável por tudo aquilo. Seria, então, ele, além de responsável pelas piores dores que já sentira até então, também capaz de controlar nossos pensamentos e, assim, fortalecer-se ainda mais? Sua expressão me confessava tudo. Era realmente aquilo. Não poderia ser outra coisa. Foi aí que fui completamente tomado pelo terror, sabendo que algo poderia acontecer, muito pior do que qualquer outra coisa. Nesse momento, numa leve distração de minha parte, ele me atacou novamente, fazendo com que eu tivesse que me esquivar levemente, quebrando aquela seqüência de luta. Então, ele posicionou-se sobre os dois e começou a movimentar seu braço. Então, os dois começaram a agredirem-se. Eu, que já havia sido totalmente tomado pelo medo, comecei a chorar, sabendo que aquele poderia ser meu e nosso fim.


45. A reflexão da recuperação

12/07/2011

Era diferente, minha mente começou a se embaralhar, e eu sentia como se estivesse sendo transportado para outro lugar, assim como ocorria quando eu ia do mundo normal para aquele. Como eu vinha pensando, era algo como o mundo das ideias dentro do meu mundo das ideias. Um “meta-mundo”. Mas, naquele momento, era só uma reflexão muito profunda. Enquanto meu corpo vinha se recuperando, eu estava mergulhando em minha imaginação. Assim eu ia flutuando, naqueles cenários loucos, onde tudo passa na sua frente com naturalidade, como se fosse normal, e logo escapa de seus olhos. Algo dessa natureza.

Assim, minha primeira visão foi de Éfilo, gigantesco em minha frente. Minhas tentativas de movimento eram inúteis, era como se eu não tivesse controle sobre meu deslocamento. E de fato não tinha, eram apenas imagens em minha mente, em qualquer dimensão de divisão de meu mundo. Ele apenas ria de mim, e me fazia acreditar que jamais venceria aquela luta. E era assim que eu voltava a pensar em cada batalha, desde a primeira, desde aquela vez em que descobri que poderia voar, ou que poderia soltar um poder fortíssimo só me concentrando e transformando a energia que chegava a mim em um raio poderoso. E era assim que eu lembrava cada soco que eu já havia levado, cada menor sinal de dor após ser atacado, ou após atacar inconseqüentemente. E esses pensamentos não me traziam força, era ao contrário, eu percebia que finalmente havia encontrado alguém que podia me machucar de verdade e não sentia tanto meus ataques. Era algo complicadíssimo, eu não sabia o que fazer.

Então, passei a lamentar-me por tudo aquilo. Já estando certo da grande possibilidade de finalmente perder um combate por completo, eu começava a detestar meu mundo, odiar tê-lo criado, ainda que não tendo consciência de que o estava fazendo. Por algum motivo, consegui retornar minha memória àquela época em que criei o mundo. Ainda não me veio à mente a exata situação que me levou à enorme angústia que originou o tal escapismo. Mas já conseguia odiar não ter sido corajoso o suficiente para me manter naquele mundo. Ainda assim, lembrei-me de coisas boas. Lembrei-me das épicas partidas de futebol que eu jogava, tendo como bola uma latinha amassada ou uma caixinha de leite com chocolate pronto. Era fantástico. Também poderia utilizar-se de uma laranja, caso não houvesse um desses outros. Mas sempre havia. Eu conseguia me alegrar com tudo. E é exatamente esse tipo de coisa que me impressiona muito, pois não faz sentido eu me frustrar tanto, mas tanto assim para criar outro mundo. Não há como um rapaz como eu criar algo mágico através de minhas angústias, sou apenas um jovem tranqüilo que se preocupa mais com os outros do que consigo mesmo. E assim, creio que esse mundo já fora concedido a mim pelo destino, a natureza quis que essa magia estivesse presente em mim para que o mundo fosse melhor, ou para que eu fosse melhor, ou para alguma outra cousa, apenas sei que é algo que está sobre mim e nada me tira dele.

E foi aí que passei a mentalizar um mundo diferente, onde eu não estaria para um triste fim, mas onde eu venceria as coisas más que formulo mudando meus pensamentos, convertendo minhas ideias más em boas. E era assim que pretendia vencer a luta. Mas foi aí que me lembrei, por um momento, de que, enquanto estava prestes a lutar com Jumi, minhas ideias não estavam sendo condizentes com o que eu realmente sentia. Alguma coisa estava me manipulando, trazendo coisas ruins à minha mente e assim fazendo com que Éfilo fosse fortalecido. Eu precisava acabar com isso. Mas no momento em que minhas ideias começariam a fluir em sua totalidade, buscando uma resolução para o caso, eu notei que o suave sininho tocou e eu deveria deixar de pensar como qualquer tolo e partir para a violência, como fazem os verdadeiros homens. Era hora de acabar com isso, de uma forma ou de outra. Devo confessar que eu estava muito inseguro. O que é muito estranho, pois não sou nada, absolutamente nem um pouco inseguro. Só que ao contrário.


44. A espera numa cabine

06/07/2011

Vendo eles em um momento de triunfo no combate, logo atravessei a divisão das regiões e me dirigi ao destino de minha recuperação. Ao momento que não mais os pude ver, além de uma imensa preocupação por estar os deixando sozinhos nessa difícil batalha, eu pude finalmente desfrutar de meus momentos de agonia, diante de tamanha dor. Por algum motivo, talvez por ter me agradado de tal situação, eu continuava voando deitado sobre o ar, de costas para o chão. Assim, quando finalmente cheguei à máquina, eu estava quase sem conseguir me movimentar. Não pude nem sequer andar para nela entrar, eu apenas prossegui flutuando dentro dela, levemente apoiado sobre minha perna esquerda.

Agora eu me encontrava dentro de uma máquina, uma pequena cabine, um ambiente fechado e escuro. Uma pequena entrada de luz se encontrava um pouco acima de minha cabeça, mas não dava para ver nada por ela. Ou seja, eu seria muito feliz em poder contar o que ocorreu na batalha enquanto eu estava lá. Mas eu permaneço único. Não é uma manipulação com a história, não é uma tentativa de realizar qualquer tipo de desvio, mas eu, de fato, não sei o que aconteceu na batalha. Eu sei que Jumi quase perdeu um braço, e que ele temia mais ainda Éfilo após ter lhe dado um ataque final, que tem seu nome devido ao fato de, normalmente, ser um ataque final, mas acabou não sendo suficiente. Eu sei pequenas coisas que eles me disseram, muitíssimo vagas, e eu odeio contar coisas sem detalhar como elas foram, então contentem-se em saber no que me mantive pensando no momento em que estava lá na cabine.

Foi meu momento mais profundo de reflexão em meio a uma batalha. De fato, nunca tive uma breve pausa para reflexões. A história pode possuir suas pausas, mas os fatos ocorriam sempre numa velocidade incrível. E então eu me encontrava ali, absolutamente inútil, com uma incrível dor, inédita na minha vida. Era a situação de maior agonia pela qual já havia passado, sofrendo muito fisicamente, mentalmente, era um sentimento terrível. Quando pensava em me preocupar com meus amigos, lembrava que eu estava muito ferido, mas não conseguia pensar em minha dor, pois eu corria o risco de perder meus amigos. Esse era um pavor tremendo que eu tinha. De repente eu me via chorando ao imaginar a mínima possibilidade de eles serem destruídos. Eles eram meus maiores amigos, meus maiores companheiros de todos os dias, aqueles que me encontravam todos os dias para defender um mundo que eu criei, aqueles que representavam o que de mais valioso havia para mim.

Eu começava a me restituir, a dor física começava a passar, eu estava quase conseguindo me apoiar nas duas pernas. Mas agora iniciava-se um período diferente em minhas reflexões. Algo me levava a uma espécie de alucinação.


43. O escudo

04/07/2011

Estávamos nós, três lutadores, dois deles inteiros e prontos para a batalha. O golpe que levara nas costas não fez com que Silu se ferisse relevantemente, foi só um golpe comum mesmo, daqueles que as pessoas (mutantes, no mínimo) se recuperam rapidamente. Ainda não aceitei minha própria explicação sobre o fato de eu estar com uma série de ossos devidamente quebrados e permanecer lutando, ainda não sei se me fiz claro sobre isso, não sei se o que disse foi necessário para que se entendesse que eu não tinha condições de lutar, só de ficar voando loucamente e ficar soltando raiozinhos por aí, ainda que isso me trouxesse uma imensa dor. Começava a pensar no lixo que estava sendo minha vida naquele momento, o porquê de eu estar me sujeitando a tal coisa, vários pensamentos me enraiveciam. Era o momento de eu acabar logo com aquele que tanto me vinha trazendo problemas. Mas eu ainda não estava confiante, não sabia ainda o que fazer para vencê-lo.

Chegando ao deserto, olhamos com muita pressa para trás para podermos encontrá-lo e nos defendermos de um possível ataque que viria. Estávamos assustados e preocupados, aquilo deveria representar o final para nós, para algum de nós ou para ele, então deveríamos ter o máximo de cuidado, nos manter atentos a tudo. Então, quando percebemos, ele não estava vindo logo atrás de nós. Ele não estava dirigindo-se ao deserto, como pensei que faria. Eu mesmo tinha certeza de que ele não abandonaria a luta, já estava profundamente irritado comigo. E foi essa a certeza que me fez lançar um ataque para trás sem nem mesmo olhar, sabendo que ele estaria lá. Logicamente não o atingi, mas fiz com que ele parasse de vir em nossa direção, sabendo que já o havíamos notado. Não pensei duas vezes, me dirigi até ele em grande velocidade para saber para qual lado ele desviaria, para poder atacá-lo de costas.

A diferença de velocidade entre nós não era algo assim estupidamente gigantesca, ele era no máximo cerca de duas vezes mais veloz do que eu, isso, logicamente, era tão rápido que os ventos não poderiam alcançá-lo, era muito rápido, mas não era tão distante do que eu poderia chegar e dependendo da concentração dele eu conseguiria até alcançá-lo, como fora antes feito. Na verdade, minha velocidade é maior, por definição. Ela é infinita. Ocorre que eu não consigo alcançar seu máximo, e, naquele momento da luta, ainda estava bem abaixo do que sou hoje. Mas ele não se esquivou como eu imaginei, e eu só acabei percebendo isso quando estava quase chegando a ele. Assim, quando estava a poucos metros dele, ele se manteve ali e começou a lançar alguns ataques dele. Minha reação na hora foi aumentar bastante o meu escudo e tentar absorver os três golpes, e desviando levemente ainda era possível que eles não me atingissem, mas o terceiro eu não consegui parar, apenas diminuir um pouco a força, e ele me acertou na região abdominal, comigo absorvendo o máximo, mas não tendo muito êxito. Fui gravemente ferido, mas deveria continuar. Minha mente mantinha-se totalmente focada na ideia de me concentrar, lutar apesar da dor, mas era quase impossível. Por alguma força maior eu tive sucesso em permanecer quase ali, uma vez que ele, em seu orgulho, manteve-se parado, nem sequer olhando para mim. Eu, esboçando a queda aos poucos, e envolvido por um escudo de energia em formato de uma circunferência do que acho que deveriam ser cerca de doze metros, lancei num poderosíssimo raio todo aquele escudo. Ele, naquele momento, foi consideravelmente ferido, e eu vendo que ele estava por cair, concentrei toda aquela energia da luz e calor que recebia do ambiente; eu precisava formar aquele escudo novamente com muita velocidade. Meu projeto era manter Éfilo ali dentro. De fato eu consegui, fazendo um escudo agora bem maior que o manteve ali por mais alguns segundos, mas foi suficiente para machucá-lo bastante. Até que ele enfureceu-se além do aceitável, e agora me atacava com um poder diferente, era algo semelhante a um raio, um laser, era fino, era potente. Ainda que dentro do escudo – que, convenhamos não é necessariamente um escudo, pois era perfeitamente penetrável – lançou o tal raio, eu quase consegui desviar, mas ele atingiu-me um pouco abaixo do ombro direito, me perfurando um pouco abaixo da clavícula.

Eu, nesse momento, tive a garantia de que não poderia lutar. Passaria o tempo necessário naquela cabine que me restituiria totalmente. Mas precisava dar um auxílio para meus amigos. Com uma sabedoria que excedeu o normal, fui caindo, de costas para o chão, formando aquela mesma curva exponencial que já havia feito antes, e ele me seguindo, não tão rápido. Acelerei um pouco, para que chegasse rapidamente próximo aos meus caros colegas que me esperavam. O nosso inimigo, como sempre, estava concentrado em sua ira, o que ocasionou novamente sua distração, suficiente para que, quando eu havia acabado de passar próximo a Jumi, ele permaneceu me seguindo, sem o perceber lá. Jumi então o atacou lateralmente, derrubando-o ao chão. Silu não perdeu tempo, e assim os dois permaneceram atacando-o enquanto eu saía de lá e me dirigia à recuperação. Por mais que eles parecessem estar em vantagem, eu ainda estava com muito medo de que algo de ruim se lhes ocorresse.