100. A ideia

30/08/2012

Bom, certo dia, como vos falei, sentei ao computador e comecei a conversar com uma linda garotinha. Comecei a lhe falar sobre um mundo paralelo para o qual eu costumava ir. Contava como é o mundo, o que eu fazia nele, sobre os amigos que eu tinha nele. Gostei de contar. Resolvi que tinha histórias que caberiam em um livro. Um livro autobiográfico. Contei algumas das histórias mais importantes que eu tinha. Apenas contava histórias, mas percebi que isso não era suficiente. Esse mundo em que vivo é totalmente determinante em minha personalidade. Sou assim, em grande parte, por causa de meu mundo. Passei a contar as coisas sem pensar, afim de que o livro se tornasse uma forma de expressão pessoal.

Comecei contando algumas coisas sobre o mundo, como ele era, com tudo começou. Aproveitei-me desse período para tentar apontar elementos que talvez provassem a existência desse meu mundo. Após isso, narrei um dos episódios mais importantes da
Fabilândia, que foi a grande guerra, como hoje eu venho a chama-la. Ali perdi meus grandes amigos. Após isso, pulei para a parte onde eu perderia meus novos amigos, que já não são novos, estavam comigo havia um bom tempo. Não tenho a intenção de apenas escrever uma história com um final triste, não quero ficar dramatizando minha pobre vida de infortúnios. Apenas narrei alguns dos fatos que me foram mais marcantes. Não é um final triste. Dói a ausência de meus amigos, claro, mas permaneço vivendo, fazendo em nosso mundo o que mais gosto, que é o bem para as pessoas. Talvez a minha falta de bem de outrora seja o que provocou o mal de meus amigos, que tornou-se também  meu pior mal. Mas prossigo, persisto ainda vivo diante de tudo.

Muitos podem não ter conseguido sintetizar que comecei a contar a história quando ainda estava estudando para ingressar em uma faculdade e, hoje, termino já sendo um professor para outros que têm esse interesse, mesmo sem eu ter terminado minha graduação. O tempo se passou, e eu, escrevendo, fui tomando novas reflexões, fui, através dessa retrospectiva, mudando a forma de olhar minha vida.

Creio que ainda possam pensar que não obtive muito sucesso na vida e que essas perdas que tive foram muito pesarosas. De fato foram. Entretanto, vejo que as pessoas não sabem lidar direito com pesos. Percebo que a maioria das pessoas vê a vida como uma longa estrada, um longo percurso. Caso elas tropecem, caem num chão duro e tem que fazer um grande esforço para se reerguerem. Se há um buraco no caminho, precisam arriscar o pulo, com grandes chances de falha. Ainda, se perdem alguma coisa no caminho, não têm como voltar atrás para buscar. Se não conseguem chegar ao final da estrada, têm uma enorme frustração.

Não vejo a vida assim. Vejo a vida como uma grande piscina. A vida não tem uma rota específica a se traçar. A piscina está cheia de coisas boas, só é necessário que se nade até alcançar cada uma delas. Alguns nados são pesarosos, complicados. Algumas coisas estão muito no fundo, precisa-se de muito ar para chegar até elas. Mas estas trarão recompensas. Se você não alcança uma das coisas que almeja, logo olha para o lado e vê que ainda há várias coisas a serem alcançadas. O peso da frustração não é tão grande assim. Frustrações vêm muitas vezes carregadas de orgulho. Ninguém precisa disso. Não se pode restringir a vida a uma única possibilidade. Há um terreno muito grande em nossas casas, mas muitas vezes deixamos de construir aqueles castelos lindos e gigantes com medo de destruirmos o casebre que construímos bem no centro. A vida não é isso.

Esse não é um livro sobre escapismo. É um livro sobre o Fabinho. O Fabinho é isso. Sou carregado de um caminhão de coisas ruins, mas acredito que algumas coisas boas em mim possam valer a alguém. Pode valer a milhares de pessoas, a centenas, dezenas, mas, ainda que seja apenas uma pessoa, já valeu a pena. Continuo vivendo. Talvez mais do que qualquer outro no mundo, uma vez que vivo em dois mundos diferentes. Tenho em mim a comprovação de que ideias podem valer mais do que muitos pensam. Assim, estou certo de que há muitos outros mundos como o meu, apenas esperando para serem descobertos.


99. Prosseguimento

29/08/2012

A vida, o tempo não para. É o que dizem por aí. Prossegui. Meu amor buscou novas artes, novo engenho, novas esquivanças, e ainda novas esperanças. Não que eu me esqueça das coisas tristes que aconteceram. Elas só não estão mais acontecendo.

Reformei o Teatro Tito. Escrevi até uma peça a ser interpretada. Semanalmente há uma grande apresentação por lá. Sigo calmo, tranquilo. Divirto-me. Tenho trabalhado em meu mundo como um governante, um bom governante. As pessoas que existem lá não duram mais que um dia. Aparecem, me ajudam e somem. Queria fazer com que minha mente se tornasse mais grata. Faço melhorias por lá, trabalho cada canto que percebo que poderia ter algo mais interessante. A cidade, outrora vazia, ainda que tecnológica, hoje é bem densa, cheia de prédios, lugares para se fazer alguma coisa. Aumentou o número de pessoas que encontro. Todas me conhecem, não conheço ninguém. Não são meus amigos, mas os valorizo bastante. São gente importante para mim. Queria vê-los mais para lhes retribuir o favor, fazer de suas vidas algo melhor. Mas desfruto do bem que me fazem, creio que seja isso o que querem.

Prossigo com os estudos. Como já disse, percebi que adoro a linguagem. Eu sempre tive problemas no ensino médio quando refletia sobre o fato de não gostar de matéria nenhuma, até que percebi essa vocação. Ainda mais quando comecei a escrever o livro, onde eu aprendi que tudo aquilo que se aprende sobre sua língua pode (ou deve) ser esquecido. Aprendi muito sobre novas formas de ver a vida na faculdade.

Meu cabelo já está quase do tamanho que estava quando comecei a escrever o livro, tendo em vista que, alguns meses depois do início, ele foi totalmente raspado. Quando comecei a escrever, ainda tinha meus amigos Tito e Nubi. Percebo que talvez haja uma confusão quanto a isso. Narro o livro conforme a vida acontece, é assim que decidi que haveria de funcionar. Espero ter me feito claro. Tanto que, há muito tempo, citei sobre o aparecimento de uma nova ilha, que só fez sentido agora. Citei também que algo me entristecia, era justamente o término daquele namoro. Eu sei que um bom autor não costuma revelar seus segredos, seus planos, mas não sinto a necessidade de ser um bom autor. Queria eu contar histórias e o fiz. Interessa-me mais que ela seja compreendida e levada a sério do que me fazer passar por um daqueles grandes intelectuais que se dedicam anos planejando cada palavra de seu livro para, no final, deixar tudo confuso, sem solução aparente. Por mais que eu adore os autores que o fazem, busco grande inspiração neles. Mas não sou em tudo como eles. Escrevi muitas coisas fora de meu planejamento, em nada lamento por isso. Busco me tornar compreendido, tudo foi relevante para isso. Por isso prossigo. Prossigo mostrando no que o mundo me fez pensar, o que ele me fez aprender. É isso o que mais importa para mim.

Aprendi que coisas boas trazem bons frutos. Sementes podres não frutificam. Trabalhei durante pouco mais de seis meses num lugar que eu detestei. Ainda assim, mantive-me no mais alto rendimento que poderia alcançar, sendo eu recompensado várias vezes. Tenho uma amiga, conheci-a recentemente. Ela possui quantidades incrivelmente maiores de açúcar em sua alma. Seu maior medo é magoar as outras pessoas. Também tenho esse medo. Meus amigos Jumi e Silu lançaram-se à minha frente por diversas vezes, em busca de minha proteção. Aprendi que isso é o amor. A sociedade carece disso. Busco amar com muitas das minhas forças todos os que me aparecem, sem distinções. Isso realmente me faz ter muito medo de magoar as pessoas. Qualquer pessoa que seja, tenho medo de magoar. As maiores dores que já senti nessa vida são provenientes de meus atos idiotas que magoam ou machucam ou até matam as pessoas, como vos contei. Ela também é assim. Ela deixa de envolver-se com as pessoas com medo de magoá-las. Acho válido o medo. Não acho válido deixar de viver por causa dele. Ele te dá mais segurança, te faz calcular melhor seus passos. Tenho tentado ensiná-la a não ter medo de envolver-se, pois mágoas de atitudes corretas não são eternas. São como a dor da injeção: pode até causar certo desconforto físico na hora, mas é algo que fará bem. Agindo corretamente, fazendo o bem sempre, isto é, fazendo sempre o que é certo, ainda que se magoe alguém, isso será uma dor que passará. Mesmo que se aja de maneira inadequada, por se estar tentando pautar a vida em fazer o que é certo, essa dor passa. Eu aprendi que dores passam diante de coisas certas.

Segui fazendo meu trabalho da melhor forma possível, fui recompensável de maneira ainda melhor. Consegui trabalhar na área que gosto, consegui o ambiente de trabalho mais lindo e gratificante que poderia existir. Exatamente do jeito que eu passei a sonhar. Passei a ser uma referência intelectual, eu que fora antes acusado de desprovido de inteligência. Passei a dar conselhos, bons conselhos, e ser respeitado em meus conselhos. Tornei-me sábio diante do julgamento das pessoas. Alcancei minha realização profissional, algo que me tem valido muito mais do que qualquer dinheiro. Além disso, sou reconhecido em meu trabalho como alguém bastante confiável, de caráter limpo e exemplar. Não me julgo bom o suficiente, nem melhor do que os outros, mas entendo que sou alguém que, um dia, percebeu que era importante fazer o que é certo. Minha concepção de certo é minha concepção de certo, ninguém precisa concordar comigo. Pra mim, certo é fazer o bem para as outras pessoas, incondicionalmente. Não sou ainda assim, mas tenho isso como meu alvo, o que já traz bons frutos. Tornei-me professor de português, entendendo que não é natural do ser humano acordar cedo para ficar, durante horas, sentado em uma cadeira dura ouvindo alguém falar sobre algo que não lhe é interessante. Tento propor momentos agradáveis e compartilhar com meus alunos algo que ninguém há de tirar deles, que é o conhecimento. Faço deles meus amigos e trato eles do mesmo jeito que a qualquer outra pessoa. Olho para minha vida, olho para meu rumo. Agrado-me do que creio que virá.


98. Perdi

27/08/2012

Aquilo que mais me fazia sentido, mais me dava força. Aqueles que mais me traziam sentido, esperança. Aquilo que me renovava, que me trazia de volta às ideias, aqueles que nasceram de minhas ideias. Eles eram aquele tudo que não se pode restituir. Aquele riso a fim do dia que não pode faltar. Eram parte de mim, uma parte insubstituível. Eu aprendo a viver utilizando outras partes de mim, sempre o fiz. Muito se diz sobre o fato de o cérebro ter plasticidade, adaptar-se a utilizar outras regiões para desempenhar a mesma função. Sou assim com essas perdas. Elas doem, mas são dores superáveis. Consigo superar muitas coisas nessa vida.

Contudo, tenho visto muita dificuldade em superar a falta que me fazem aqueles sorrisos que eu tinha todas as noites. Era muita relevância de meu tudo saber que, chegando a noite, eu me deitaria e viajaria a um lugar onde ainda é dia, sempre é de dia, e lá encontrarei amigos que não buscam sono, buscam a mim. Eu ainda faço essas viagens. Defendo meu mundo de todo mal que por lá aparece. Tenho algumas crises de saúde quando tardo a perceber que estou sendo atacado, mas tudo volta ao normal depois disso. Mas esse normal está muito abaixo do que eu queria. O que eu mais queria era ter respondido à voz de Tito. Tito. Aquele rapaz enorme que conseguia ter um coração ainda maior do que ele mesmo. Eu brincava que o coração dele precisava de uma ilhota inteira para abrigar-se. Ou talvez seu coração já fosse uma das ilhotas. Quem saberia se não é?

Era lindo saber que eu mandei formar minha região azul como um palco para shows onde, futuramente, eu estaria junto ao meu amigo de todos os dias ali, tocando. Eu e Nubi, os maiores guitarristas de toda Fabilândia. Por lá nunca passou alguém que tirasse um som tão bonito de uma guitarra Fender quanto ele. O melhor timbre que poderia existir, o timbre inimaginável. Ninguém vai se esquecer daquele solo lindo que ele fez durante a “Balada da noite que não cai”, nossa canção mais emocionante. Ele também cantava, sua voz era tão linda. Fizemos os duetos que o mundo pagaria o mais caro preciso para ouvir. Pobre do mundo, que não conhece a Fabilândia. Estou certo de que, se pudessem viajar até lá comigo, se todos tivessem essa oportunidade, toda vez que se conhecesse alguém novo, se perguntaria: “Já assistiu aos shows da Fabilândia?”. O mundo seria menos provido de tristeza se pudesse assistir aos incríveis shows da Fabilândia.

Tito gostava do teatro. Representar era ser. Ele criava peças, pedia para que participássemos. Pouco utilizamos aquele teatro, eles não tiveram muito tempo para que desfrutassem dele. Até quando levavam um roteiro até Tito, era como se aquela fosse sua vida. Soubera eu antes, já teria mandar erguer um teatro qualquer por lá. E o mundo diria: “Há um ator na Fabilândia, um ator como nunca antes se viu”. Era uma naturalidade incrível. Eu deveria ter percebido antes, vendo o jeito como ele contava suas piadas, como procedia com seus gracejos. Eu não deveria tê-lo deixado partir.

Huor era bom. Pouco tempo vivi com ele. Ele se perdia em seus próprios discursos, pude rir bastante com ele. Fazia muito sentido ele estar ali, estou certo de que ele entraria na estante de melhores amigos, tendo vivido mais. Ou, se ele aparecesse um pouco depois, não teria morrido com os outros, estaríamos juntos. Não posso descrever o que tenha sido melhor, foi tudo a pior coisa acumulada, um amontoado de fezes recaindo sobre mim.

Quantos momentos inesquecíveis; me esqueço do que como ao jantar, mas me recordo perfeitamente de tantos momentos incríveis que tivemos. Como aquela vez em que Nubi quis aprimorar seu poder de fogo. Quis mostrar que era valoroso. Claro que era, ninguém duvidava. Mas ele quis mostrar, foi matar um monstro nas areias. Usou seu fogo, com toda sua força. Quase transformou o deserto em vidro. Tito tinha, além de suas incríveis habilidades, aquele poder que, apenas ao estender sua destra sobre nós, como se tivesse pó em suas mãos e arremessasse em nós, de baixo para cima, nos fazia cair em um delírio. Não havia nada em suas mãos, mas éramos envolvidos em um círculo onde tínhamos uma sensação de prazer infinita. Isso durava alguns segundos. Era o que havia de melhor, ele fazia isso com a gente quando estávamos alegres. Era quase como saudação e despedida, algo totalmente pertinente.

Quem dirá que nosso amor era falso? Quem dirá de meu delírio? Aquilo era o que de mais real o amor nos pode mostrar. Aquilo era o máximo resultado que se atinge estando sóbrio. Tive quatro grandes amigos naquele mundo, os quatro maiores pedaços de mim que deixei cair pelo caminho. Ainda ando. Manco, mas ando. Colho do fruto da idiotice. Creio que a pior forma de ser idiota é não dar tudo de si por alguém que ama. E a pior dor que existe é quando se percebe que deixou isso ocorrer.


97. Inconsequência

23/08/2012

Logicamente, querendo eu saber o que ocorria, eu fui atrás dele pelo buraco aberto no teto. Ao sair de lá, olhando ao meu redor, eu via meus três amigos enrolados por algo que me pareciam tentáculos que vinham de um vilão. Kerst era seu nome. Foi apenas o que pode dizer. Seus tentáculos saiam de lugares aleatórios de seu corpo, algo que parece minha técnica. Meus amigos se viam totalmente presos por aquilo.

Vi os olhos de decepção de Tito. Ele não acreditava que eu teria feito isso. Não conseguia conceber que eu os tivera colocado em segundo plano, não os atendendo no momento chamado. Eu também não acreditava, naturalmente. Eu que, naquele ponto da minha vida, já me julgava como alguém responsável. Não concebia. Eu via meus amigos totalmente presos diante de mim, sem qualquer possibilidade de escapar. Nubi parecia mais triste por saber que partiria e me deixaria só do que pelo fato de partir. Não se importava tanto consigo mesmo, e sim comigo. Aquele amor lindo que eu tinha pelos meus amigos antigos. Eles não voltaram, mas isso não me impediu de amar esses novos. Huor ainda não tinha esse contato tão imenso comigo, mas era um bom rapaz. Mas Tito e Nubi eram tudo o que havia de mais lindo no meu imaginário. Nossa amizade era linda, eu sempre os amarei com muitas de minhas forças. É difícil que alguém desse mundo conquiste um pedaço tão imenso de meu coração quanto conquistaram esses meus amigos da Fabilândia. Incrivelmente difícil.

Meu oponente agora tinha reféns, de uma forma muito sólida. Eu estava travado, incapacidade de fazer qualquer coisa. Os olhos de Tito, além de expressar o desapontamento, também diziam claramente sua preferência: eu era mais importante para o mundo do que ele. Tecnicamente, ele está certo. Mas o mundo sem eles torna preferível a inexistência, absolutamente. Que alegria eu teria naquele mundo sem eles? Inimaginável.

Foi tudo muito rápido. Ao encontra-los, acima do teatro, já pude olhar para cada um e retirar as mensagens de seus olhos. Eles pareciam ter a garantia da morte, algo terrível. Eu, olhei para o monstro e, paralisado, buscava o que fazer para trata-lo sem que seus reféns se ferissem. Creio que essa cena inteira, esse capítulo por completo, refere-se a algo que ocorreu em cerca de vinte e cinco segundos. Não tive tempo de reparar que, ao sair do teatro, o céu estava avermelhado, grande densidade de névoa por volta de tudo. Eu não tive tempo de nada.

Após eu ter olhado rapidamente cada um, algo que se repetiu acho que duas vezes, aquele monstro gritou qualquer grunhido e também “Eu sou Kerst!”. Foi o que ele fez. Ele tinha reféns, provavelmente conseguiria negociar comigo, fazer qualquer coisa. Ele conseguiria me vencer. Mas não foi essa a sua escolha. Ao término de seu grito, seus tentáculos se envolveram de alguma energia e começaram a esmagar meus amigos. Foi muito rápido. Eu via seus corpos se contorcerem, seus ossos quebrando-se, sangue, suas faces sendo espremidas. Creio que só Nubi tenha tido tempo de gritar de dor, talvez pela posição dos tentáculos. Ao menos foram os únicos gritos que ouvi. Muita coisa ruim me aconteceu na vida. Coisas terríveis e traumatizantes. Convivo bem com todas elas. Nenhuma cena me foi tão horrível na história como essa, como ver claramente, fisicamente, meus três amigos serem mortos em minha frente, da forma mais cruel, violenta e dolorosa que eu poderia pensar, se é que minha mente tem o poder de criar algo assim tão desesperador. Seus corpos, como lá ocorre, começaram a se esfarelar, desfragmentar, misturando-se, assim, à névoa. Tudo isso sem que eu nada pudesse fazer, eles já estavam mortos.

Tive apenas o tempo de alongar uma pequena parte de meu braço, colocando-a em outra dimensão e tornando-a invisível. Com isso, sem que ele visse, usei para prendê-lo algo que também poderia ser como um tentáculo desses que ele utilizou. Eu amontoei isso tudo em volta dele e pensei em mata-lo da mesma forma. Mas eu senti a necessidade de ser mais violento. Ele já estava preso, totalmente vulnerável. Eu acertei seu rosto com meu joelho, primeiramente, e o carreguei até o topo da montanha. Lá, subi mais ainda, uma mão em seu corpo e outra na parte de trás de sua cabeça, ainda o prendendo com uma parte esticada de meu corpo. É isso que eu faço, eu me estico, expando meu corpo da forma que eu quiser, podendo transitar em qualquer dimensão. Não me contentei. Comecei a descer com alta velocidade e chocar sua cabeça contra o topo da montanha. Eu estava utilizando minha dimensão que torna-me invulnerável e, por mais que eu já tenha mencionado isso, retorno às minhas aulas de física: toda ação provoca uma reação de mesmo sentido e intensidade, mas direção oposta. Creio que só decorei isso por causa de minha técnica na Fabilândia. Bem, com essa dimensão, eu torno-me impenetrável, e faço com que qualquer ação que meu corpo realize contra outro qualquer não receba uma reação, mas faça com que a minha ação tenha a intensidade dobrada. Pois bem, poderia eu poupá-los disso e apenas dizer que empurrei sua cabeça contra o topo da montanha estando a uma velocidade inimaginável, fazendo sua cabeça explodir violentamente como se não houvesse amanhã.

Não sei até hoje se devo me arrepender de não o ter torturado ou se me agrado de tê-lo matado de uma forma absurdamente violenta. Era tudo o que eu queria fazer com Fário, mas que, naquela época, eu ainda não tinha a força suficiente para fazê-lo. Na verdade, não devo refletir sobre o castigo que dei ao assassino, mas sobre minha irresponsabilidade. Poderei, a partir de agora, ser conhecido como “Fabinho – o idiota que fez seus melhores amigos morrerem”. Meu buraco não é mais somente na barriga, mas também em tudo, creio que principalmente no cérebro.


95. Tudo se encaixando

20/08/2012

Alguns dias após isso, as coisas estavam mudando. Iniciei minha saga na faculdade, era tudo novo. Era a primeira semana. As músicas que eu ouvia eram legais, as músicas que eu tocava eram legais, eu estava empolgado com um novo acampamento que viria em ocasião do carnaval. Enfim, era um bom momento. Daquela minha primeira semana de aula eu não pude aproveitar tanto, uma vez que o carnaval estava se aproximando. Por não ser da primeira lista de chamada, eu comecei a assistir as aulas a partir da segunda semana, numa terça. Era um mundo muito novo, muito novo mesmo.

Foi ali, naquele meio, que eu comecei a entender o valor da linguagem. Curso a licenciatura em Letras, curso que tem a finalidade de formar professores de português. Durante boa parte de minha vida eu tive péssimas professoras de português, que me faziam acreditar que eu não possuía identificação nenhuma com a matéria. Meu curso escolhido não tinha nada a ver com isso, tinha a ver com mídia, criação. Era isso o que eu queria. Entretanto, em algum fundo de minha alma, eu percebi que, durante as aulas que me eram ministradas, eu sentia a necessidade de executá-las de outros jeito, em qualquer matéria que fosse. No cursinho eu tive professores de português incríveis, que me fizeram realmente achar a matéria um pouco mais interessante. Logo percebi que tinha facilidade para com a redação (espero que ela faça algum sentido após tantas páginas) e com algumas propriedades gramaticais. Interessava-me muito pela literatura, até por ter um professor que fazia com que eu ficasse a semana inteira esperando por sua aula. Meu pai, numa bela noite de alguma lua, me fez colocar como segunda opção o curso de letras, pensando em alguma possibilidade de tradução ou coisa do tipo. Detesto tradução e sou péssimo com línguas estrangeiras, mas fiz bem em ouvi-lo.

Sem perceber, eu me via apaixonado pela linguagem, totalmente inserido em meu curso e determinado a lecionar. Essas ideias me vieram depois, a afeição pelo curso também, mas acho interessante coloca-las aqui. Na verdade, o grande fato aconteceu no dia que corresponde à minha segunda aula. Mas eu queria deixar constar que, após grande depressão em minha vida, eu finalmente estava vendo as coisas de um jeito bom, assim como vejo hoje, no momento em que escrevo. Meus sonhos têm se realizado, sou um contente professor de português em um cursinho que me enche de alegria. Naquele momento eu estava feliz, a ira já se fora e tudo se encaixava, até mesmo as coisas que eu não sabia que se encaixariam. Eu jamais imaginei que um dia eu estivesse na posição de professor de português, me imaginava em profissões totalmente diferentes, mas, na primeira vez que entrei em uma sala de aula, fiquei pensando: “Qual foi o motivo que me fez pensar em fazer outra coisa? Fabinho é isso!”.

Tudo se encaixava. Exceto por uma coisa. Uma coisa terrível. Nunca soube o que levou essa coisa terrível aos meus pensamentos. Nem sei bem como ela vinha, mas alguma coisa me alertava de que nem tudo estaria na mais perfeita paz. Não era nada, apenas uma sensação estranha. Eu procurei em tudo pra tentar identificar o que poderia ser. Mas nada fazia sentido.


42. Reforço sobre as águas

26/06/2011

Eu precisava de uma forma de conseguir fugir dele sem que eu me mantivesse utilizando esses trancos, mudando minha direção com tanta rapidez, pois isso estava me trazendo uma dor insuportável. Apesar de eu não saber necessariamente o que realmente me trazia maior dor, por estar sofrendo a dor da mudança de direção durante meu percurso em linha reta. Mudanças rápidas verticalmente não causavam tanta dor, mas eu não tinha como seguir apenas nisso. Mas eu tinha como fazer curvas mais leves para a vertical para poder voltar a andar na horizontal. Ou também me manter voando com o eixo invertido, afinal, eu estava voando com o controle da mente, não havia gravidade que alterasse meu desempenho no ar. Mas não teria sido esta minha escolha. Eu resolvi me movimentar na maioria das vezes em círculos, alterando levemente a rota, de forma que lhe fosse surpreendente e que eu me mantivesse constante, sem precisar “frear bruscamente”.

Assim, estava eu agora sobre as águas, ocasionando que, caso eu caísse, meu impacto não seria necessariamente tão violento, podendo eu ainda alterar um pouco a posição para que caísse verticalmente, sem me machucar muito. E mantivemo-nos lutando, eu fugindo, desviando, ele atrás de mim, irado, buscando também me surpreender. Tive que fazer uma mudança brusca dessas quando eu o perdi de vista por uma fração de segundo, e então o vi em minha frente, e realizei um movimento de drible bem avançado, ameaçando fugir em várias direções. Era como se meus ossos estivessem pontiagudos, me espetando em todo corpo quando eu me movimentava de tal forma. E ia eu, à medida do possível, o deixando chegar próximo a mim, um pouco atrás, para poder deixar em seu caminho alguns de meus raios, que ele, em enorme velocidade não podia desviar, por tal ataque inesperado. Algo semelhante àqueles jogos de corrida, jogos que muitos tiveram a alegria de desfrutar em sua infância, sob o domínio àquelas coisas que não entendo.

Até que, em um momento observei um brilho vindo da cidade. Era Silu, que havia se recuperado. Nesse momento, buscou logo Jumi e o entregou à máquina, e logo viria me encontrar. Eu, com sabedoria, virei e realizei um ataque mais forte, para poder olhá-lo de frente e mantê-lo de costas à Silu. Paramos, frente a frente, enquanto Silu se aproximava. Ele utilizou o velho truque do piano, meu favorito, sem que o oponente visse, mas não deu muito certo; pouco antes de ser atingido, conseguiu esquivar-se. Então seguimos, nós dois, atacando de dois lados, para que ele precisasse sempre estar alerta. Buscávamos sempre mantê-lo ao nosso meio. Até que começamos a rodeá-lo e atirar, fazendo com que ele não pudesse se locomover por grande espaço. Então, passei em grande velocidade em círculo rente ao mar e percebi que isso erguia as águas consideravelmente. Achei aquilo interessante, então pedi para que Silu rodeasse Éfilo, levando-o para perto do local que eu estava, onde comecei a provocar uma elevação de águas, um rodamoinho para cima, uma movimentação muito interessante, a fins de cobrir sua visão com as águas. Ele foi envolvendo-se naquilo, não que o fizesse algum dano ou que as águas, atingindo-o, fosse um problema. E ele poderia passar dali tranquilamente, mas resolveu manter-se ali, no meio daquele furacão de água. Nesse momento, Silu ergueu-se ao topo daquilo e lançou um de seus mais poderosos raios, que ganhou concentração em função das águas.

Foi então que percebemos que deveríamos ter medo. Meus poderosos ataques, que já deveriam ter matado qualquer outro inimigo, ao nível que já se tinha passado, não foram suficientes, e agora nem mesmo esse ataque de Silu tinha lhe causado tanto dano. Nossos ataques eram em vão, não sabíamos o que poderíamos fazer para que ele fosse derrotado. Eu já começara a me mover um pouco mais, com dor, mas não era capaz de me lançar sobre ele sem medo. Eu estava com muita dor, mas vendo a situação, não podia me dar ao luxo de ir recuperar-me enquanto meus amigos lutavam contra esse terrível inimigo. Nesse momento, Jumi apresentou-se curado, à beira da região branca. Teríamos que nos dirigir até lá, para que Jumi também pudesse lutar. Eu sabia que não era uma boa ideia permanecer lutando, mas não, não poderia fingir que iria ficar tudo bem com eles. Se algo lhes ocorresse eu não sei o que eu conseguiria fazer. Mas, no momento em que nos atentamos para Jumi, Silu foi surpreendido por Éfilo, que veio em grande velocidade e parou atrás dele, com as mãos estendidas, prestes a realizar seu ataque, quando Silu o notou e conseguiu esquivar-se como um ninja para a direita, mas ainda assim foi levemente atingido de raspão em seu ombro esquerdo. Logo em seguida levou uma joelhada nas costas e voou com muita violência às águas. Antes que Éfilo voltasse ao mundo fora de seu ataque, eu o atingi com um forte ataque, dado à distância, que chegou a feri-lo, quase o derrubei às águas também, mas enquanto isso eu consegui recuperar meu amigo e voar em grande velocidade em direção ao deserto, onde prosseguimos aguardando-o para dar continuidade à luta.


41. Saco de batatas

25/06/2011

Saco vazio não pára em pé, mas não há objeções desse tipo à sua flutuação. Então, eu precisava, sem utilizar meu corpo, lutar contra um inimigo que era muito mais veloz e forte do que eu. Claro, essa imagem deve estar bastante nítida em vosso imaginário. Pois bem, eu mal conseguia mover meu corpo; minhas pernas, ao leve movimento, doíam muito. No máximo a perna direita eu tinha certa mobilidade significativa. Mas era uma dor generalizada no corpo, que nunca antes me fora sentida. E, para que minha esperança desse seus penúltimos suspiros, eu o havia atacado com muita força, tinha lançado sobre ele grande energia, não foi dos meus maiores ataques, mas foi um ataque considerável, e ele não parecia ter sido ferido.

Tendo descrito precisamente a situação na qual me encontrava no exato momento em que comecei meu voo, estou pronto para narrar o que então ocorreu. Eu pretendia fugir dele, fazer com que ele me perseguisse, para assim ganhar tempo para meus amigos, e, ainda, tentar feri-lo um pouco. Eu sabia que ele era bem mais veloz do que eu, pelo menos em uma situação normal, então eu não podia prosseguir em linha reta, mas dar algumas pequenas voltas e quebras no percurso para que ele não pudesse prever aonde eu chegaria para se precipitar. Eu o havia provocado, enfurecido, e, assim, não me preocupei tanto com sua desistência em me perseguir para, então, atacar meus amigos. E eu devia permanecer lutando até meus dois amigos estarem bem, não adiantaria deixar um de meus amigos sozinho lutando nessa situação (no caso Silu, o que se restauraria primeiro).

Foi então o confronto de um mestre da luta contra um pobre saco de batatas vazio. E eu não era mais inteligente, certamente. Coberto em meu escudo, lancei um forte ataque e saí correndo em direção da montanha. Ele, claro, esquivou-se e partiu em minha direção. Logicamente, antes que chegasse até ela, e antes que ele chegasse até mim, desviei minha rota verticalmente ao alto, numa leve distância, e antes que ele pudesse prever, tracei o mesmo destino na direção contrária. Mas eu não completei isso; mais ou menos à metade do traçado horizontal eu virei para a direita e fui andando – claro que voando, no caso – nesse movimento de drible, até chegar próximo à montanha. Chegando próximo a ela, virei para ele e fui esperando-o – por um longo tempo, é claro (não) – achegar-se até mim, fazendo movimentos de costas semelhantes aos degraus de uma escada, mas um pouco mais em forma de parábola, enquanto ele tentava me acertar com seus raios. Quando ele estava perto de me atingir, voei de costas rapidamente até perto da montanha, onde ele não tentou me acertar com os raios, mas chegava com velocidade até mim para tentar me golpear com suas mãos. Pouco antes de ele chegar a mim, lancei-lhe um raio e esquivei-me para cima. Ele não foi tão ferido, logicamente; foi até significativo, mas não gerou uma redução em seu potencial na luta. Assim, com fins acho que totalmente estéticos, eu apoiei-me na montanha com minha perna direita e me empurrei, como quem fosse fugir em direção ao mar. Mal comecei minha disparada, já acostumado tanto com esportes de drible (lê-se futebol), fui novamente para cima e voltei um pouco em direção à montanha, novamente em parábola, mas, agora, descendo mais, esquivando-me de forma que até eu me assustei, não tinha visto que ele estava tão próximo. Nisso, enquanto ele esteve por um momento como alvo novamente, lancei outro ataque, atingindo-o novamente. Vendo que com o ataque ele vacilou, lancei outro, e outro, e, finalmente, mais um, com maior intensidade e duração, mas não acreditando que isso seria necessário, só pensei em tentar debilitá-lo ao máximo, visando favorecer minha luta.

Eu permanecia apenas um corpo flutuante, eu era praticamente inerte, só utilizava aquilo que eu tinha, que era o voo, a velocidade, a habilidade de esconder o destino de meus movimentos e meus fortes ataques de energia. Sei, falando assim parece muita coisa, mas não, eu não tinha nenhum tipo de resistência física, os trancos que eu dava para conseguir driblá-lo eram muito fortes, meu corpo os sentia com imensa dor, e era para mim algo terrível manter-me daquela forma. Era como se ficassem batendo no seu osso quebrado, ou ficassem dobrando seu joelho que se recupera de um rompimento nos ligamentos, coisa assim; não era tranquilo. Após realizar esse último ataque, reduzi minha altitude – que não era tão alta, mas já chegava um pouco abaixo do topo da montanha – e fui descendo, como numa curva exponencial. Logo depois de ter me equiparado à faixa horizontal em minha curva, mudei meu curso em sentido, num forte tranco, suficiente para me fazer caírem as lágrimas de desespero, suplicando para que essa luta terminasse logo. Eu precisando de cerca de dez minutos e já deveriam ter se passado, vejamos, claro, quase dois minutos. Sim, minha situação era muito complicada. Mas vinha dando certo. Eu estava bem me desviando dele e confundindo sua cabeça. Mas precisava de tempo, para não ficar apenas voando feito um louco, fugindo sem destino, pois uma hora eu não teria mais condições de resistir. Eu tinha que fazer com que ele se sentisse ameaçado, para que atacasse com mais cuidado, com maior lentidão.

Foi então, que, após esse meu último movimento mencionado, eu esperei que ele se achegasse um pouco mais próximo a mim, com um movimento de suposta indecisão entre esquivar-me para baixo ou para cima, que efetuei para confundi-lo – e digo dessa forma somente para escapar do termo “gingado” – fui para cima, voltei um pouco para trás, num movimento diagonal para retornar à linha de altura dele e o ataquei com meu escudo, fazendo com que ele caísse. Nesse momento, não deixando que me escapasse a chance, voei junto a ele em sua queda para permanecer atacando, ainda que eu estivesse com muita dor, e permaneci lançando raios, estando eu próximo dele, raios semelhantes a bombas e, estando à cerca de dez metros do chão, o deixei cair e permaneci atirando, agora novamente imprimindo um ataque mais constante, para que ele se mantivesse lá. Torno a comentar que isso só era possível porque minha energia não vinha de mim, eu não tinha essa energia, eu transformava qualquer outro tipo de energia, luminosa, sonora, qualquer tipo mesmo, em “energia em estado bruto”, o que deve ser a base de qualquer energia, pelo menos na física do meu mundo, é assim pelo menos que eu considero, e então converto isso em fortíssimos ataques. Apenas isso. Dessa vez, pouco depois de começar esse meu ataque mais forte, com ele agora no chão, ele logo se esquivou e veio em minha direção. A partir do momento em que o vi saindo do chão, afastei-me dali o mais rápido possível, sabendo que ele chegaria a mim antes que eu pudesse vê-lo. Fui em direção às águas. O tempo já devia ter se passado um pouco mais consideravelmente.