97. Inconsequência

23/08/2012

Logicamente, querendo eu saber o que ocorria, eu fui atrás dele pelo buraco aberto no teto. Ao sair de lá, olhando ao meu redor, eu via meus três amigos enrolados por algo que me pareciam tentáculos que vinham de um vilão. Kerst era seu nome. Foi apenas o que pode dizer. Seus tentáculos saiam de lugares aleatórios de seu corpo, algo que parece minha técnica. Meus amigos se viam totalmente presos por aquilo.

Vi os olhos de decepção de Tito. Ele não acreditava que eu teria feito isso. Não conseguia conceber que eu os tivera colocado em segundo plano, não os atendendo no momento chamado. Eu também não acreditava, naturalmente. Eu que, naquele ponto da minha vida, já me julgava como alguém responsável. Não concebia. Eu via meus amigos totalmente presos diante de mim, sem qualquer possibilidade de escapar. Nubi parecia mais triste por saber que partiria e me deixaria só do que pelo fato de partir. Não se importava tanto consigo mesmo, e sim comigo. Aquele amor lindo que eu tinha pelos meus amigos antigos. Eles não voltaram, mas isso não me impediu de amar esses novos. Huor ainda não tinha esse contato tão imenso comigo, mas era um bom rapaz. Mas Tito e Nubi eram tudo o que havia de mais lindo no meu imaginário. Nossa amizade era linda, eu sempre os amarei com muitas de minhas forças. É difícil que alguém desse mundo conquiste um pedaço tão imenso de meu coração quanto conquistaram esses meus amigos da Fabilândia. Incrivelmente difícil.

Meu oponente agora tinha reféns, de uma forma muito sólida. Eu estava travado, incapacidade de fazer qualquer coisa. Os olhos de Tito, além de expressar o desapontamento, também diziam claramente sua preferência: eu era mais importante para o mundo do que ele. Tecnicamente, ele está certo. Mas o mundo sem eles torna preferível a inexistência, absolutamente. Que alegria eu teria naquele mundo sem eles? Inimaginável.

Foi tudo muito rápido. Ao encontra-los, acima do teatro, já pude olhar para cada um e retirar as mensagens de seus olhos. Eles pareciam ter a garantia da morte, algo terrível. Eu, olhei para o monstro e, paralisado, buscava o que fazer para trata-lo sem que seus reféns se ferissem. Creio que essa cena inteira, esse capítulo por completo, refere-se a algo que ocorreu em cerca de vinte e cinco segundos. Não tive tempo de reparar que, ao sair do teatro, o céu estava avermelhado, grande densidade de névoa por volta de tudo. Eu não tive tempo de nada.

Após eu ter olhado rapidamente cada um, algo que se repetiu acho que duas vezes, aquele monstro gritou qualquer grunhido e também “Eu sou Kerst!”. Foi o que ele fez. Ele tinha reféns, provavelmente conseguiria negociar comigo, fazer qualquer coisa. Ele conseguiria me vencer. Mas não foi essa a sua escolha. Ao término de seu grito, seus tentáculos se envolveram de alguma energia e começaram a esmagar meus amigos. Foi muito rápido. Eu via seus corpos se contorcerem, seus ossos quebrando-se, sangue, suas faces sendo espremidas. Creio que só Nubi tenha tido tempo de gritar de dor, talvez pela posição dos tentáculos. Ao menos foram os únicos gritos que ouvi. Muita coisa ruim me aconteceu na vida. Coisas terríveis e traumatizantes. Convivo bem com todas elas. Nenhuma cena me foi tão horrível na história como essa, como ver claramente, fisicamente, meus três amigos serem mortos em minha frente, da forma mais cruel, violenta e dolorosa que eu poderia pensar, se é que minha mente tem o poder de criar algo assim tão desesperador. Seus corpos, como lá ocorre, começaram a se esfarelar, desfragmentar, misturando-se, assim, à névoa. Tudo isso sem que eu nada pudesse fazer, eles já estavam mortos.

Tive apenas o tempo de alongar uma pequena parte de meu braço, colocando-a em outra dimensão e tornando-a invisível. Com isso, sem que ele visse, usei para prendê-lo algo que também poderia ser como um tentáculo desses que ele utilizou. Eu amontoei isso tudo em volta dele e pensei em mata-lo da mesma forma. Mas eu senti a necessidade de ser mais violento. Ele já estava preso, totalmente vulnerável. Eu acertei seu rosto com meu joelho, primeiramente, e o carreguei até o topo da montanha. Lá, subi mais ainda, uma mão em seu corpo e outra na parte de trás de sua cabeça, ainda o prendendo com uma parte esticada de meu corpo. É isso que eu faço, eu me estico, expando meu corpo da forma que eu quiser, podendo transitar em qualquer dimensão. Não me contentei. Comecei a descer com alta velocidade e chocar sua cabeça contra o topo da montanha. Eu estava utilizando minha dimensão que torna-me invulnerável e, por mais que eu já tenha mencionado isso, retorno às minhas aulas de física: toda ação provoca uma reação de mesmo sentido e intensidade, mas direção oposta. Creio que só decorei isso por causa de minha técnica na Fabilândia. Bem, com essa dimensão, eu torno-me impenetrável, e faço com que qualquer ação que meu corpo realize contra outro qualquer não receba uma reação, mas faça com que a minha ação tenha a intensidade dobrada. Pois bem, poderia eu poupá-los disso e apenas dizer que empurrei sua cabeça contra o topo da montanha estando a uma velocidade inimaginável, fazendo sua cabeça explodir violentamente como se não houvesse amanhã.

Não sei até hoje se devo me arrepender de não o ter torturado ou se me agrado de tê-lo matado de uma forma absurdamente violenta. Era tudo o que eu queria fazer com Fário, mas que, naquela época, eu ainda não tinha a força suficiente para fazê-lo. Na verdade, não devo refletir sobre o castigo que dei ao assassino, mas sobre minha irresponsabilidade. Poderei, a partir de agora, ser conhecido como “Fabinho – o idiota que fez seus melhores amigos morrerem”. Meu buraco não é mais somente na barriga, mas também em tudo, creio que principalmente no cérebro.