94. Nervosinho

19/08/2012

Voltamos ao chão e começamos a discutir enfurecidamente. Ele teria se ferido, pouco, mas estava ferido. Eu não conseguia conceber que ele tinha percebido, nem aceitar que eu tinha pensado nisso, até porque foi muito rápido, não foi um pensamento que tenha gerado grandes reflexões. Foi uma fração de segundo. Mas ele viu isso nos meus olhos. Mas eu não ia me matar, certamente não iria, já estava preparado para acabar com o monstro sem problemas. Eu jamais esperava que meu amigo fosse fazer isso.

E discutíamos sobre meu ódio, razão da existência desses monstros, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre o que eu pretendia que o mundo virasse, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre a minha irresponsabilidade, sobre a idiotice dele ao fazer isso, sobre minha ingratidão, sobre a idiotice dele ao fazer isso. Eu não tinha muito que falar, estava totalmente irado, totalmente, como estive poucas vezes em minha vida. Antes que eu lançasse sobre ele um raio destruindo-o, eu fugi dali, rapidamente. Fiquei tentando fazer qualquer coisa, tentando encarar a ideia de que eu realmente pensei em suicídio. Eu nunca tinha visto isso tão de perto. Mantive em profundo desespero e me deitei, a fim de dormir.

Após a terceira revirada à cama, que ocorreu muito rapidamente, voltei para lá e, apontando para a cara daquele meu amigo idiota lindo, com cara de sério, revoltado, cheguei perto dele e lhe dei um apertado abraço. Comecei a chorar infinitamente por me ter dado conta de que eu ainda não havia recobrado minha motivação de vida. Ou, pelo menos, faltava um bom tanto dela. A cena foi até, de certo modo, provida de graça, uma vez que eu realmente fingi estar ainda muito irado quando queria, na verdade, reconciliação. Nubi fez até o favor de gritar, tentando me impedir. Despedi-me e fui deitar.

No dia seguinte, após algumas coisas não terem dado muito certo, voltei àquela mesma raiva. Não era mais com Tito, era com a vida. Eu me sentia muito irado. Ficava ali, ao computador, tentando me animar. Não dava tão certo assim. Gente sabe ser muito idiota na internet, isso me irrita. Até que, em certo momento da noite, ouvi me chamarem na Fabilândia. Era um exército bem bonitinho que por ali passava. Eles estavam com alguma dificuldade. Eu cheguei. Todo exército se moveu em minha direção, ignorando completamente os coitados dos meus amigos. Estes, por sua vez, pararam para ver o que eu pretendia fazer. A ira era imensa.

Eram todos como soldados, soldados humanos. Claro que não eram humanos, mas eram algo como isso, tinham lanças e escudos. Eu simplesmente desci até o chão, desconsiderando qualquer dupla conotação que haja nisso, e os comecei a bater neles. Eu apenas batia neles. Meus golpes físicos já são valorosos o suficiente para matar. Eu não ativei minha invulnerabilidade. Não tentava eu morrer, apenas estava tão nervoso que pretendia mata-los como se eu fosse o grande lutador. Utilizei meu ataque de energia apenas algumas vezes, mas ali, finalmente, consegui fazer a luta esteticamente perfeita, como sempre sonhara. Eu apenas batia em todos eles, como nos filmes. Desviava das lanças sem precisar voar ou coisa do tipo. Apenas usava minha velocidade para me esquivar e acertar golpes fortes. Eram cerca de sessenta soldados ao mesmo tempo, matei todos eles socando-os e chutando-os. Foi uma realização épica demais para se narrar em apenas um parágrafo, mas creio que nenhuma palavra enalteceria tamanha beleza de combate.

Com isso, direcionei-me aos meus amigos, na finalidade de despedir-me, dizendo que não estava muito bem. Eles me impediram, dizendo que precisavam apresentar alguém. Huor era seu nome. Apontaram-me como o mais novo integrante do nosso esquadrão da justiça. Ele me parecia um bom rapaz, mas era meio chato. Não engoli direito essa ideia. Meus amigos, em meu mundo, não são chatos. Aliás, eu acabara de derrotar um exército. Exércitos têm comandantes, por que ele não poderia ser o tal comandante? Eles não me convenceram direito só falando. Eu fui discreto, perguntando aos outros sobre sua origem, mas, não satisfeito, o peguei pelo pescoço, deitei-o ao chão e perguntei se ele não me traria problemas. Ele, aterrorizado, respondeu que não. Confirmando que isso era bom, o soltei. Mas ele era meio babaca, insistindo em diálogos que não seriam edificantes.

Ele era bom sim. Acho que era. Tinha um tronco em formato quase circular, era bem magro e orelhas pontudas. Cabelos ruivos, era bem estranho, como qualquer outro. Tinha mais ou menos a minha altura naquele mundo, um pouco mais alto. Era um bom rapaz, era amável, quase humilde e atencioso. Seu grande problema mesmo era levar as discussões para um lado onde ele sempre parecesse o mais inteligente. Ou tentar levar, pois ele era um tanto quanto desprovido de conhecimentos. Entendo que ele só buscava uma ascensão no nosso modo de vê-lo. Nos tornamos bons amigos. Entretanto, o laço que tínhamos não era tão forte quanto o que eu guardava com meus outros amigos. Ele era como um rapaz legal que tenta entrosar-se com uma roda de amigos muito forte. Como todos eram legais, ele foi bem recebido, mas não era bem como aquele achegado de longa data, até porque ele não era um achegado de longa data.

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