98. Perdi

27/08/2012

Aquilo que mais me fazia sentido, mais me dava força. Aqueles que mais me traziam sentido, esperança. Aquilo que me renovava, que me trazia de volta às ideias, aqueles que nasceram de minhas ideias. Eles eram aquele tudo que não se pode restituir. Aquele riso a fim do dia que não pode faltar. Eram parte de mim, uma parte insubstituível. Eu aprendo a viver utilizando outras partes de mim, sempre o fiz. Muito se diz sobre o fato de o cérebro ter plasticidade, adaptar-se a utilizar outras regiões para desempenhar a mesma função. Sou assim com essas perdas. Elas doem, mas são dores superáveis. Consigo superar muitas coisas nessa vida.

Contudo, tenho visto muita dificuldade em superar a falta que me fazem aqueles sorrisos que eu tinha todas as noites. Era muita relevância de meu tudo saber que, chegando a noite, eu me deitaria e viajaria a um lugar onde ainda é dia, sempre é de dia, e lá encontrarei amigos que não buscam sono, buscam a mim. Eu ainda faço essas viagens. Defendo meu mundo de todo mal que por lá aparece. Tenho algumas crises de saúde quando tardo a perceber que estou sendo atacado, mas tudo volta ao normal depois disso. Mas esse normal está muito abaixo do que eu queria. O que eu mais queria era ter respondido à voz de Tito. Tito. Aquele rapaz enorme que conseguia ter um coração ainda maior do que ele mesmo. Eu brincava que o coração dele precisava de uma ilhota inteira para abrigar-se. Ou talvez seu coração já fosse uma das ilhotas. Quem saberia se não é?

Era lindo saber que eu mandei formar minha região azul como um palco para shows onde, futuramente, eu estaria junto ao meu amigo de todos os dias ali, tocando. Eu e Nubi, os maiores guitarristas de toda Fabilândia. Por lá nunca passou alguém que tirasse um som tão bonito de uma guitarra Fender quanto ele. O melhor timbre que poderia existir, o timbre inimaginável. Ninguém vai se esquecer daquele solo lindo que ele fez durante a “Balada da noite que não cai”, nossa canção mais emocionante. Ele também cantava, sua voz era tão linda. Fizemos os duetos que o mundo pagaria o mais caro preciso para ouvir. Pobre do mundo, que não conhece a Fabilândia. Estou certo de que, se pudessem viajar até lá comigo, se todos tivessem essa oportunidade, toda vez que se conhecesse alguém novo, se perguntaria: “Já assistiu aos shows da Fabilândia?”. O mundo seria menos provido de tristeza se pudesse assistir aos incríveis shows da Fabilândia.

Tito gostava do teatro. Representar era ser. Ele criava peças, pedia para que participássemos. Pouco utilizamos aquele teatro, eles não tiveram muito tempo para que desfrutassem dele. Até quando levavam um roteiro até Tito, era como se aquela fosse sua vida. Soubera eu antes, já teria mandar erguer um teatro qualquer por lá. E o mundo diria: “Há um ator na Fabilândia, um ator como nunca antes se viu”. Era uma naturalidade incrível. Eu deveria ter percebido antes, vendo o jeito como ele contava suas piadas, como procedia com seus gracejos. Eu não deveria tê-lo deixado partir.

Huor era bom. Pouco tempo vivi com ele. Ele se perdia em seus próprios discursos, pude rir bastante com ele. Fazia muito sentido ele estar ali, estou certo de que ele entraria na estante de melhores amigos, tendo vivido mais. Ou, se ele aparecesse um pouco depois, não teria morrido com os outros, estaríamos juntos. Não posso descrever o que tenha sido melhor, foi tudo a pior coisa acumulada, um amontoado de fezes recaindo sobre mim.

Quantos momentos inesquecíveis; me esqueço do que como ao jantar, mas me recordo perfeitamente de tantos momentos incríveis que tivemos. Como aquela vez em que Nubi quis aprimorar seu poder de fogo. Quis mostrar que era valoroso. Claro que era, ninguém duvidava. Mas ele quis mostrar, foi matar um monstro nas areias. Usou seu fogo, com toda sua força. Quase transformou o deserto em vidro. Tito tinha, além de suas incríveis habilidades, aquele poder que, apenas ao estender sua destra sobre nós, como se tivesse pó em suas mãos e arremessasse em nós, de baixo para cima, nos fazia cair em um delírio. Não havia nada em suas mãos, mas éramos envolvidos em um círculo onde tínhamos uma sensação de prazer infinita. Isso durava alguns segundos. Era o que havia de melhor, ele fazia isso com a gente quando estávamos alegres. Era quase como saudação e despedida, algo totalmente pertinente.

Quem dirá que nosso amor era falso? Quem dirá de meu delírio? Aquilo era o que de mais real o amor nos pode mostrar. Aquilo era o máximo resultado que se atinge estando sóbrio. Tive quatro grandes amigos naquele mundo, os quatro maiores pedaços de mim que deixei cair pelo caminho. Ainda ando. Manco, mas ando. Colho do fruto da idiotice. Creio que a pior forma de ser idiota é não dar tudo de si por alguém que ama. E a pior dor que existe é quando se percebe que deixou isso ocorrer.

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