96. Prioridade

21/08/2012

O carnaval se passou, foram momentos mais do que alegres, conheci pessoas que até hoje guardo com muito carinho em meu coração. Todos os eventos de lá alcançaram os lugares mais profundos de meu coração gritando: “Alegre-se!”. Minha nova realidade trazia todas as circunstâncias necessárias para que eu me encontrasse feliz novamente.

Quinta-feira. Cheguei à minha humilde residência após boas aulas na faculdade. Era tudo muito novo, eu vinha me agradando com tudo o que me era exposto, meu senso crítico não estava tão aflorado. Sou muito apegado ao futebol. Sempre gostei de jogar e de assistir. Meu time do coração estava jogando naquela noite, com transmissão ao vivo na televisão fechada. Por estudar ao período noturno, sempre acabo tendo a possibilidade de assistir aos jogos apenas à segunda metade. Era um jogo tenso. Tudo me fazia querer assistir aquilo até o final. Eu estava bem concentrado, bem preso àquilo. Eu estava sozinho na sala assistindo.

Ouço me chamarem. Era Tito. Uma voz doce e rasgada com um tom um tanto quanto aflito. Eu estava acostumado com isso. Era natural que, quando algo lá ocorresse, ele me chamasse. Entretanto, hora ou outra, eu era chamado por certas bobagens. Isso ocorrera durante o acampamento: eu estava junto a todos, desfrutando de várias atividades infantilmente divertidas, brincadeiras de salão, entre outras coisas. No meio de todo mundo. Eles me chamaram, eu saí correndo ao banheiro, simular qualquer coisa para que não me vissem enquanto estivesse em meu mundo, pois já comentei que é como se eu estivesse em coma, meu corpo desliga-se totalmente; isso poderia preocupar o pessoal do acampamento, não queria isso. Escondido, fui ver o que era e notei que não se tratava de nada interessante, apenas alguma reação estranha nas águas. Isso me irritou um pouco, mas eu os entendo, tranquilamente os repreendi e tudo ficou bem. Mas, em decorrência disso, acabei por não atender o chamado de meu amigo.

Ele me chamou novamente, me parecia aos prantos. Preocupei-me, desesperei-me, tão logo resolvi olhar para o mundo e ver o que ocorria. Nada encontrei. Achei estranho. Olhei melhor e vi Nubi e Huor tranquilos a passear pela praia. Eu não entrei no mundo, apenas vi o que estava ocorrendo através daquele sistema que desenvolvemos.

Voltei a assistir ao jogo. Meu time ganhou. Lembro-me de ter desligado a televisão, desligado a luz e, no momento em que estava indo até meu quarto, no corredor, Tito gritou mais uma vez. Gritando mesmo, me repreendendo. Gritou “Fabinho” das primeiras vezes, mas chegou a “Fábio” na terceira. Corri para o quarto, deitei-me ainda com algumas coisas à cama que arremessei rapidamente ao chão e, finalmente, entrei em meu mundo. Para minha surpresa, não achei mais meus amigos andando ao redor da praia. Olhei para as ilhotas. Fui em direção a elas, procurando-os em cada uma. Cheguei à última.

Ocorreu algo interessante quando namorei a garota da internet, algo que nunca antes vi ocorrer: nasceu uma ilhota em meu mundo. Não sei que tipo de sentido isso pode fazer, mas nasceu. Lá havia uma grande construção, bonita, com teto circular, linda arquitetura: era um teatro, um grande teatro.

Andando, entrei no teatro. Lentamente. Eu estava muito tenso, meus amigos não apareciam. Sei que faço tudo parecer muito rápido, mas não se enganem. A agonia que eu sentia era tamanha que, caso eu pudesse materializá-la, ficaria ainda maior do que Tito, que era gigante. Cheguei à sala principal. Havia alguém ali no palco, numa região escura. Um foco de luz acendeu-se ao centro. Nubi, com um violão, começava a tocar uma canção. Uma linda canção, cuja melodia me lembro até hoje, mas que repetia apenas uma frase: “no mundo, não se esconde nada”. Até hoje – e isso jamais acabará – não consigo entender o que significa isso. Não consigo entender, simplesmente. Creio que não haja um sentido. Foi só qualquer coisa que ele tinha a cantar naquele mundo, a única coisa que lhe veio à mente. Quem sabe esta não era sua melodia preferida, algo que teria feito para outra situação. Ele cantava e eu o chamava. Ele engolia seu choro e não me podia responder. Não havia ninguém na plateia. Com isso, eu flutuei até ele, não muito rapidamente, mas com certa velocidade. Quando cheguei próximo a ele, ele voou verticalmente, quebrando o teto do teatro para sair. Ele estava me olhando com toda a dor que seu coração poderia sentir.

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