99. Prosseguimento

29/08/2012

A vida, o tempo não para. É o que dizem por aí. Prossegui. Meu amor buscou novas artes, novo engenho, novas esquivanças, e ainda novas esperanças. Não que eu me esqueça das coisas tristes que aconteceram. Elas só não estão mais acontecendo.

Reformei o Teatro Tito. Escrevi até uma peça a ser interpretada. Semanalmente há uma grande apresentação por lá. Sigo calmo, tranquilo. Divirto-me. Tenho trabalhado em meu mundo como um governante, um bom governante. As pessoas que existem lá não duram mais que um dia. Aparecem, me ajudam e somem. Queria fazer com que minha mente se tornasse mais grata. Faço melhorias por lá, trabalho cada canto que percebo que poderia ter algo mais interessante. A cidade, outrora vazia, ainda que tecnológica, hoje é bem densa, cheia de prédios, lugares para se fazer alguma coisa. Aumentou o número de pessoas que encontro. Todas me conhecem, não conheço ninguém. Não são meus amigos, mas os valorizo bastante. São gente importante para mim. Queria vê-los mais para lhes retribuir o favor, fazer de suas vidas algo melhor. Mas desfruto do bem que me fazem, creio que seja isso o que querem.

Prossigo com os estudos. Como já disse, percebi que adoro a linguagem. Eu sempre tive problemas no ensino médio quando refletia sobre o fato de não gostar de matéria nenhuma, até que percebi essa vocação. Ainda mais quando comecei a escrever o livro, onde eu aprendi que tudo aquilo que se aprende sobre sua língua pode (ou deve) ser esquecido. Aprendi muito sobre novas formas de ver a vida na faculdade.

Meu cabelo já está quase do tamanho que estava quando comecei a escrever o livro, tendo em vista que, alguns meses depois do início, ele foi totalmente raspado. Quando comecei a escrever, ainda tinha meus amigos Tito e Nubi. Percebo que talvez haja uma confusão quanto a isso. Narro o livro conforme a vida acontece, é assim que decidi que haveria de funcionar. Espero ter me feito claro. Tanto que, há muito tempo, citei sobre o aparecimento de uma nova ilha, que só fez sentido agora. Citei também que algo me entristecia, era justamente o término daquele namoro. Eu sei que um bom autor não costuma revelar seus segredos, seus planos, mas não sinto a necessidade de ser um bom autor. Queria eu contar histórias e o fiz. Interessa-me mais que ela seja compreendida e levada a sério do que me fazer passar por um daqueles grandes intelectuais que se dedicam anos planejando cada palavra de seu livro para, no final, deixar tudo confuso, sem solução aparente. Por mais que eu adore os autores que o fazem, busco grande inspiração neles. Mas não sou em tudo como eles. Escrevi muitas coisas fora de meu planejamento, em nada lamento por isso. Busco me tornar compreendido, tudo foi relevante para isso. Por isso prossigo. Prossigo mostrando no que o mundo me fez pensar, o que ele me fez aprender. É isso o que mais importa para mim.

Aprendi que coisas boas trazem bons frutos. Sementes podres não frutificam. Trabalhei durante pouco mais de seis meses num lugar que eu detestei. Ainda assim, mantive-me no mais alto rendimento que poderia alcançar, sendo eu recompensado várias vezes. Tenho uma amiga, conheci-a recentemente. Ela possui quantidades incrivelmente maiores de açúcar em sua alma. Seu maior medo é magoar as outras pessoas. Também tenho esse medo. Meus amigos Jumi e Silu lançaram-se à minha frente por diversas vezes, em busca de minha proteção. Aprendi que isso é o amor. A sociedade carece disso. Busco amar com muitas das minhas forças todos os que me aparecem, sem distinções. Isso realmente me faz ter muito medo de magoar as pessoas. Qualquer pessoa que seja, tenho medo de magoar. As maiores dores que já senti nessa vida são provenientes de meus atos idiotas que magoam ou machucam ou até matam as pessoas, como vos contei. Ela também é assim. Ela deixa de envolver-se com as pessoas com medo de magoá-las. Acho válido o medo. Não acho válido deixar de viver por causa dele. Ele te dá mais segurança, te faz calcular melhor seus passos. Tenho tentado ensiná-la a não ter medo de envolver-se, pois mágoas de atitudes corretas não são eternas. São como a dor da injeção: pode até causar certo desconforto físico na hora, mas é algo que fará bem. Agindo corretamente, fazendo o bem sempre, isto é, fazendo sempre o que é certo, ainda que se magoe alguém, isso será uma dor que passará. Mesmo que se aja de maneira inadequada, por se estar tentando pautar a vida em fazer o que é certo, essa dor passa. Eu aprendi que dores passam diante de coisas certas.

Segui fazendo meu trabalho da melhor forma possível, fui recompensável de maneira ainda melhor. Consegui trabalhar na área que gosto, consegui o ambiente de trabalho mais lindo e gratificante que poderia existir. Exatamente do jeito que eu passei a sonhar. Passei a ser uma referência intelectual, eu que fora antes acusado de desprovido de inteligência. Passei a dar conselhos, bons conselhos, e ser respeitado em meus conselhos. Tornei-me sábio diante do julgamento das pessoas. Alcancei minha realização profissional, algo que me tem valido muito mais do que qualquer dinheiro. Além disso, sou reconhecido em meu trabalho como alguém bastante confiável, de caráter limpo e exemplar. Não me julgo bom o suficiente, nem melhor do que os outros, mas entendo que sou alguém que, um dia, percebeu que era importante fazer o que é certo. Minha concepção de certo é minha concepção de certo, ninguém precisa concordar comigo. Pra mim, certo é fazer o bem para as outras pessoas, incondicionalmente. Não sou ainda assim, mas tenho isso como meu alvo, o que já traz bons frutos. Tornei-me professor de português, entendendo que não é natural do ser humano acordar cedo para ficar, durante horas, sentado em uma cadeira dura ouvindo alguém falar sobre algo que não lhe é interessante. Tento propor momentos agradáveis e compartilhar com meus alunos algo que ninguém há de tirar deles, que é o conhecimento. Faço deles meus amigos e trato eles do mesmo jeito que a qualquer outra pessoa. Olho para minha vida, olho para meu rumo. Agrado-me do que creio que virá.